Especial Brazil Conference: Um papo com Dalmir Pacheco, fundador dos projetos Arumã e Curupira

Educador e ativista compartilha sua jornada na formação de professores para a inclusão na Amazônia.

Nos dias 12 e 13 de abril, acontece a Brazil Conference, um evento promovido por estudantes brasileiros em Boston para atrair o olhar do mundo para o Brasil e impulsionar a economia e o desenvolvimento do país. Para conhecer melhor os embaixadores da edição deste ano, a coluna irá conversar com todos eles até o início do evento para promover diálogo com os brasileiros que irão fomentar inovação em Harvard e MIT.

No papo de hoje, vamos conhecer melhor a trajetória de Dalmir Pacheco, mestre pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e fundador dos projetos Arumã e Espaço Curupira, iniciativas voltadas para o aperfeiçoamento de professores em educação especial nas escolas. “O que foi que nós notamos? Os alunos que recebíamos, às vezes, eles desistiam. Existia uma grande evasão de alunos com deficiência e a gente procurou saber o porquê. E chegamos à seguinte conclusão: os professores e técnicos não estavam preparados para conviver e receber esse aluno num ambiente de aprendizagem”, conta.  Para Dalmir, inovar na educação passa intrinsecamente por este tipo de atenção com a diferença do próximo.

Com vocês, Dalmir Pacheco:

1.⁠ ⁠O que motivou você a iniciar seu trabalho no terceiro setor e como foi o começo da sua jornada nessa área?

Minha motivação para iniciar no terceiro setor vem desde a infância, quando, aos 13 anos, comecei a me envolver em trabalhos comunitários realizados pela igreja católica, da qual minha família fazia parte. Participávamos de campanhas como o Natal em Família, onde distribuíamos alimentos, roupas e oferecíamos apoio a pessoas sem moradia. Com o tempo, esse envolvimento despertou em mim um interesse crescente por estar sempre engajado em algum trabalho ou projeto comunitário.

Dez anos depois, aos 21 ou 22 anos, iniciei um projeto na minha comunidade chamado Santos Esporte Vida. Esse projeto visava oferecer atividades esportivas, especificamente futsal, para crianças carentes do bairro, incentivando-as a estudar e, posteriormente, a trabalhar. O projeto começou em 1982 e foi concluído em 2022, após 40 anos de atividades. Devido à minha condição física, com sequelas de pólio que afetam meus membros inferiores e superiores, precisei encerrar o projeto, mas a troca de experiências com as crianças foi extremamente gratificante. Ainda nos encontramos, como no último dia 19 de fevereiro, quando organizaram um jogo de futebol e me convidaram.

Em resumo, tudo começou com os trabalhos comunitários na igreja, ajudando famílias carentes no bairro Santo Antônio, em Manaus. Depois, me envolvi no movimento das comunidades eclesiais de base, que foi muito forte nos anos 70. Em 1982, fundei o projeto Santos, e a partir daí, continuei a trabalhar e estudar, sempre buscando fazer mais. Aprendi muito sobre planejamento, organização e captação de recursos. Nossos projetos não recebem ajuda governamental direta e não têm um fluxo contínuo de materiais, equipamentos ou pessoal. Dependemos de editais, e aprendi, junto com a equipe, a construir projetos para concorrer a esses editais, conseguindo recursos aqui e ali para manter o projeto ativo.

2.⁠ ⁠Poderia nos contar um pouco mais sobre o projeto específico que a levou a ser selecionado para a Brazil Conference? O que torna esse projeto especial e qual é o seu impacto na comunidade?

Esse projeto está ligado ao nosso trabalho comunitário inicial. Desde 2002, quando comecei a integrar o Instituto Federal do Amazonas, foi implantado o núcleo de atendimento às pessoas com necessidades especiais, termo que era utilizado na época. Hoje, usamos “necessidade específica”, que essencialmente significa acolher, receber e auxiliar estudantes com deficiência ou transtornos que ingressam no Instituto Federal do Amazonas.

