Como ‘Two People Exchanging Saliva’ usa o preto e branco para explicar o controle dos corpos?

Onde a violência é mais aceitável que o carinho, o beijo é rebeldia e a própria ideia de cor parece um exagero visual.

Por Carine Leobino

Foto: Cena do próprio filme – Disponível no site da Produtora “Misia Films”

A escolha estética do uso do preto e branco em Two People Exchanging Saliva, obra indicada à categoria de Melhor Curta-Metragem Live-Action do Academy Awards, não é meramente estilística. A ausência de cor funciona como um diagnóstico visual de uma sociedade sensorialmente privada, na qual o Estado normaliza a violência e converte o afeto em uma forma de transgressão.

Essa brutalidade institucionalizada atua como espelho de um sistema capitalista que utiliza a violência como motor e como mecanismo de controle e repressão.

A sequência de abertura estabelece imediatamente o “choque político” que serve de alicerce para a narrativa. O espectador é introduzido a um processo logístico desumanizante: um corpo sendo carregado e descartado em uma caixa de papelão, como se fosse mercadoria.

Embora a cena não revele de imediato o motivo do descarte, a trama já posiciona o indivíduo não como cidadão, mas como material descartável dentro de um sistema que, pouco depois, expõe a agressão física direta como sua verdadeira moeda de funcionamento.

Foto: Reprodução – Site “Misia Films”

Ao mostrar, em seus 36 minutos, o início da relação entre as personagens Malaise e Angine, a obra deixa claro que a orientação sexual ou eventuais casos de traição não são o foco do conflito — tampouco uma questão polêmica naquela sociedade. O problema é muito mais elementar: o afeto.

Relações de carinho são proibidas, e beijar — uma das ações mais simbólicas da humanidade — é visto como uma transgressão irreversível, punível com a morte em um sistema que só admite o contato físico através do impacto.

Nesse cenário, até a palavra “beijo” funciona como um tabu absoluto. O controle estatal chega ao nível da higiene pessoal: escovar os dentes é um ato de rebeldia, enquanto o mercado oferece ferramentas projetadas para manter a anti-higiene bucal. Tudo isso compõe uma estratégia de repulsa programada, feita para impedir que a sociedade encontre calor, força e vontade nas trocas de carinho. O plano é sabotar o afeto antes mesmo que ele aconteça.

“— Por que não ir em frente e dizer? Está acontecendo mais e mais vezes esses dias.
— Armande! Eu aviso você: se ousar dizer essa palavra…”
Trecho traduzido do curta Two People Exchanging Saliva

Mas a quem interessa, afinal, o controle milimétrico dos corpos e a proibição absoluta do carinho?

Àqueles que desejam manter uma ordem que enxerga na solidariedade um prejuízo operacional. No capitalismo, o afeto é o elemento que emperra a engrenagem da produtividade baseada na dor. O sistema lucra quando estamos isolados, consumindo soluções para a nossa solidão, em vez de criarmos vínculos reais que o mercado não pode controlar.

Essa lógica remonta à herança da Industrial Revolution, momento em que o corpo humano foi subvertido à função de máquina e a produtividade foi colocada acima do bem-estar. O curta radicaliza essa premissa ao transformar o próprio mal-estar em ferramenta de governo, regulando as vontades humanas por meio da dor.

Ao converter a integridade física em capital de troca, a obra expõe, em sua versão distópica, mecanismos que também operam fora da ficção. Na sociedade contemporânea, o sujeito continua tendo valor sobretudo enquanto recurso produtivo. O afeto não é proibido, mas inúmeras estruturas já atuam para enfraquecê-lo. Gestos de carinho, por serem imensuráveis e improdutivos, tornam-se uma espécie de erro de cálculo que o mercado tenta neutralizar para manter o controle social.

Apesar de não ser mencionado diretamente no filme, existe um conceito que ajuda a explicar esse tipo de sistema: o Michel Foucault chamou de Biopower.

Proposto pelo filósofo, o termo descreve a gestão da vida em sua dimensão biológica como uma ferramenta política. Para Foucault, o biopoder foi fundamental para o desenvolvimento do capitalismo, sistema que se consolidou por meio do controle disciplinar dos corpos dentro dos processos de produção e do ajuste dos fenômenos populacionais às necessidades da economia.

“Os rudimentos de anátomo e de biopolítica agiram no nível dos processos econômicos […] garantindo relações de dominação e efeitos de hegemonia; o ajustamento da acumulação dos homens à expansão das forças produtivas e a repartição diferencial do lucro foram, em parte, tornados possíveis pelo exercício do biopoder.”
— Michel Foucault, em The History of Sexuality, Volume 1

No curta, essa lógica se materializa na proibição do beijo. Ao gerenciar a saliva e o contato físico, o Estado impede que a energia vital se disperse no afeto, garantindo que ela seja canalizada exclusivamente para a engrenagem do trabalho e da dor.

Fora da tela, esse controle opera de forma muito mais sutil. O domínio sobre corpos e populações passa por algoritmos e metadados, que monitoram comportamentos, saúde e subjetividades nas redes digitais. Essa lógica transforma a vida em dados geridos por plataformas, intensificando a vigilância e moldando comportamentos por meio de inteligência artificial e conexões contínuas.

O cinema sempre foi uma forma de articular arte e política — e Two People Exchanging Saliva, em seus apenas 36 minutos, faz isso com precisão. Toda escolha estética em um filme carrega significado e revela algo sobre o mundo que representa.

Aqui, a ausência de cor não é apenas um recurso visual: ela constrói a metáfora de uma sociedade emocionalmente dessaturada. Ao retratar uma realidade fria, sustentada pela desumanização e pelo isolamento — onde a moeda de transação é o tapa e o carinho é proibido — o beijo se torna o maior ato de rebeldia possível.

A mensagem final é clara: as relações humanas, em sua desordem e imprevisibilidade, ainda permanecem como uma das últimas fronteiras que a lógica do lucro não conseguiu colonizar completamente.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.