God Bless America: a trajetória dos latino-americanos no Oscar
De Rita Moreno a Wagner Moura, confira os mais relevantes filmes e artistas latino-americanos ao longo da premiação
Por Lucas Mariotti

Em meio à ascensão de políticas anti-imigração do governo Donald Trump, os movimentos contra a intolerância e o preconceito de discursos estrangeiros nacionalistas encontram força na valorização e divulgação dos trabalhos de artistas latino-americanos e o impacto deles nos mercados criativos e culturais. Exemplo disso é o abraço da indústria do entretenimento ao ‘molho’ latino, desde Shakira, Bad Bunny e Anitta até ao cinema brasileiro, presente por dois anos consecutivos na categoria de Melhor Filme no Oscar, com ‘Ainda Estou Aqui’ (2024) e ‘O Agente Secreto’ (2025).
Pensando nisso, e em comemoração às indicações do filme de Kleber Mendonça Filho, do ator Benicio del Toro e do fotógrafo Adolpho Veloso no Oscar deste ano, vamos relembrar alguns filmes e artistas latino-americanos que tiveram grande projeção ao longo dos 98 anos de cerimônia da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.
José Ferrer e Anthony Quinn, os pioneiros

De forma majoritária, os atores de origem latino-americana possuem vitórias no Oscar por papéis em filmes falados em inglês. Os primeiros artistas a conquistarem esse destaque foram o porto-riquenho José Ferrer, vencedor do prêmio de Melhor Ator por ‘Cyrano de Bergerac’ em 1950, e o mexicano Anthony Quinn, que venceu dois prêmios de Melhor Ator Coadjuvante: em 1952 por ‘Viva Zapata!’ e em 1956 por ‘Sede de Viver’.
Rita Moreno, por ‘Amor, Sublime Amor’ (1961)

O filme musical dramático dirigido por Jerome Robbins e Robert Wise adapta livremente a obra de Shakespeare para retratar o embate de gangues entre americanos e imigrantes porto-riquenhos em Nova York. O longa foi o grande vencedor da noite levando 10 estatuetas, incluindo uma para Rita Moreno, com sua feroz personagem Anita, que recebeu o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante na cerimônia de 1962, se tornando a primeira mulher latina-americana a vencer uma categoria de atuação, representando toda a nação de Porto Rico e abrindo portas para futuros vencedores e indicados.
Dose dupla de Melhor Filme Internacional: Chile e Argentina

Antes do Brasil se consagrar em 2025 com uma estatueta de Melhor Filme Internacional, dois países latinos vizinhos já tinham conquistado o feito, quando a categoria ainda era chamada de Melhor Filme Estrangeiro. Os argentinos ganharam prêmios em 1986 por ‘A História Oficial’ (1985), tornando-se o primeiro país latino-americano a conquistar essa categoria, e em 2010 por ‘O Segredo dos Seus Olhos’ (2009), estrelado por Ricardo Darín. Já os chilenos também tiveram duas vitórias, a primeira em 2005 por ‘Mar Adentro’ (2004), com Javier Bardem, e a segunda em 2018 com ‘Uma Mulher Fantástica’ (2017), filme este com uma mulher trans como protagonista, interpretada por Daniela Vega.
Benicio del Toro, por ‘Traffic – Ninguém Sai Limpo’ (2000)

De volta ao Oscar 2026 na categoria de Melhor Ator Coadjuvante por ‘Uma Batalha Após A Outra’ (2025), o porto-riquenho já havia conquistado um prêmio nessa mesma categoria na cerimônia de 2001 pelo filme de Steven Soderbergh, que também se destacou na noite com vitórias em direção, roteiro adaptado e montagem.
O fenômeno Alfonso Cuarón e ‘Roma’ (2018)

Com um investimento pesado de produção e distribuição pela Netflix, o diretor mexicano Alfonso Cuarón pôde filmar seu longa-metragem pessoal ‘Roma’ (2018), um drama em preto e branco baseado nas memórias de infância do cineasta no México. O resultado dessa combinação foi um sucesso absoluto: o filme se tornou a primeira produção latino-americana, e da plataforma de streaming, a ser indicado a Melhor Filme, com vitórias nas categorias de Filme Estrangeiro, Cinematografia e Direção, além das indicações de destaque para as atrizes mexicanas Yalitza Aparício e Marina de Tavira.
Brasil, mostra a tua cara!

A trajetória do Brasil no Oscar é antiga: ‘O Pagador de Promessas’ (1962), co-produções internacionais com ‘Orfeu Negro’ (1959) e ‘O Beijo da Mulher-Aranha’ (1985); chegando no período de retomada do cinema brasileironos anos 1990, podemos destacar ‘O Quatrilho’ (1995), ‘O Que é Isso Companheiro?’ (1997) e ‘Central do Brasil’ (1998), com a inédita indicação de Fernanda Montenegro ao prêmio de Melhor Atriz.
Nos anos 2000 e 2010 também conseguimos destaques, com 4 indicações para ‘Cidade de Deus’ (2002), a animação ‘O Menino e o Mundo’ (2013) e o documentário ‘Democracia em Vertigem’ (2019). Mas foi em 2025, com Walter Salles e Fernanda Torres, que tivemos a conquista do prêmio de Melhor Filme Internacional por ‘Ainda Estou Aqui’ (2024), que também teve indicações em Melhor Atriz e Melhor Filme.
Agora em 2026 temos o Brasil mais uma vez representando com muita força as produções e os artistas latino-americanos: com ‘O Agente Secreto’ (2025) com nomeações em Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Elenco e Melhor Filme Internacional, além do cinematografista Adolpho Veloso indicado pelo filme ‘Sonhos de Trem’ (2025).
A torcida é para que, nos próximos anos de cerimônia, o Oscar seja cada vez mais inclusivo e justo com os filmes latino-americanos, dando espaço para projetar cineastas e atores, além de premiá-los neste evento de grande repercussão no mundo todo, mostrando o talento de cinemas fora do eixo Estados Unidos e Europa.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.