Precisávamos pensar na formação e capacitação de professores e técnicos para atender esses alunos, além de desenvolver recursos acessíveis, como livros e apostilas adaptadas, em Braille, Soroban e Libras. No entanto, sabemos que as instituições públicas enfrentam limitações de recursos. Motivada por esse desafio, busquei captação de recursos e, quase cinco anos depois, conseguimos aprovar o Projeto Curupira, que você pode encontrar na internet. O projeto Curupira foca em acessibilidade arquitetônica, pedagógica, comunicacional e atitudinal. Esses quatro pilares sustentam nossos esforços para institucionalizar o núcleo e expandir nossas ações internamente e em projetos de extensão.

Observamos que muitos alunos com deficiência desistiam, e identificamos que isso ocorria porque professores e técnicos não estavam preparados para recebê-los em um ambiente de aprendizagem. Havia duas lacunas principais: falta de capacitação dos professores e ausência de recursos adaptados, como livros em Braille, áudio e intérpretes em sala de aula. Assim, criamos o projeto Arumã. Nossos projetos têm nomes regionais, como Curupira, para simbolizar nosso contexto amazônico. O Arumã, uma fibra utilizada por povos originários para tecer utensílios, simboliza a transmissão de conhecimento. Criamos o Arumã para capacitar professores em educação especial, inicialmente dentro do Instituto.

Percebemos que a comunidade ao redor de Manaus também carecia de formação, então passamos a oferecer cursos em escolas distantes, certificando professores através do Instituto Federal. Isso é importante porque muitos alunos do Instituto vêm dessas áreas. Quando chegam ao Instituto, já têm um entendimento e apoio que podemos reforçar.

O Arumã se dedica à capacitação em educação especial para professores, pedagogos, assistentes sociais, psicólogos e todos os envolvidos na escola. O diferencial é que estendemos essa formação a todos os funcionários, como porteiros, merendeiras e seguranças, pois o aluno é responsabilidade de toda a instituição.

Com o Arumã, criamos o Núcleo de Tecnologia Assistiva, o APOEMA, que adapta material didático e paradidático para que os professores tenham acesso a materiais em áudio, audiodescrição e Libras. Esse material está disponível no nosso canal do YouTube, Espaço Curupira, onde compartilhamos uma grande quantidade de conteúdo adaptado com audiodescrição, Libras e legendagem.

Portanto, os dois projetos importantes são o Arumã, para formação de professores em educação especial, e o Apoema, nosso núcleo de tecnologia assistiva que adapta materiais didáticos e paradidáticos.

3.⁠ ⁠Quais foram os maiores desafios que você enfrentou ao longo do seu trabalho e como conseguiu superá-los?

Os desafios que enfrentamos são comuns no serviço público: falta de pessoal, de material e de uma estrutura física adequada para desenvolver nosso trabalho. Um dos maiores desafios é a carência de pessoal necessário para as atividades diárias. Para superar isso, contamos bastante com voluntários, estagiários e pessoas que buscam horas complementares. Soube aproveitar bem essas oportunidades. Além disso, estabelecemos parcerias com instituições estaduais e municipais, como a SEDUC e a SEMED, que são as Secretarias de Educação do Estado e do município.

Tivemos também uma forte colaboração com instituições representativas das pessoas com deficiência, adotando o princípio “nada sobre nós sem nós”. Convidamos pessoas com deficiência para participar do planejamento e, em alguns casos, da execução dos projetos, baseando-nos na minha experiência pessoal como pessoa com deficiência. Isso foi uma inovação significativa, especialmente em termos de gestão e organização. Destaco a importância de levar essas ações para as áreas periféricas e distantes de Manaus e de envolver pessoas com deficiência em todo o processo, desde a coordenação. Temos, por exemplo, pessoas cegas, surdas e autistas envolvidas, o que é um grande desafio, mas extremamente positivo, pois nos permite entender o processo a partir da perspectiva delas.

Outra grande inovação foi garantir que todos os serviços e produtos oferecidos tenham acessibilidade. Isso é uma preocupação constante. Não realizamos, entregamos ou produzimos nada sem acessibilidade. Em todos os eventos, nos preocupamos em oferecer espaços adaptados, como banheiros e, se possível, elevadores. Todo o material é disponibilizado em Libras e, quando possível, em formatos acessíveis, como em drives compartilhados. A grande inovação foi incluir as pessoas com deficiência em todo o processo e trabalhar sempre com acessibilidade.

