Por Laura Coutinho Felz

Foto: Ken Woroner/Netflix

Uma figura de anjo banhada em vermelho-sangue e ouro ergue-se entre as chamas. Na primeira vez que aparece, é quase sagrada: a coroa-auréola, vermelho que lembra mantos litúrgicos das procissões de Semana Santa. Na última aparição, remove a máscara e revela um crânio no lugar do rosto. O horror estava lá desde o início; só demorou para se mostrar. ‘Frankenstein’ (2025) de Guillermo Del Toro brinca com exatamente essa fronteira entre o divino e o infernal. O catolicismo latino-americano sempre soube que Deus e o horror dividem o mesmo altar, e Del Toro mergulha de cabeça nessa questão em seu novo longa.

Criado por uma avó católica fervorosa, Guillermo Del Toro nunca realmente saiu da igreja; saiu dos dogmas e ficou com as obsessões. O diretor comenta abertamente ter sido aterrorizado pela violência espiritual e moral dos preceitos religiosos rígidos, e é exatamente aí que encontrou a semente do horror que explora em seus filmes. Não nos monstros em si, mas na crueldade humana que os produz, a luta constante entre bem e mal, sacrifício e redenção. Pilares de uma visão de mundo que ele absorveu antes de ter idade para questioná-la.

Piedade do Sangue: Entre o Barroco e o Sincrético

Mas Del Toro não é apenas um cineasta formado pelo catolicismo — é um cineasta formado pelo catolicismo mexicano. E a distinção importa. O catolicismo que o moldou não é o europeu, austero e doutrinário. É sincrético, barroco, familiar com a morte de uma forma que soa como devoção. Sua arte é profundamente inspirada por uma religiosidade que pinta santos com sangue, que encontra o sagrado no corpo e no sofrimento; e que não apenas convive com o horror, mas o abraça como parte do divino.

Se no romantismo europeu de Mary Shelley o terror nasce da arrogância da ciência e da sensibilidade de ser criador e criatura, no gótico latino-americano de Del Toro o verdadeiro horror reside no abandono. Victor Frankenstein não é apenas um cientista louco; ele é um deus falho, covarde e negligente. Quando ele vira as costas para sua obra, encena a maior fobia da fé cristã: o silêncio de Deus. A Criatura é jogada no mundo carregando o peso de um pecado original que não cometeu, condenada a vagar por um purgatório terreno buscando a aprovação de um pai que a abomina.

Pinturas Negras: A Herança de Goya

A influência de Goya em Del Toro não é sutil, é confessada. O Homem Pálido de ‘O Labirinto do Fauno’ (2006) nasceu diretamente de ‘Saturno Devorando um Filho’, e a ideia de um criador que devora e, portanto, condena, também está presente em Victor Frankenstein. A paleta de ‘Frankenstein’ (2025) bebe das Pinturas Negras: o vermelho litúrgico, o ouro barroco, o corpo como campo de batalha entre o sagrado e o horror, o chiaroscuro que faz da sombra um argumento.

Créditos: GOYA, Francisco de. Saturno devorando um filho.

É no profundo abismo entre criador e criatura que a culpa cristã se instala como ferrugem. A máxima de Goya, “O sono da razão produz monstros”, ganha em Guillermo Del Toro uma tradução moral. Victor adormece para a compaixão e desperta para o horror de suas próprias mãos. A Criatura, costurada com pedaços de mortos, é a materialização da culpa de Victor caminhando pelo mundo. Cada cicatriz em seu corpo é um lembrete do fracasso ético e espiritual de seu criador, uma via crucis de carne apodrecida.

Ecce Homo: O Calvário do Abandono

“Eis o homem”, disse Pôncio Pilatos em João 19:5, apresentando Cristo flagelado à multidão, com sua coroa de espinhos e capa de púrpura. Um corpo exposto, julgado antes de poder falar. A Criatura de Del Toro nasce exatamente assim, erguida em posição que imita a crucificação, apresentada ao criador que a condena não pelo que ela fez, mas pelo horror que sua simples existência desperta. Victor Frankenstein, o deus falho desse altar de carne, não oferece redenção; oferece o abandono, transformando o nascimento em um calvário precoce.

É aqui que o gótico latino-americano se diferencia do que já conhecemos e se impõe. O terror, para nós, nunca foi sobre castelos assombrados em ruínas ou a névoa londrina; ele reside no trauma do abandono, na figura do bastardo, no corpo que foi colonizado, retalhado e rejeitado pela memória oficial. A Criatura, costurada com restos mortais, é a metáfora trágica de quem vagueia pelo mundo exigindo um nome e um propósito que lhe foram negados por direito; um filho sem pai em uma terra de ausências. Del Toro filma esse monstro não com repulsa, mas com uma reverência quase litúrgica: uma compaixão brutal que Francisco de Goya também reservava aos loucos, às bruxas e aos flagelados em suas obras, entendendo que a verdadeira monstruosidade não está na deformidade, mas na mão que exclui.

No fim, ‘Frankenstein’ de Del Toro nos obriga a olhar para o altar e reconhecer o monstro no espelho. Quando a Criatura é finalmente exposta à crueldade do mundo, a frase de Pilatos ecoa não como constatação de divindade, mas como acusação. Eis o homem: a verdadeira aberração não é o corpo costurado e ressuscitado, mas a humanidade capaz de moer e queimar o que não compreende. Sob a coroa-auréola ou sob o crânio exposto, Del Toro nos lembra que o inferno nunca foi um lugar abaixo da terra; ele é o espaço vazio e gélido deixado quando um criador abandona sua criatura à própria sorte.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.