Entre o sagrado e o político: a disputa simbólica sobre o corpo feminino em ‘O diabo não tem descanso’
Curta documental indicado ao Oscar 2026 mostra como fé, poder e culpa moldam o controle político sobre o corpo feminino.
Por Dani Lima
O curta documental O Diabo Não Tem Descanso, da diretora Geeta Gandbhir, nos coloca diante de uma pergunta que atravessa séculos: quem decide sobre o corpo das mulheres?
Ao acompanhar a rotina de Tracy, chefe de segurança de uma clínica de saúde reprodutiva em Atlanta, o filme revela algo que atravessa séculos: a maneira como religião, moralidade e política se entrelaçam para transformar o corpo feminino em um território de disputa, onde mais do que uma narrativa religiosa, o que se constrói é uma estrutura de controle social. E o curta, ao trazer essas camadas à superfície, nos convida a olhar para aquilo que muitas vezes permanece naturalizado.
Mais do que um debate sobre aborto, o que o documentário evidencia é um mecanismo histórico: a construção simbólica da mulher como porta de entrada do pecado, do desvio ou do mal, uma narrativa que serviu, repetidas vezes, como justificativa para controlar sua sexualidade e sua autonomia.
O cinema, aqui, funciona como lente de ampliação. Ele nos faz perceber que essa disputa nunca foi apenas espiritual mas é, sobretudo, política.
Quando homens interpretam Deus
Uma das dimensões mais inquietantes desse debate é aquilo que poderíamos chamar de hipocrisia cristã institucionalizada.

Ao longo da história, foram majoritariamente homens em posições de poder religioso que decidiram o que seria considerado pecado, pureza ou moralidade. Homens que interpretaram textos sagrados, definiram doutrinas e estabeleceram regras que, curiosamente, recaem com especial intensidade sobre os corpos femininos e essa mediação masculina da fé produz um paradoxo curioso: instituições que pregam compaixão e cuidado frequentemente se tornam agentes de vigilância moral.
Nesse processo, o corpo feminino passa a ocupar um lugar simbólico central. Ele deixa de ser apenas corpo, torna-se campo de batalha moral.
Pecado, culpa e vigilância do desejo
Freud descreveu o superego como a instância psíquica que internaliza normas sociais e morais. Em outras palavras, aquilo que começa como regra externa acaba se tornando vigilância interna. Quando narrativas religiosas associam a sexualidade feminina ao pecado, essa lógica se instala no próprio sujeito. A mulher não é apenas vigiada pela sociedade, mas aprende a vigiar a si mesma.
Culpa, vergonha e medo passam a acompanhar experiências fundamentais da vida humana, como o desejo, o prazer, a maternidade e nosso direito de escolha.

E é justamente aqui que O Diabo Não Tem Descanso encontra sua camada mais potente, já que o filme não apresenta diretamente uma figura anticristã ou antirreligiosa no centro da narrativa. Tracy, chefe de segurança da clínica que protege pacientes e equipe em meio a protestos e ameaças constantes é, ela própria, uma mulher de fé. Entretanto, sua espiritualidade não se traduz em julgamento, mas sim em responsabilidade ética.
Mesmo sustentando convicções pessoais sobre ação e consequência, Tracy reconhece algo fundamental: o debate reprodutivo precisa ser, antes de tudo, uma questão de saúde pública e de direitos básicos.
Esse deslocamento é profundamente revelador, pois precisa ser exatamente uma mulher, enquanto frente a muitos discursos religiosos, tentando transformar o tema em batalha moral abstrata, que lida e resiste com o que existe de mais concreto: mulheres reais, histórias reais, riscos reais.
O cinema como espaço de fissura
É por isso que obras como O Diabo Não Tem Descanso são necessárias. O cinema tem uma capacidade rara de desnaturalizar estruturas de poder. Ao observar o cotidiano de uma clínica cercada por protestos, o filme revela algo que muitas vezes permanece invisível: o quanto debates aparentemente abstratos, como fé, pecado e moralidade se traduzem em consequências muito concretas para a vida das mulheres.
E mais do que denunciar, o filme também abre espaço para complexidade nos debates, tensionando e ampliando a conversa pública. E em tempos em que vemos o patriarcado reorganizando sua força social e política, com ataques a direitos conquistados em todo o mundo e uma violência crescente contra mulheres aqui e lá fora, produções culturais que iluminam essas estruturas se tornam ainda mais importantes.
Refletir e propor debate impulsionam transformações e o simples fato de tentarmos também é uma forma de resistência. E talvez seja esse o gesto mais poderoso do cinema político que encontramos neste curta: criar fissuras no que parecia inevitável. Porque toda vez que uma história expõe estruturas de controle, ela também abre espaço para imaginar outros futuros possíveis!
Que sigamos em avanço a conquistá-los!
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.