Por Lohuama Alves

Foto: Kevin Winter/Getty Images

A vitória de Ainda Estou Aqui no circuito internacional de premiações não representa apenas um reconhecimento artístico isolado. Ela pode funcionar como um ponto de inflexão na relação entre o cinema brasileiro e a indústria global, especialmente no caminho que leva ao Academy Awards de 2026.

Dirigido por Walter Salles, o filme surge em um momento em que a Academia tenta ampliar suas fronteiras estéticas e geográficas. Nos últimos anos, o Oscar passou por mudanças importantes em seu corpo de votantes e em sua estratégia de internacionalização, abrindo espaço para produções que antes ficavam restritas às categorias de filme estrangeiro. Esse movimento já produziu marcos históricos, como a vitória de Parasita como Melhor Filme em 2020, e consolidou uma nova lógica: narrativas profundamente locais podem conquistar impacto global.

Nesse contexto, o reconhecimento de Ainda Estou Aqui reforça a percepção de que o cinema brasileiro voltou a ocupar um lugar relevante no debate cultural internacional. Mais do que uma conquista simbólica, a repercussão do filme reposiciona o país dentro de uma disputa que envolve circulação em festivais, distribuição internacional e campanhas de premiação — elementos fundamentais para chegar com força ao Oscar.

Historicamente, o Brasil teve momentos de grande visibilidade na Academia. Filmes como Central do Brasil, também de Walter Salles, e Cidade de Deus mostraram que produções nacionais podem atravessar fronteiras e dialogar com o público global. No entanto, esses episódios foram muitas vezes tratados como exceções. O impacto recente de Ainda Estou Aqui sugere um cenário diferente: não apenas um destaque isolado, mas a possibilidade de um novo ciclo de presença internacional.

Há também um efeito político e simbólico nesse reconhecimento. Ao abordar temas ligados à memória e à história brasileira, o filme demonstra que o Oscar, frequentemente criticado por seu olhar restrito à indústria norte-americana, está cada vez mais atento a narrativas que dialogam com contextos sociais e históricos específicos. Isso amplia o espaço para cinematografias que trabalham com identidade, memória e crítica social.

Se esse movimento se consolidar, o Oscar 2026 pode encontrar um terreno mais aberto para produções latino-americanas e, particularmente, brasileiras. Não apenas pela qualidade artística das obras, mas pela construção de uma rede de circulação internacional que passa por festivais, distribuidoras e estratégias de visibilidade.

Com isso, a vitória de Ainda Estou Aqui pode ser lida menos como um ponto de chegada e mais como um sinal de mudança estrutural. Quando um filme brasileiro conquista reconhecimento global, ele não apenas celebra um momento: reabre a possibilidade de que o cinema do país volte a disputar, de forma consistente, o centro do palco do audiovisual mundial. Por isso, esperamos que O Agente Secreto traga mais uma vitória merecida para o Brasil.

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Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.