Identidade Marrom e Plurinacionalidade na América Latina

A América Latina é muito mais do que um continente; é um mosaico intrincado de histórias, uma realidade que se revela tanto nos incidentes de racismo quanto nos avanços constitucionais e nas provocações artísticas.

Três acontecimentos recentes, aparentemente isolados, provocaram reflexões e várias conversas para desvendar sua essência e os aprendizados consequentes no complexo emaranhado da nossa América Latina. Por um lado, a notícia de uma advogada argentina processada legalmente no Brasil por expressões racistas públicas nos confrontou brutalmente com a persistência de preconceitos arraigados. Por outro, a comemoração de 17 anos na Bolívia de ter-se constitucionalmente assumido como Estado Plurinacional, independentemente da linha do seu governo atual, nos ofereceu um farol de esperança e um modelo concreto de reconhecimento da diversidade. E, finalmente, a audaciosa declaração de um maravilhoso artista argentino, Milo J., que se define e define a América Latina como “Marrom”, ergueu-se como uma potente afirmação política e cultural. Esses três pontos, díspares em natureza, são fios que tecem uma narrativa crucial sobre como compreendemos e assumimos hoje nossa identidade regional.


A América Latina é muito mais do que um continente; é um mosaico intrincado de histórias, cores e sons que resiste a qualquer definição simplista. Mas como entender essa identidade complexa de uma maneira que vá além dos clichês turísticos e se conecte com a realidade atual, uma realidade que se revela tanto nos incidentes de racismo quanto nos avanços constitucionais e nas provocações artísticas? Uma nova abordagem nos convida a explorar as “tonalidades” de nossas sociedades, a reconhecer uma “ética subversiva” profundamente enraizada em nossas expressões culturais e a abraçar a plurinacionalidade como o caminho ineludível para um futuro mais inclusivo e verdadeiramente representativo.


Para compreender a identidade latino-americana hoje, precisamos nos afastar das ideias simplistas de unidade homogênea que frequentemente obscurecem a riqueza de nossa diversidade. Não é uma única identidade monolítica, mas uma rede dinâmica de experiências que mudam constantemente, profundamente influenciadas por aspectos socioeconômicos e raciais que, historicamente, foram negligenciados ou deliberadamente invisibilizados. Pensemos nas “tonalidades”: estas não são apenas matizes culturais superficiais, mas as diferentes e frequentemente contrastantes formas de viver e perceber o mundo que surgem diretamente da profunda desigualdade social, que vai desde as vibrantes e caóticas megacidades até as comunidades rurais mais isoladas.


O lamentável episódio da advogada argentina processada por racismo no Brasil é um duro lembrete de como essas “tonalidades” podem ser fonte de conflito e discriminação. Não é um incidente isolado, mas um reflexo das tensões raciais e sociais que persistem, onde certas “tonalidades” da população são sistematicamente desvalorizadas. Paradoxalmente, dessas profundas diferenças e da resistência à opressão, nascem expressões culturais, artísticas e modos de vida compartilhados que desafiam o estabelecido, buscando novos mundos possíveis com justiça e dignidade.

Foto: Coletivo Identidad Marron


A “Ética Subversiva” do Latino-Americano
Dessa interação constante de realidades diversas e, frequentemente, conflitantes, emerge uma poderosa “ética subversiva”. Isso significa que entre os latino-americanos existem expressões e práticas que desenvolvem maneiras de ser e de agir que valorizam intrinsecamente aquilo que tradicionalmente tem sido considerado marginal, subalterno ou ignorado pelos cânones hegemônicos. Formas inatas de resistência e resiliência que se manifestam de múltiplas formas, desde a música popular que narra as lutas cotidianas, até as artes visuais que reinventam o sagrado e o profano.


Declarações que sustentam que “Superamos o tempo do rancor, os princípios absolutos, as verdades hegemônicas, as visões homogeneizadoras, os olhares estáticos e as atuações autoritárias”, são expressões de “ética subversiva”. O fato de que a sociedade brasileira e seu sistema legal reagem a um ato de racismo, buscando sua punição, é uma manifestação clara de intenção similar. É uma afirmação de que certos comportamentos, historicamente tolerados ou ignorados, já não são aceitáveis e devem ser confrontados, protegendo assim a dignidade das “tonalidades” mais vulneráveis.


