Da COP21 à COP30: a ascensão das soluções indígenas em tempos de crise climática

Soluções indígenas mostram que demarcação, saberes tradicionais e cuidado territorial são respostas eficazes à crise climática.

Por Leticia Doormann*

Passaram-se dez anos desde a celebração do Acordo de Paris, na COP21. Uma década depois, Belém, com cheiro de chuva e gosto de jambu, prometia ser uma COP30 histórica. Alguns a anunciaram como a COP das florestas; outros, como a COP da implementação; os mais entusiasmados passaram a chamá-la de COP Indígena.

No entanto, embora o entusiasmo seja contagiante, a verdade é que as negociações climáticas parecem seguir um roteiro já conhecido: pequenas vitórias, grandes omissões e um sistema multilateral que ainda tem dificuldade — ou pouca disposição — para impulsionar soluções reais e sustentáveis no longo prazo.

Ainda assim, algo despertou em Belém. Por mais que o ar-condicionado das salas tentasse esfriar as vozes territoriais, e por mais que o merchandising de marcas “conscientes” buscasse desviar a atenção, foram as ruas, os rios, as casas e os acampamentos que lembraram, com a força do óbvio, quem está, de fato, impulsionando uma transição climática inclusiva e resiliente.

Comunidade Kabata Könana, Costa Rica – Crédito: TINTA, 2021

O que Paris não viu e Belém tornou impossível ignorar

Em 2015, o mundo aplaudia o Acordo de Paris. Com a concentração atmosférica girando em torno de 400 ppm de CO₂ — longe das 350 ppm recomendadas pela ciência —, a necessidade de mudança parecia inevitável. O acordo da COP21 foi recebido com otimismo: limitar o aquecimento global a 1,5 °C soava possível; transformar a economia, necessário; a justiça climática, uma urgência.

Naquele momento, a presença indígena nesses espaços era discreta, quase como se precisasse abrir caminho entre tanto protocolo. A Aliança Global de Comunidades Territoriais, uma coalizão global de povos das florestas tropicais, dava então suas primeiras braçadas na cena climática internacional e levava ao rio Sena a campanha Remando para Paris. Uma delegação pequena, uma coordenação política ainda em construção, mas demandas sistêmicas e profundas começavam a ecoar.

Algumas delas ficaram registradas, literalmente, em um remo entregue a Christiana Figueres, então secretária-executiva da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC): a demarcação de terras; o reconhecimento dos saberes tradicionais; o financiamento territorial direto; o respeito à consulta livre, prévia e informada; e o direito básico de não morrer por defender o meio ambiente. Cinco mensagens, cinco soluções para a crise climática.

Dez anos depois, entre tentativas e erros, isso não foi suficiente para frear o aquecimento global nem suas principais fontes: o consumo de combustíveis fósseis e o desmatamento. Em paralelo ao aumento do consumo de carne e hidrocarbonetos, o CO₂ atmosférico seguiu em alta e, quando Belém recebeu a COP30, o índice já se aproximava de 460 ppm.

Marciane Batista, Associação Mulheres Bacurí Raízes, Comunidade Quilombola Bacurí, Brasil.
Crédito: Noelia Lacayo, 2024.

Ao lado da curva ascendente da temperatura e do CO₂, cresceu outra, muito mais promissora: a da participação indígena, territorial e comunitária nos espaços de negociação e justiça climática. Com ela, fortaleceram-se alianças e articulações políticas globais, o domínio técnico para transitar entre siglas e mecanismos e, sobretudo, a capacidade de apresentar soluções territoriais comprovadas e escaláveis para enfrentar a crise climática.

Assim, ao longo da última década, uma narrativa diferente conseguiu abrir espaço: a ideia de que a resposta não está no discurso tecnocrático nem no capitalismo verde, mas nos territórios, na natureza, nas comunidades que os sustentam e em suas mensagens e soluções. Nesse mesmo caminho, o decrescimento econômico surgiu para desafiar decisões que já não resistem a muita lógica — algo que os Povos Indígenas e as comunidades locais praticam há gerações, sem precisar nomear: não extrair mais do que a natureza pode regenerar, não consumir além do essencial e não confundir bem-estar com acumulação de recursos.

Após um ano marcado por uma articulação política sem precedentes e por um crescimento expressivo das evidências científicas sobre o papel dos Povos Indígenas na conservação das florestas, a chegada de 5.000 lideranças indígenas de todo o mundo – junto a centenas de quilombolas – a Belém tornou impossível continuar ignorando essas vozes. Não se trata apenas de discurso: há evidências de que a demarcação de territórios indígenas poderia evitar até 20% do desmatamento adicional e reduzir as emissões de carbono em 26% até 2030. A demarcação de terras de comunidades tradicionais consolidou-se como uma das ferramentas mais eficazes para conter o desmatamento, enquanto as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) Indígenas, elaboradas pelas próprias organizações territoriais, traçaram caminhos de transição sem petróleo nem mineração nas florestas, baseados no pleno reconhecimento dos direitos territoriais.

A mensagem é clara: a titulação de terras indígenas, quilombolas e comunitárias é uma solução real para a crise climática. A sociedade civil não apenas acompanhou esse avanço, como também amplificou e defendeu as mensagens territoriais. E o Brasil deu passos que, há poucos anos, pareciam improváveis em um evento desse porte: 28 quilombos foram reconhecidos, avançando um passo decisivo rumo à titulação de seus territórios, e 14 novos territórios indígenas foram demarcados, abrangendo diferentes povos, biomas e regiões.

Comunidade Murui. Crédito: Hackeo Cultural, Flotilla Yaku Mama, 2025

O futuro sempre esteve rio acima

Os Povos Indígenas, afrodescendentes e as comunidades locais continuam oferecendo a mesma solução que sempre ofereceram — e que segue funcionando: conhecimento tradicional respeitoso com o meio ambiente, governança territorial baseada no cuidado e uma compreensão profunda dos limites da natureza e da nossa relação com ela.

Talvez o segredo não esteja nas novidades, mas em ouvir, finalmente, quem há muito tempo aponta o caminho. Se os Povos Indígenas protegem mais de um terço das florestas que ainda permanecem de pé, e se rios e mares com guardiões comunitários preservam melhor a biodiversidade e resistem mais às mudanças climáticas, então a chamada transição justa talvez tenha menos a ver com inventar novos mecanismos e mais com reduzir a produção e o consumo do cidadão global, recuperar uma lógica de circularidade e cuidado e transferir poder, direitos e recursos para quem está na linha de frente da ação climática. Talvez, se começarmos a escutar agora, possamos evitar mais dez anos ensaiando soluções complexas enquanto seguimos ignorando as mais justas, sustentáveis e resilientes.

*Leticia Doormann é especialista em socioecologia e diretora executiva da TINTA (The Invisible Thread), uma plataforma global de facilitação dedicada a fortalecer os esforços dos Povos Indígenas e das organizações comunitárias na proteção dos territórios e na ação climática.