História e desmistificação do Carnaval: entre controle social e expressão cultural

Carnaval vai além da festa: cultura, disputa política e memória coletiva em movimento.

Por Chris Zelglia

O Carnaval é frequentemente visto como sinônimo de alegria, excessos e diversão. No entanto, essa visão superficial ignora sua profundidade histórica e cultural. Mais do que um simples evento festivo, o Carnaval é um fenômeno social complexo, permeado por disputas simbólicas, tensões morais e mudanças políticas ao longo dos tempos e entendê-lo requer ir além de narrativas rasas e, muitas vezes, preconceituosas.

Suas origens estão nas festas populares europeias, que invertiam hierarquias e suspendiam temporariamente as regras sociais, especialmente antes da Quaresma cristã. Ao chegar ao Brasil, essas práticas se transformaram profundamente, misturando-se com manifestações afro-brasileiras, indígenas e urbanas, criando expressões culturais únicas, muitas delas marginalizadas e oprimidas pelo governo ao longo da história.

Nos séculos XIX e XX, as práticas carnavalescas das classes populares eram frequentemente criminalizadas sob alegações de ordem, higiene e moralidade urbana. O controle sobre os corpos, a ocupação do espaço público e as formas de celebração coletiva refletiam um projeto maior de controle social e exclusão. Assim, o Carnaval nunca foi apenas uma festa: foi um campo de batalha político e social.

Atualmente, parte do debate público perpetua mitos que simplificam a complexidade da festa e reforçam preconceitos. Entre eles, a ideia de que o Carnaval representa improdutividade, desordem ou desperdício de dinheiro público, ignorando sua importância econômica, cultural e simbólica. Outro erro comum é associar a festa à imoralidade ou à falta de civilidade, repetindo visões que historicamente deslegitimam as culturas populares, negras e periféricas.

Essas narrativas levantam questões importantes: quem decide o que é cultura legítima? Quais interesses estão em jogo quando as manifestações populares são desvalorizadas? E por que algumas expressões coletivas ainda são vistas como ameaças, enquanto outras são reconhecidas como patrimônio?

A crescente institucionalização da festa, com a organização de desfiles, regulamentações e investimentos públicos, trouxe reconhecimento cultural e visibilidade, mas também alterou as dinâmicas de poder e legitimação. A incorporação do Carnaval por órgãos oficiais revela tensões entre a valorização cultural e o controle simbólico, mostrando que a relação entre a cultura popular e o Estado é sempre uma negociação complexa e ambivalente.

Para entender o Carnaval em sua totalidade, é preciso considerar suas camadas estruturais: identidade, pertencimento, memória coletiva e resistência cultural. Ele funciona como um espaço onde os conflitos sociais se manifestam simbolicamente, seja na ocupação das ruas, na performance dos corpos ou na criação coletiva de narrativas culturais que desafiam as hierarquias existentes.

Desmistificar o Carnaval não significa diminuir sua capacidade de celebrar, mas sim reconhecer que a festa também é uma prática política, um campo de afirmação cultural e um espaço de elaboração social. Nesse sentido, refletir sobre o Carnaval é também refletir sobre desigualdades, reconhecimento cultural e o direito à cidade.

Talvez o ponto crucial não seja definir o Carnaval, mas sim entender o que ele nos diz sobre a sociedade que o cria: suas contradições, seus preconceitos, suas lutas por reconhecimento e suas maneiras de sonhar, juntos, com outras vidas possíveis.

Enxergar o Carnaval dessa forma abrangente é admitir que a cultura vai além da beleza visual, é um processo social dinâmico, moldado por poder, embates e mudanças constantes.