4.⁠ ⁠Quais inovações ou mudanças você gostaria de implementar em sua organização nos próximos anos para aumentar o impacto social?

Nos próximos anos, queremos intensificar nossa atuação no terceiro setor, com foco em inovações que vão além de materiais e recursos. A principal inovação que desejo implementar é conceitual: mudar como trabalhamos com o público de pessoas com deficiência, investindo no potencial que cada indivíduo pode desenvolver.

Por exemplo, identificamos onde cada pessoa pode contribuir melhor. Valorizamos não apenas o protagonismo das pessoas com deficiência, mas também o desenvolvimento de suas habilidades e o que elas podem oferecer de melhor em nossos projetos. Para quem está de fora, isso pode parecer insignificante, mas, pela nossa experiência, sabemos que é crucial dar protagonismo e potencializar as capacidades das pessoas com deficiência.

Historicamente, as pessoas com deficiência foram tuteladas por instituições, pais, professores e cuidadores, muitas vezes sendo colocadas à margem, como o que chamamos de “café com leite”. Antigamente, quando crianças brincavam, havia sempre uma criança mais nova que não entendia as regras, mas queria participar. Ela era chamada de “café com leite” e ficava no meio da brincadeira sem realmente participar. Infelizmente, as pessoas com deficiência ainda são tratadas assim, sempre à margem, com alguém falando por elas, sem participação efetiva.

Portanto, nosso foco será fortalecer o protagonismo das pessoas com deficiência, investindo em seu potencial e avaliando-as a partir de suas próprias capacidades, não em comparação com os outros. Queremos que elas avancem e evoluam de acordo com suas possibilidades.

Além disso, estou pesquisando novas formas de gerenciamento, ou governança, para planejar, executar e avaliar melhor nossos projetos. Espero implementar e sistematizar essa nova abordagem de governança, coordenação e direção, mesmo com os recursos limitados que temos.

5.⁠ ⁠O que você espera aprender ou vivenciar na Brazil Conference em Harvard e MIT, e como pretende aplicar essa experiência em seu trabalho no Brasil?

André, meu amigo, vindo da Amazônia, nascido a 300 quilômetros de Manaus, minha história começa em uma pequena vila entre Novo Airão e Barcelos, onde meu avô tinha um porto de lenha, que na época era como um posto de gasolina para barcos a vapor. Nasci nesse ambiente e, aos dois anos, contraí paralisia infantil, o que marcou o início de uma saga de superação. Sempre digo que a verdadeira história de superação é a do meu pai, que nunca aceitou que eu não pudesse ter autonomia. Apesar das dificuldades de locomoção, consegui superar as expectativas iniciais.

Agora, como alguém que nasceu em um local isolado nos anos 60, filho de pais analfabetos, e que enfrentou uma doença misteriosa, chegar a Harvard para apresentar um trabalho comunitário realizado no interior da Amazônia é algo de uma dimensão imensa. Só o fato de ter sido escolhido e divulgado nas redes sociais em Manaus já trouxe uma visibilidade enorme para nosso trabalho.

Na Brazil Conference, espero mostrar a importância do nosso trabalho e destacar nosso público-alvo: as pessoas com deficiência. Queremos tirá-las da invisibilidade e promover ações que ampliem essa visibilidade. Com mais de 2 mil professores capacitados e mais de 1.500 pessoas com deficiência formadas em cursos de curta duração, podemos potencializar ainda mais nossos esforços. Espero vivenciar, ouvir, compartilhar e aprender para melhorar ainda mais nosso trabalho.

Agradeço imensamente a oportunidade de ter sido escolhido e gostaria de destacar duas pessoas importantes: meu pai, Sr. Luiz Gomes de Souza, que sempre acreditou em mim, e o professor Lissandro Botelho, que fez minha inscrição na Brazil Conference. O professor Lissandro, que é autista, trabalha no Instituto Federal e encontrou na minha sala um ambiente onde se sente parte integrante. Graças a ele, estou tendo a oportunidade de ir a Harvard apresentar nosso trabalho realizado com determinação e esperança no interior da Amazônia.