Hamnet, memória e poder: o que um drama de Shakespeare pode dizer sobre a política atual

Entre luto e arte, a história que inspirou Hamlet revela como memória e poder seguem em disputa até hoje.

Por Lohuama Alves

Foto: Divulgação

Em tempos de disputa intensa por narrativas, memória e poder, o cinema segue cumprindo um papel que vai além do entretenimento, onde provoca reflexão. A adaptação de ‘Hamnet’, romance da escritora Maggie O’Farrell, que chega às telas sob direção de Chloé Zhao, resgata uma história íntima da vida de William Shakespeare, mas também abre espaço para discutir algo profundamente contemporâneo: quem controla a memória coletiva.

Ambientado na Inglaterra do século XVI, o drama gira em torno da morte de Hamnet – filho de Shakespeare – e da forma como o luto atravessa a família. A partir dessa tragédia, o filme sugere que a arte nasce muitas vezes da dor, da perda e da tentativa humana de dar sentido ao que parece incompreensível. Foi justamente esse episódio que teria inspirado uma das maiores tragédias do teatro mundial: Hamlet.

O que uma história sobre Shakespeare pode dizer sobre o mundo de hoje?

Mais do que uma narrativa histórica, Hamnet dialoga diretamente com o presente. Em um momento em que a memória pública se torna campo de batalha, seja nas redes sociais, na política institucional ou na cultura, revisitar o passado também se torna um ato político.

No Brasil e em diversas partes do mundo, a disputa sobre o que deve ser lembrado, esquecido ou reinterpretado atravessa debates sobre ditadura, colonialismo, racismo estrutural e violência de Estado. Filmes, séries e livros que revisitaram essas memórias frequentemente despertam reações intensas. Relembrar também é uma forma de questionar o poder.

A história de Hamnet mostra como a memória não é apenas um registro do passado, mas uma construção afetiva, cultural e simbólica. Ao transformar o luto pessoal em arte, Shakespeare cria uma obra que atravessa séculos. A dor privada se torna patrimônio coletivo.

Hoje, em um cenário marcado por desinformação, revisionismo histórico e ataques à produção cultural, obras que revisitam o passado com sensibilidade e complexidade assumem um papel fundamental. Elas nos lembram que a memória não é neutra. Ela é viva, política e profundamente humana.

No fundo, Hamnet fala sobre algo que é visto no cotidiano, assim como sociedades lidam com perdas, traumas e silêncios. E como a arte pode transformar essas feridas em reflexão coletiva.

Se o poder muitas vezes tenta controlar o que deve ser lembrado, o cinema e a literatura seguem fazendo o oposto: abrindo espaço para perguntas. Séculos depois, revisitar essa história também é uma forma de lembrar que memória não é apenas passado. Memória é disputa.

E enquanto houver disputa sobre o que deve ser lembrado, a arte continuará sendo um dos territórios mais poderosos da política.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.