‘Guerreiras do K-Pop’ já garantiu o Oscar? Uma análise dos indicados ao prêmio de Melhor Animação
Em fase final de temporada, quais as maiores forças e fraquezas das animações que chegam ao Oscar 2026?

Por André Quental Sanchez
25 anos de uma categoria ainda em transformação
Tendo surgido apenas na edição de 2002, a categoria de Oscar de Melhor Animação completa 25 anos em 2026. Apesar de casos únicos como ‘A Bela e a Fera’ (1991, Gary Trousdale e Kirk Wise), indicada a Melhor Filme e produções como ‘Toy Story’ (1995, John Lasseter) recebendo prêmios especiais, foi somente a partir de ‘Shrek’ (2001, Andrew Adamson e Vicky Jenson) que a Academia passou a premiar anualmente esta técnica tão rica que é a animação.
Frequentemente confundida como um gênero cinematográfico, a animação é, na verdade, uma escolha técnica, capaz de levar uma produção a novos patamares e abrir possibilidades que um filme live-action dificilmente alcançaria com a mesma sutileza ou poesia.
Ao longo de mais de duas décadas de premiação, a Pixar segue como o estúdio mais vitorioso da categoria, com 11 estatuetas. Ainda assim, nos últimos anos tem crescido o debate sobre o que realmente faz uma animação conquistar o Oscar. Com o tempo, novas produções passaram a ocupar esse espaço. A surpresa mais recente foi a vitória de ‘Flow’ (2025, Gints Zilbalodis, Matīss Kaža, Ron Dyens e Gregory Zalcman) na última edição da premiação.
Na categoria de Melhor Animação deste ano, muitos acreditam que ‘Guerreiras do K-Pop’ (2025, Maggie Kang e Chris Appelhans) já tem a estatueta praticamente garantida. O filme venceu o Globo de Ouro e o Critics Choice Awards nesta temporada, além de ter sido bem recebido por público e crítica graças a uma história universal e uma animação exuberante que mistura cultura pop com muito coração.
Mas ele não está sozinho na disputa. Afinal, a disputa deste ano divide a animação contemporânea em quatro forças distintas: Pixar e sua busca por relevância, a Disney tentando o sucesso por meio de franquias, o prestígio autoral europeu e o fenômeno global do streaming. Como cada um destes está se destacando dentro da competição?
‘Elio’: A Pixar jogando seguro demais

É inegável que produções recentes da Pixar têm deixado a desejar desde que ‘Soul’ (2021, Pete Docter e Dana Murray) venceu o Oscar. Embora o estúdio ainda conte com a força de suas franquias, ‘Elio’ (2025, Adrian Molina, Domee Shi, Madeline Sharafian) já nasceu cercado por problemas que prejudicaram seu potencial.
Conflitos de bastidores, incluindo a saída de Adrian Molina, diretor original do projeto, levaram a mudanças criativas que alteraram significativamente o rumo do filme. O que prometia ser uma produção filosófica e existencialista, com elementos queer-coded no retrato de seu protagonista, se transformou em um filme seguro e excessivamente convencional.
Ainda assim, ‘Elio’ consegue emocionar ao explorar temas como amizade e família, elementos presentes na base de praticamente toda produção do estúdio. No entanto, dentro desta lista de indicados, o filme acaba surgindo como o azarão, já que apresenta pouco de algo realmente marcante.
Sua premissa de um menino solitário que não se sente pertencente à Terra e embarca em uma aventura espacial para encontrar seu lugar no universo, segue uma estrutura bastante clássica. Visualmente, o longa apresenta o tradicional estilo 3D da Pixar, repleto de cores e acabamento técnico refinado, mas que já não impressiona como antes, especialmente quando comparado à fluidez e ao dinamismo de produções mais estilizadas como ‘Guerreiras do K-Pop’.
Mais do que uma falha técnica, ‘Elio’ sofre por parecer genérico demais diante da ousadia vista em outras animações indicadas este ano. Ao optar por um caminho mais seguro, a Pixar deixa escapar a chance de entregar uma de suas obras mais maduras, algo que também levanta questionamentos sobre o momento criativo do estúdio.
No campo do marketing, o filme também enfrentou dificuldades. A campanha foi discreta; até mesmo uma postagem da Pixar nas redes sociais – interpretada por muitos como passiva-agressiva – culpava o público pelo fraco desempenho nas bilheterias. Na corrida para o Oscar, o apoio parece tímido, especialmente quando comparado ao investimento da Disney em outras propriedades intelectuais.
‘Zootopia 2’: O peso de uma sequência bilionária

Considerando que ‘Zootopia: Essa Cidade é o Bicho’ (2016, Rich Moore e Byron Howard) venceu o Oscar de Melhor Animação quando concorreu, é natural que a Disney tente repetir o feito com sua sequência.
‘Zootopia 2’ (2025, Jared Bush e Byron Howard) amplia diversos elementos do original, tanto em escala narrativa quanto no desenvolvimento de seus personagens. O resultado agradou público e crítica, consolidando-se como a maior bilheteria de uma animação hollywoodiana da história, com mais de 1,8 bilhão de dólares arrecadados. A questão, porém, permanece: sucesso comercial se traduz automaticamente em vitória no Oscar?
A franquia ‘Toy Story’ já provou que sequências podem conquistar premiações importantes quando apresentam coração, maturidade narrativa e inovação visual. Ainda assim, a Academia tem demonstrado nos últimos anos uma tentativa de ampliar seu olhar para além das franquias tradicionais.
Nesse sentido, ‘Zootopia 2’ ocupa uma posição curiosamente semelhante à de ‘Divertida Mente 2’ (2025, Kelsey Mann) na temporada passada: um filme extremamente bem-sucedido, mas cuja proposta depende da força de seu antecessor.
Embora a evolução narrativa seja clara, o filme não apresenta a mesma sensação de descoberta ou originalidade que marcou o primeiro longa. Visualmente competente, mas pouco inovador em relação ao original, acaba se apoiando mais em sua própria herança do que em novas ideias.
Mesmo assim, o fato de ter vencido o BAFTA de Melhor Animação – categoria na qual ‘Guerreiras do K-Pop’ não foi indicado devido à falta de lançamento comercial regular no Reino Unido – mantém o filme como um dos principais concorrentes ao Oscar. Mas a disputa não se resume aos gigantes da indústria.
‘Arco’: Delicadeza visual e mensagem humanista.