Essa ética não só resiste, mas também dá origem à “comuns estéticos”; ou seja, formas de organização social, beleza e arte que não seguem nem se subordinam aos cânones europeus ou do primeiro mundo, mas que celebram a autenticidade local. Aqui, a beleza se encontra na explosão de cores do grafite de rua que transforma muros esquecidos, nos ritmos contagiantes ancestrais e atuais da cumbia, do candomblé, do samba, do funk ou do rap latino que convidam à celebração coletiva, ou nos altares populares cheios de fé e sincretismo que povoam nossos lares e ruas, ou nas extraordinárias explosões de prazer que se vivem em nossos tão diversos carnavais, ou na criatividade sem limites que surge da reciclagem e da necessidade. São estéticas que celebram a autenticidade da mistura, a riqueza da miscigenação e a assombrosa capacidade de encontrar luz, alegria e esperança em meio à adversidade

.
A “Identidade Marrom”: Um grito de afirmação e visibilidade
Nesse panorama de resistência cultural e redefinição estética, um conceito crucial que ganhou atualmente uma força inusitada é a “identidade marrom”. E é aqui que a declaração do artista Milo J., ao definir-se e definir a América Latina como “Marrom”, adquire um significado extraordinariamente potente. Não se trata simplesmente de uma referência à cor da pele em um sentido biológico ou estético, mas de uma afirmação política e cultural profundamente enraizada. Não é mestiça, é marrom. É a reivindicação decidida de corpos e rostos que historicamente foram invisibilizados, sistematicamente discriminados ou relegados à periferia da narrativa nacional. Falamos das múltiplas e ricas heranças indígenas, afrodescendentes, mestiças e asiáticas que compõem a vasta maioria da população latino-americana.


A “identidade marrom”, encarnada na voz e na arte de Milo J., é uma declaração inconfundível de que essas peles e culturas não são “menos que” ou “intermediárias” em uma escala de valor imposta. Pelo contrário, possuem seu próprio valor intrínseco, uma riqueza incalculável, e devem ocupar, por direito próprio, um lugar central e protagonista na narrativa cultural e política da América Latina. É uma bandeira que se levanta com orgulho desde os bairros populares, as favelas, as comunidades ancestrais e as periferias de nossas sociedades, reclamando não só respeito, mas visibilidade plena e participação ativa na construção do futuro. Este movimento cultural, impulsionado por figuras como Milo J., está reescrevendo a forma como nos vemos e ao mundo, transformando o que antes foi motivo de estigmatização em uma fonte de empoderamento e celebração.


Plurinacionalidade: O caminho para a confluência da diversidade
É aqui que entra em jogo, com uma relevância fundamental, o conceito de plurinacionalidade, e é precisamente neste ponto que a experiência, em processo, da Bolívia, com seus 17 anos de Estado Plurinacional, se torna um modelo inspirador e um testemunho vivo. Este conceito transcende em muito o meramente político ou administrativo; é uma forma revolucionária de entender que dentro de um mesmo país coexistem, não apenas indivíduos, mas múltiplas nações, povos e cosmovisões com suas próprias identidades e aspirações. A plurinacionalidade, tal como expressa o texto constitucional da Bolívia, reconhece explicitamente e celebra essa diversidade intrínseca, permitindo que cada “tonalidade” da identidade marrom – cada grupo étnico, cada cultura, cada comunidade –, assim o desejamos, se desenvolva plenamente, com suas próprias línguas, suas próprias leis consuetudinárias, suas próprias espiritualidades e suas formas únicas de interagir com o mundo e a natureza.


A plurinacionalidade será o marco estrutural que permitirá que as diversas identidades marrons não se diluam em um cadinho homogeneizador que as apagaria. Pelo contrário, as fortalece e as empodera, gerando um diálogo de saberes e uma confluência de perspectivas que enriquece a totalidade da sociedade.


Uma linda provocação identitária
Em resumo, a identidade latino-americana do século XXI é, sem dúvida, uma tapeçaria complexa, dinâmica e fascinante. Acontecimentos como o processo por racismo no Brasil nos lembram das batalhas pendentes; a plurinacionalidade boliviana nos mostra um caminho incipiente, contraditório mas já iniciado; e a afirmação cultural da “identidade marrom” por artistas como Milo J. nos indica a direção da autoaceitação e do orgulho.
Ao entender nossa região através de suas “tonalidades” socioeconômicas e raciais, da ética subversiva que a impulsiona desde suas raízes, da potente e orgulhosa “identidade marrom” que a habita majoritariamente e da plurinacionalidade que busca integrá-la em um quadro de respeito, abrimos, de par em par, as portas para um futuro onde a diversidade não é apenas uma característica demográfica. É, em sua essência, a força vital, o motor inesgotável que constrói uma América Latina mais justa, mais equitativa e, sem dúvida, infinitamente mais rica em possibilidades para todos os seus habitantes.