‘Frankenstein’: Além da maquiagem e figurino
A obra de Guillermo Del Toro é a favorita em maquiagem e figurino, mas será que o filme é só isso?
Por Cultura de Lamparina

Publicado em 1818, Frankenstein ou o Prometeu Moderno nunca foi muito bem adaptado no cinema. Desde a década de 1930, as versões costumam se afastar bastante do material original e apresentam um Monstro de intelecto limitado e altamente violento — pelo menos até agora.
O Frankenstein de Guillermo del Toro muda essa perspectiva ao retomar a Criatura autodidata concebida por Mary Shelley. E vai além de um filme com maquiagem e figurinos impressionantes. Ainda que surja como forte candidato ao Oscar de Melhor Maquiagem e Cabelo e Melhor Figurino, o que realmente chama atenção é a dramaticidade e a sensibilidade que não estavam presentes nas adaptações anteriores — acréscimos muito bem-vindos.
O respeito à fonte original
Um dos aspectos mais instigantes do longa é a forma como a essência do texto original é preservada, ao mesmo tempo em que as mudanças constroem algo novo a partir de um ícone cultural já representado mais de dez vezes no cinema.
Assim como no romance, a história acompanha Victor Frankenstein (interpretado por Oscar Isaac) em seus últimos momentos, enquanto narra a um capitão de navio a história de sua criação (Jacob Elordi), montada a partir de partes de cadáveres humanos e trazida de volta à vida em um experimento que o colocou perigosamente entre a vida e a morte.
Já na metade do filme, a perspectiva se desloca: quem passa a narrar a história é o próprio Monstro, revelando o que aconteceu com ele após ter sido abandonado para morrer em um incêndio provocado por Victor.
É nesse ponto que a narrativa começa a se afastar de vez das abordagens mais tradicionais da história.

O Monstro que precisávamos
A atuação de Jacob Elordi, em conjunto com o roteiro, transforma um personagem que durante décadas foi tratado como um vilão amargurado e vingativo — resultado do abandono de seu criador — em uma figura frágil, quase como um filho abandonado pelo pai na infância, que deseja apenas afeto.
Assim, a história do filme deturpa a obra original, mas, desta vez, consegue transformar uma narrativa de horror em uma história sobre perdão e compaixão, centrada em uma criatura inteligente que ainda está aprendendo a lidar com as próprias emoções.
O Victor interpretado por Oscar Isaac mantém o perfil do gênio ambicioso e tomado por delírios de grandeza presente no romance de Mary Shelley. Agora, porém, sua obsessão ganha novas camadas: ela nasce do luto mal resolvido pela morte da mãe e do ressentimento em relação ao pai.
Essas novas leituras dos dois personagens — mais complexas e humanas do que aquelas que o cinema costuma apresentar — abrem espaço para reflexões sobre paternidade e sobre as origens da violência no mundo.
Compreender a origem de certas ações humanas, como o abandono e a violência, não significa apagá-las. Pelo contrário: permite imaginar novas formas de enfrentá-las.
Quando o Monstro perdoa o abandono do pai e Victor perdoa a reação violenta de seu filho artificial, o passado não é apagado. O que acontece é a ruptura de um ciclo. Após essa conciliação, o Monstro abandona a raiva e dá lugar ao perdão; Victor, por sua vez, renuncia à própria ganância em favor da compaixão que seu filho tanto buscava. Ele finalmente encontra uma resposta para o próprio luto ao pedir que a criatura viva e, ao mesmo tempo, aceita a morte que antes tentava evitar. O Monstro, que antes se frustrava por não conseguir morrer, passa então a aceitar a vida.
Em um mundo cercado por guerras e ainda marcado pelo abandono parental em larga escala, Frankenstein, dirigido por Guillermo del Toro, surge como uma resposta possível ao nosso tempo. O filme retira o peso fatalista do romance — não como um desrespeito, mas como uma escolha consciente diante da necessidade contemporânea de esperança em meio às adversidades.
O resultado dessas atuações e do roteiro foram as merecidas indicações ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Ator Coadjuvante para Jacob Elordi e Melhor Filme.
A tensão sonora e a dimensão artística
Outro destaque do longa, que vai além da maquiagem e do figurino, está no trabalho sonoro e na trilha musical. Ambos mantêm a narrativa constantemente tensa e pulsante.
Sob a composição de Alexandre Desplat, o filme mantém o espectador na ponta da cadeira, completamente imerso na atmosfera gótica que o roteiro adaptado busca evocar.
A direção de arte — também indicada ao Oscar, assim como as categorias de Melhor Som e Melhor Trilha Sonora Original — funciona como a cereja do bolo que coroa a produção. Com uma fotografia que explora intensamente o jogo de luz e sombra, além de uma presença marcante de sangue em cena, o espetáculo visual se torna um show à parte.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.