“Frankenstein” reflete o íntimo da autora, Mary Shelley, e Del Toro traz referências na adaptação

Tons excêntricos entre a literatura o cinema, revelam uma sensibilidade além das telas

Foto: Ilustração de Iuri Casaes para a edição de Frankenstein da Antofágica

por Safira Ferreira

‘Frankenstein’ possui diversas interpretações e versões, mas uma das que temos certeza, é que se trata de uma obra que nasceu de maneira íntima, refletindo feridas da própria autora do livro, Mary Shelley.

Escrito em 1818, O Prometeu Moderno retrata de maneira referencial e artística, as mágoas que Mary carregava, o que já é muito nítido desde o início da obra, em que a criatura/monstro é abandonada, assim como a própria autora que perdeu a mãe dias após seu parto e teve a figura ausente de seu pai. Mary também viveu o luto por grande parte de sua vida, perdeu sua meia-irmã para o suicído, assim como a primeira filha, Clara, que nasceu prematura em 1815. Há relatos nos diários que ela deixou, que registram seu lamento e desejo de querer trazê-la de volta à vida, o que revela um paralelo direto com o personagem Victor Frankenstein, que utiliza da eletricidade para animar a matéria morta.

“Encontrei minha bebê morta. Me encontrei com Hogg. Conversei. Um dia miserável”, fala de Mary Shelley encontrada em seus diários.

Além disso, Mary também trabalha o conceito de marginalização, pois na trama o monstro vive à beira social, não sendo bem quisto para convivência, mais um paralelo com a trajetória dela, pois dado um momento de sua vida, Mary e o marido, Peter Shelley, foram vítimas da desaprovação social, por conta da relação extraconjugal, o que inferiu também em dificuldades financeiras.

‘Frankenstein’ de Guillermo del Toro — Foto: Divulgação

O diretor mexicano Guillermo Del Toro, por sua vez, traz filmes repletos de homenagens a obras literárias e cinematográficas, conhecido por criar uma “biblioteca” de referências dentro das suas obras, o que além de criar uma estética e estilo próprios, aproxima o espectador da tradição literária.

Em sua última produção cinematográfica, ‘Frankenstein’ (2025), o diretor trabalha seu olhar sensível, criando o monstro como se fosse uma verdadeira escultura viva dos traumas de Shelley. O cineasta utiliza de forma intensa a cenografia, iluminação e a mise-en-scène, para criar ambientes fantásticos que remetem à atmosfera de fábula gótica e história mórbida ao redor da autora.

Ele se alimenta da estética do período romântico no início do século XIX, e une a autenticidade de seu cinema autoral. O que de certo faz parte da linguagem cinematográfica de Del Toro, que seria retratar seus monstros com características humanas, em que eles não são apenas vilões, mas representam espelhos morais e psicológicos, neste caso, revelando a realidade e dores de Shelley.

“(…) acho que aceitar que você é um monstro te dá margem para não se comportar como um. Quando você nega que é um monstro, acaba se comportando como um. […] É um paradoxo muito simples que você entende quando encontra aquela ferramenta que lhe permite parar de odiar a si mesmo. Há verdades a respeito de si mesmo que são realmente ruins e difíceis de admitir. Mas quando finalmente se tem a coragem de dizê-las, você se liberta. E os monstros são a personificação disso”. Guillermo Del Toro em entrevista ao The Talks em 2018.

Este paralelo, que de forma poética se pode dizer, conversa entre linguagens artísticas e afirma mais uma vez que ‘Frankenstein’ é uma obra atemporal, que segue trazendo críticas com uma narrativa feroz e sensível, triste e bela, ao mesmo tempo. Sem contar que imortalizou uma das autoras mais influentes da literatura gótica.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.