Das polleras às nuvens: O imparável ascenso das Cholitas Escaladoras de Chucura
Elas não desafiam apenas a gravidade; desafiam séculos de história, preconceitos e as condições climáticas mais extremas do planeta.
Com suas coloridas polleras (saias tradicionais), geralmente vermelhas, tremulando a mais de 6.000 metros de altitude, as Cholitas Escaladoras da comunidade de Chucura, em La Paz, na Bolívia, deixaram de ser um fenômeno local para se tornarem um símbolo mundial de tenacidade indígena.
O que começou, há mais de uma década, como um sonho coletivo é hoje uma realidade que conquistou os cumes mais imponentes da Cordilheira dos Andes — e além. Essas mulheres aimarás, cuja vida historicamente se desenrolou entre as trilhas da montanha que conectam sua comunidade isolada ao restante de La Paz, transformaram a necessidade diária de caminhar em uma arte de conquista vertical.

Sua trajetória é um testemunho de resistência física e espiritual, um verdadeiro registro de feitos gigantescos. Até o momento, elas escalaram seis dos nevados mais emblemáticos do continente, entre eles:
- Aconcágua (Argentina): o “Teto da América”, com imponentes 6.960 metros de altitude;
- Illimani (Bolívia): o “Apu” de La Paz, com 6.462 metros;
- Pomarape (Chile–Bolívia): um gigante de 6.280 metros;
- Huayna Potosí (Bolívia): 6.088 metros;
- Parinacota (Chile–Bolívia): o “vulcão espelho”, com 6.350 metros;
- Acotango (Bolívia): 6.050 metros de altitude.

Desde meninas, as mulheres de Chucura aprenderam que a montanha não se domina — se respeita. Caminhar por horas em encostas íngremes para entrar ou sair da comunidade forjou nelas uma capacidade pulmonar e uma força nas pernas que hoje seriam invejadas pelos atletas de elite.
Caminhando da sobrevivência à glória. “Não paramos de caminhar; só que agora caminhamos em busca de nossos próprios sonhos”, comentam, com humildade andina, enquanto ajustam seus crampons nas abarcas (sandálias) e amarram suas mantas de lã.
Hoje, essas mulheres cruzam o globo. Sua missão transcendeu o esporte: são guerreiras do século XXI, embaixadoras da cultura aimará e da mulher latino-americana. Em um mundo em que o montanhismo costuma ser dominado por equipes de alta tecnologia e figuras masculinas, elas ascendem com sua identidade intacta, demonstrando que a persistência e a herança cultural são as ferramentas mais poderosas para alcançar qualquer cume.
Elena Quispe Tincuta, Alicia Quispe Tincuta, Pacesa Alaña Llusco e Julia Quispe Tincuta — com quem viajamos entre Viru Viru e o aeroporto de Guarulhos —, as Cholitas Escaladoras de Chucura não param. Seguem em busca de mais montanhas do outro lado do mundo, de novos recordes e, sobretudo, de continuar inspirando uma geração que vê em suas polleras a bandeira da liberdade e do empoderamento indígena.
Que vivam as mulheres que não conhecem limites!