Por Emiliano Graziano

Não há política climática eficaz sem pessoas, sem segurança alimentar e sem justiça social. Esse foi um importante ponto de inflexão deixado pela COP30. O clima deixou definitivamente de ser apenas uma questão ambiental para se afirmar como um tema de desenvolvimento, de combate à fome e de redução da pobreza — e o Brasil teve papel central ao colocar esses temas no coração do debate.

Esse deslocamento de foco não foi trivial. A COP30 consolidou uma leitura mais madura de que os impactos das mudanças climáticas já estão sendo vividos cotidianamente, sobretudo pelas populações mais vulneráveis, e de que a resposta não pode continuar restrita à lógica da mitigação futura. A fome não é apenas ausência de comida; é ausência de direitos, de políticas e de condições estruturais para viver plenamente. A justiça climática é uma dessas condições estruturais.

A COP30 também deixou uma vitória importante: colocar as pessoas na centralidade da discussão. Adaptação, resiliência e proteção social passaram a ocupar um espaço político que dificilmente será revertido. O desafio agora é transformar esse consenso em instrumentos concretos, duradouros e financeiramente viáveis.

Até porque não é possível ter justiça social duradoura sem sustentabilidade ambiental. Fome e clima não são agendas paralelas; são duas faces de uma mesma moeda. É justamente nesse ponto que a Proteção Social Antecipatória (PSA) se apresenta como uma das maiores oportunidades estratégicas para o Brasil no ciclo pós-COP30, olhando desde já para a COP31, em Antália, e para todo o ano de 2026.

A PSA parte de uma ideia simples, mas poderosa: usar informação, previsão e dados de risco para agir antes do choque, e não apenas depois do desastre. Em vez de reagir a enchentes, secas, ondas de calor ou crises alimentares, trata-se de antecipar impactos, reduzir perdas e dar previsibilidade à ação pública.

A parceria entre o Instituto Fome Zero (IFZ) e o International Institute for Environment and Development (IIED – Instituto Internacional para Meio Ambiente e Desenvolvimento) nasce exatamente dessa constatação. Ao aplicar e adaptar o framework ASPIRE ao contexto brasileiro, essa colaboração demonstra que o país já possui uma base institucional extremamente sólida — programas sociais de grande escala, sistemas de informação robustos, capacidade operacional e experiência histórica — mas ainda opera majoritariamente de forma reativa.

A PSA oferece um caminho concreto para consolidar os resultados políticos da COP30 em políticas públicas estruturantes. Ela conecta proteção social, segurança alimentar e adaptação climática em uma única agenda — algo reiteradamente defendido em Belém. Mais do que isso, permite transformar a resiliência em um princípio organizador do Estado, com ganhos sociais e fiscais evidentes.

Mais do que uma política social, a proteção social antecipatória é também um investimento altamente eficiente. Evidências consolidadas indicam que agir antes do choque reduz drasticamente os custos futuros com resposta emergencial, reconstrução e perdas econômicas. Estudos citados pela FAO mostram que cada dólar investido em ações antecipatórias pode gerar até sete dólares de retorno, especialmente quando essas ações estão ligadas à segurança alimentar, à proteção de meios de vida e à redução de perdas produtivas.

Em um contexto de crescente pressão fiscal e de escassez de recursos para adaptação climática, a PSA deixa de ser apenas uma resposta ética ou socialmente desejável e passa a se afirmar como uma escolha econômica racional, capaz de combinar proteção das populações vulneráveis com maior eficiência no uso do dinheiro público.

Para o Brasil, essa agenda ganha ainda mais relevância em 2026, um ano marcado por desafios eleitorais e pela necessidade de preservar políticas de longo prazo. Institucionalizar a proteção social antecipatória significa deixar um legado que transcende ciclos políticos, fortalecendo a capacidade do Estado de proteger sua população diante de choques climáticos cada vez mais frequentes.

Trata-se de consolidar uma visão de desenvolvimento que articula combate à fome, redução da pobreza e ação climática, em linha com a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, lançada com forte protagonismo brasileiro em 2024, durante a presidência do país no G20.

Mas essa agenda não é apenas pública. A PSA abre um campo estratégico para o setor privado: seguradoras, instrumentos de seguro paramétrico, bancos nacionais e multilaterais de desenvolvimento e investidores interessados em reduzir riscos e aumentar a previsibilidade.

Ao vincular sistemas de alerta precoce, critérios objetivos de ativação e mecanismos financeiros pré-acordados, a proteção social antecipatória cria um ambiente mais estável para o financiamento do desenvolvimento em contextos climáticos adversos.

Em um cenário internacional marcado pela retração do multilateralismo tradicional e pela competição por recursos escassos, a previsibilidade se torna um ativo valioso. A PSA permite alinhar recursos públicos, privados e internacionais em torno de objetivos claros, mensuráveis e socialmente legítimos.

Para bancos de desenvolvimento, significa financiar menos reconstrução emergencial e mais prevenção. Para as seguradoras, significa reduzir incertezas e ampliar coberturas inovadoras. Para o setor produtivo, significa maior estabilidade territorial e social.

A COP30 abriu espaço político para essa convergência. A COP31 será o momento de demonstrar capacidade de entrega. Entre Belém e Antália, o Brasil tem a chance de liderar uma agenda climática que não se limita a metas abstratas, mas que protege pessoas reais, sistemas alimentares e economias locais.

A proteção social antecipatória, apoiada pela parceria IFZ–IIED, pode ser o fio condutor dessa transição.

No fim das contas, a mensagem que emerge é clara: resiliência começa antes da crise. Transformar essa ideia em política pública permanente talvez seja uma das contribuições mais consistentes que o Brasil pode oferecer ao debate climático global em 2026.