Com produção de Natalie Portman, ‘Arco’ (2025, Ugo Bienvenu) apresenta um olhar delicado – quase contemplativo – sobre a relação entre a humanidade e a natureza.
A história acompanha Arco, um menino de dez anos que acidentalmente viaja no tempo até o ano de 2075, onde experimenta pela primeira vez amizade, amor e perigo. Embora a premissa não seja exatamente inovadora, o filme se destaca por sua animação 2D fluida e por uma abordagem sensível de temas como ambientalismo e esperança no futuro da humanidade.
O problema é que o filme frequentemente provoca uma sensação de déjà-vu. Diversos elementos narrativos remetem a obras já conhecidas: o “estranho” que chega a um novo mundo e faz amizade com uma criança, ou mesmo os antagonistas caricatos que lembram personagens clássicos da história da animação.
Nada disso compromete totalmente a experiência, mas limita o impacto do filme. Apesar de sua beleza estética e de sua mensagem humanista, particularmente relevante em tempos sombrios, a obra acaba parecendo pequena demais diante da ambição de outros concorrentes.
Em entrevista à revista People, Natalie Portman destacou que o filme busca dialogar com crianças ao mesmo tempo em que convida o público a refletir sobre o futuro do planeta. Essa intenção é evidente, e talvez seja justamente a maior força de ‘Arco’, mesmo que ela não seja suficiente para colocá-lo entre os favoritos da disputa, ou no mesmo patamar de seu compatriota francês.
‘A Pequena Amélie’: Filosofia, simbolismo e excesso

Ainda mais filosófico e experimental que ‘Arco’, ‘A Pequena Amélie’ (2025, (Mailys Vallade, Liane-Cho Han) é uma obra que atira em muitas direções.
Visualmente deslumbrante em sua animação 2D, o filme aposta em uma narrativa lúdica e simbólica, repleta daquele tipo de imaginação excêntrica frequentemente associada ao cinema francês. No entanto, essa mesma abordagem torna a experiência irregular.
Ao acompanhar a infância da jovem Amélie, o filme convida o espectador a refletir sobre a própria existência e a natureza da realidade. O problema é que, ao repetir as mesmas ideias e metáforas diversas vezes, a narrativa se torna cansativa.
O longa também parece incerto sobre seu público. Por um lado, aborda temas complexos demais para crianças; por outro, sua estrutura simbólica e repetitiva pode afastar espectadores adultos.
A obra lembra, em certa medida, ‘Memórias de um Caracol’ (2024, Adam Elliot), indicado da última temporada de premiação, tanto pela forma excêntrica de contar sua história quanto por seu tom introspectivo. No entanto, enquanto aquele filme conseguiu aprofundar seus temas, ‘A Pequena Amélie’ frequentemente apenas os apresenta, sem realmente desenvolvê-los.
O resultado é uma experiência visualmente marcante, capaz de provocar reflexões imediatas, mas cujo impacto tende a se dissipar com o tempo, como uma fábula distante ou uma lembrança difusa.
‘Guerreiras do K-Pop’: O fenômeno cultural da temporada

A produção da Netflix não é perfeita, mas seu impacto é difícil de ignorar. ‘Guerreiras do K-Pop’ se tornou um fenômeno global, tanto por sua estética vibrante quanto por sua forte presença musical. O filme reafirma a posição da Sony Pictures Animation como um dos estúdios mais interessantes da atualidade quando se trata de animação estilizada.
Além da recepção crítica positiva, o longa se tornou o filme original mais assistido da história da Netflix, algo que demonstra sua enorme capacidade de diálogo com o público.
Apesar de um histórico de resistência da Academia em relação à Netflix, o impacto cultural do filme é evidente. Desde seu lançamento em junho de 2025, o longa permanece presente em discussão nas redes sociais, enquanto suas músicas seguem entre as mais ouvidas nas plataformas de streaming.
Com dez vitórias no Annie Awards – o Oscar da animação – a produção consolidou-se como um dos grandes destaques da temporada. Em matéria da Metrópole, o crítico Waldemar Dalenogare afirma que:
“Nessa temporada de premiações, ‘Guerreiras do K-Pop’ se tornou o maior fenômeno de repercussão devido ao alcance no streaming. Além disso, o impacto da trilha sonora fez com que as músicas se tornassem parte do cotidiano do público.” Mesmo com ‘Zootopia 2’ dominando as bilheterias mundiais, ‘Guerreiras do K-Pop’ manteve relevância constante ao longo de toda a temporada. Em uma premiação que cada vez mais considera impacto cultural, inovação visual e presença no imaginário popular, esses fatores podem ser decisivos, e a vitória de Guerreiras do K-Pop é quase inevitável.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.