Entre racismo e violência cotidiana, ‘A vizinha perfeita’ mostra um retrato social familiar ao Brasil
Documentário indicado ao Oscar é o espelho de uma realidade social que o Brasil conhece
Por Amanda Isarrá

Indicado ao Oscar 2026, o documentário The Perfect Neighbor (A Vizinha Perfeita) reconstrói o assassinato de AJ Owens, mãe negra de quatro filhos morta a tiros por uma vizinha na Flórida, nos Estados Unidos, após uma série de desentendimentos envolvendo as crianças do bairro. Utilizando gravações de chamadas de emergência, imagens de câmeras policiais e registros documentais, o filme transforma um conflito cotidiano em uma narrativa de forte impacto emocional — e em um retrato das tensões raciais e sociais que atravessam a sociedade norte-americana.
A potência do documentário está na exposição direta do horror. As imagens e os áudios não suavizam o conflito, aproximando o espectador da violência de forma crua, no entanto, essa mesma estrutura levanta questionamentos sobre como o formato de true crime constrói suas narrativas. Ao enfatizar o choque do acontecimento e a figura da agressora, a história de AJ Owens aparece de forma fragmentada: a vítima torna-se um símbolo mais lembrada pelo crime do que pela complexidade de sua vida.
Essa ausência não é trivial, Owens era uma mãe solo, responsável por criar seus filhos enquanto equilibrava trabalho e cuidado familiar — uma realidade que se repete em inúmeras partes do mundo. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 11 milhões de lares no Brasil são chefiados por mulheres sem a presença de um parceiro, grande parte delas negras. A sobrecarga entre trabalho, cuidado doméstico e educação dos filhos faz parte de uma dinâmica estrutural de desigualdade que raramente aparece no centro das narrativas midiáticas.
Quando histórias como essa chegam ao circuito internacional de prestígio, como no caso do Oscar, surge também a oportunidade de ampliar o olhar crítico sobre o que está sendo narrado — e sobre o que permanece invisível. Ao deslocar o olhar da crítica cinematográfica para perspectivas situadas fora da hegemonia tradicional europeia, como as leituras produzidas a partir do sul global e das periferias brasileiras, novas perguntas emergem: quem tem direito à complexidade dentro dessas histórias? Quem permanece reduzido a um símbolo?
No documentário, muito se fala sobre a vizinha envolvida no conflito e sobre a escalada de tensões que levaram ao assassinato, mas pouco se explora sobre o cotidiano das crianças que presenciaram essas disputas entre adultos. Esse silêncio é significativo. O impacto de conflitos violentos no ambiente doméstico ou comunitário pode deixar marcas profundas no desenvolvimento infantil.
No Brasil, estudos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que milhares de crianças vivem em territórios marcados por conflitos constantes, seja pela violência urbana, seja por disputas familiares ou comunitárias. Psicólogos e educadores relatam que a exposição frequente a episódios de agressão pode gerar sintomas como ansiedade, dificuldade de aprendizagem, medo constante e retraimento social.
A psicóloga brasileira Luciana Temer, especialista em políticas públicas voltadas à infância, aponta que crianças expostas a ambientes de conflito tendem a internalizar padrões de medo e insegurança. “Quando adultos não conseguem resolver suas divergências de forma saudável, as crianças aprendem que a violência é uma linguagem possível”, afirma em debates sobre proteção infantil.
Essas experiências individuais, no entanto, não se encerram no espaço privado, elas passam a compor aquilo que sociólogos e teóricos da cultura chamam de imaginário coletivo — um conjunto de imagens, narrativas e percepções que ajudam a moldar a forma como uma sociedade interpreta o mundo. Filmes, séries e documentários participam ativamente dessa construção.
Quando narrativas de violência cotidiana circulam globalmente, elas ajudam a consolidar determinadas ideias sobre segurança, ameaça e convivência social, o espectador não apenas acompanha uma história; ele também internaliza códigos emocionais que passam a orientar sua percepção da realidade. Medo, desconfiança e sensação de perigo podem se tornar elementos recorrentes na forma como indivíduos passam a interpretar conflitos sociais.
Nesse sentido, o cinema não apenas reflete o mundo: ele também contribui para modelar a forma como sentimos e percebemos esse mundo. A repetição de determinadas imagens — bairros em tensão, conflitos entre vizinhos, comunidades divididas por medo — cria repertórios simbólicos que atravessam fronteiras e influenciam o modo como diferentes sociedades passam a imaginar a violência e a convivência.
