De Bugonia ao ET de Varginha: por que histórias de alienígenas ainda dominam o imaginário coletivo?
Entre ficção científica e relatos que marcaram o país, histórias sobre seres extraterrestres continuam alimentando teorias sobre o desconhecido
Por Luana Brusiano

Histórias sobre seres extraterrestres atravessam décadas no cinema, cultura pop e até mesmo relatos de supostas aparições. O fascínio pelo desconhecido e pela possibilidade de vida fora da Terra revela muito sobre a curiosidade humana. O medo unido à expectativa diante do mistério dominam o imaginário coletivo em meio à busca por maneiras de explicar aquilo que ainda foge das certezas da ciência.
Na ficção científica esse mistério é transformado em narrativa, como é o caso de Bugonia (2025). O longa dirigido por Yorgos Lanthimos, aborda extraterrestres a partir de uma perspectiva única. A produção acompanha dois homens obcecados por teorias conspiratórias que passam a acreditar que uma grande empresária é, na verdade, uma impostora alienígena infiltrada na Terra. Na intenção de salvar o país dessa ameaça, eles sequestram a CEO dando início a uma trama definida pela paranóia e centrada no absurdo. O uso da figura alienígena aparece no desenvolvimento da história como mais do que um recurso de ficção científica, como apoio para análise do comportamento humano diante daquilo que é incerto.

No Brasil, as histórias sobre seres extraterrestres explodiram a bolha do surreal e instauraram a euforia no mundo real repercutindo publicamente e despertando a comoção popular. Em 1996, irrompeu a polêmica do ET de Varginha, acontecimento memorável do interior de Minas Gerais. O Varginha UFO Incident, como ficou conhecido, foi o marcante episódio em que 3 adolescentes da cidade declararam ter visto um ser de aparência atípica nas ruas da cidade. O caso mobilizou todo o país, especialmente a imprensa, que acompanhou todos os detalhes do ocorrido. Agora, 30 anos depois, a história do ET de Varginha ganhou um documentário: “O Mistério de Varginha”, da Globoplay, com depoimentos das mulheres, agora adultas, que viram a criatura, ufólogos e outros moradores da cidade.
Assim como na trama de Bugonia, o caso do ET de Varginha também foi alimentado por interpretações, especulações e teorias que buscavam oferecer um sentido a um acontecimento inesperado. Nos dois contextos, a falta de explicações coerentes abre margem para narrativas que misturam medo, desconfiança e fantasia. Na ficção a suspeita recai sobre a grande empresária, já no caso brasileiro a dúvida sobre o relato voltou para militares que teriam supostamente ocultado informações sobre o ocorrido. Hoje, três décadas após o episódio em Varginha, ainda existem dúvidas quanto ao que é verdade ou não nessa história.

A presença de extraterrestres no cinema funciona como catalisador de uma metáfora social, representando o reflexo da euforia e medos coletivos, paranóia e desconfiança em relação às instituições de poder. Ao longo do documentário brasileiro, figuras de poder são questionadas e tentativas estranhas de esconder a história e desmenti-la são exibidas. Nesse caso, os limites da curiosidade sobre o tema são ultrapassados e o clima de suspeita e descrédito surge quando versões oficiais entram em conflito com relatos populares, gerando desconfiança em relação às autoridades. Essa dicotomia fica evidente na repercussão do ET de Varginha. Ao longo dos anos, várias versões da história circularam entre moradores e curiosos, abrindo margem para interpretações diversas que misturam memória, especulação e crença.
Frente a um evento considerado extraordinário, diferentes grupos passaram a construir suas próprias explicações, baseadas em percepções individuais, rumores ou relatos fragmentados. Em Bugonia, por exemplo, o personagem Teddy (Jesse Plemons) deseja justiça pois acredita fielmente que seres de outro planeta são responsáveis pelo coma de sua mãe, o que alimenta seus estudos obsessivos sobre Ufologia. Esse tipo de narrativa revela como o desconhecido pode ser transformado em explicação para as incertezas humanas e como aquilo que é considerado diferente tende a ser marginalizado e analisado sobre uma ótica maniqueísta, abordagem simplista que divide a realidade entre bem e mal, certo e errado no imaginário popular.

A cultura pop preservou esse fascínio, continuando a adaptar e criar histórias sobre seres de outros mundos. Obras marcantes como E.T. the Extra-Terrestrial (1982), Close Encounters of the Third Kind (1977) e Alien, o 8.º Passageiro (1979) foram responsáveis por manter a representação do imaginário extraterrestre no cinema ativa. Entre ficção científica e relatos populares, histórias sobre extraterrestres continuam despertando interesse justamente porque dialogam com questões humanas universais: o medo do desconhecido, a curiosidade sobre outras formas de vida e a necessidade de explicar aquilo que ainda não compreendemos completamente. Enquanto Bugonia utiliza o tema para explorar paranoia e crença em teorias conspiratórias, o caso do ET de Varginha mostra como um episódio misterioso pode ultrapassar o campo da notícia factual e se firmar como parte da memória cultural de um país.
Independentemente do contexto, as narrativas dizem muito menos sobre alienígenas e mais sobre a maneira como a própria humanidade reage diante do inexplicável.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.