O Oscar, como uma das principais instâncias de legitimação do cinema global, desempenha papel central nesse processo. Ao destacar determinados filmes e temas, a premiação contribui para ampliar a circulação dessas narrativas e reforçar certos imaginários sociais.
É nesse ponto que o audiovisual assume um papel ambíguo e profundamente político. Por um lado, pode reproduzir silêncios e simplificações, por outro, pode abrir fissuras que permitem enxergar aquilo que a sociedade muitas vezes prefere não encarar.
O filósofo Michel Foucault argumentava que toda sociedade estabelece mecanismos que definem quais discursos podem circular e quais devem ser silenciados, o que não se enquadra nessas normas tende a ser marginalizado ou invisibilizado. Já o pensador camaronês Achille Mbembe, ao refletir sobre as estruturas de poder contemporâneas, mostra como determinadas vidas são constantemente colocadas em posição de vulnerabilidade dentro das dinâmicas sociais e políticas.
Diante disso, o cinema documental pode funcionar como um espaço de disputa simbólica, ao registrar histórias que atravessam racismo, desigualdade e violência cotidiana, o audiovisual cria um território de expressão para experiências que muitas vezes permanecem fora do campo do debate público.
Se o mundo ainda demonstra dificuldade em lidar com determinadas verdades — sobretudo aquelas que expõem desigualdades profundas e sistemas de proteção seletivos — o cinema pode se tornar um dos poucos lugares onde essas contradições aparecem de forma visível.
Nesse sentido, A Vizinha Perfeita não é apenas um relato de crime, é também um lembrete de que, enquanto algumas narrativas recebem proteção e legitimidade, outras seguem lutando para serem ouvidas, e é justamente nessa tensão que o audiovisual revela sua força: como espaço onde aquilo que a sociedade prefere evitar ainda pode encontrar forma, voz e imagem — influenciando não apenas o que vemos, mas também o que passamos a imaginar como possível no mundo em que vivemos.
Fontes e referências para aprofundamento
FOUCAULT, Michel. The Order of Discourse (A ordem do discurso). Paris: Gallimard, 1971. Texto clássico sobre os mecanismos que regulam quais discursos podem circular nas sociedades. Acesso: https://cienciaslinguagem.eca.usp.br/Foucault_OrdemDoDiscurso.pdf
FOUCAULT, Michel.
Power/Knowledge: Selected Interviews and Other Writings. New York: Pantheon Books, 1980. Coletânea de textos em que o autor discute as relações entre poder, conhecimento e produção de verdade. Informações: https://monoskop.org/Michel_Foucault
MBEMBE, Achille.
“Necropolitics”. Public Culture, v.15, n.1, 2003. Artigo em que o filósofo camaronês desenvolve o conceito de necropolítica, analisando como estruturas de poder determinam quais vidas são mais vulneráveis. Acesso: https://read.dukeupress.edu/public-culture/article/15/1/11/31792/Necropolitics
MBEMBE, Achille.
Necropolitics. Durham: Duke University Press, 2019.
Livro que amplia o conceito de necropolítica e discute violência, poder e desigualdade no mundo contemporâneo. Informações: https://www.dukeupress.edu/necropolitics
IBGE — Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBGE.
Estatísticas de Gênero: Indicadores Sociais das Mulheres no Brasil. Relatório com dados sobre desigualdades de gênero e lares chefiados por mulheres no país. Acesso: https://www.ibge.gov.br/estatisticas/multidominio/genero/20163-estatisticas-de-genero.html
Fórum Brasileiro de Segurança Pública FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Publicação anual com dados sobre violência, segurança pública e impactos sociais no Brasil. Acesso: https://forumseguranca.org.br/anuario-brasileiro-seguranca-publica/
UNICEF Brasil UNICEF.
Relatórios sobre violência e proteção de crianças e adolescentes no Brasil. Acesso: https://www.unicef.org/brazil/protecao-de-criancas-e-adolescentes-contra-violencias
Instituto Liberta / Proteção à infância. TEMER, Luciana. Debates e estudos sobre políticas públicas voltadas à proteção da infância e enfrentamento da violência contra crianças.
Informações: https://liberta.org.br/quem-somos-2/
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.