Por Beto Oliveira

Foto: Divulgação: O Grande Gatsby (2013) Warner

Respire fundo: você não está sozinho. Todos os anos, milhões de pessoas ligam a televisão para assistir ao Academy Awards sem ter visto praticamente nenhum dos filmes indicados, e isso já virou parte do ritual da premiação.

O Oscar deixou de ser apenas uma celebração do cinema. A transmissão global se transformou em um espetáculo cultural que mistura memes instantâneos, discursos emocionados, moda de tapete vermelho, gafes ao vivo e disputas nos bastidores da indústria. Para muita gente, acompanhar a cerimônia virou mais um evento pop do que uma maratona cinéfila.

A edição de 2026 acontece em 15 de março, no Dolby Theatre, em Hollywood, com apresentação do comediante Conan O’Brien. A expectativa da indústria é que a transmissão volte a atrair grandes audiências globais, impulsionada por campanhas agressivas de ‘awards season’, quando estúdios investem milhões para manter seus filmes no centro das conversas globais.

Nos bastidores, a disputa começa meses antes da cerimônia, com eventos exclusivos, sessões privadas para votantes e campanhas publicitárias “For Your Consideration” direcionadas aos membros da Academy of Motion Picture Arts and Sciences.

Se você está chegando totalmente perdido para a maior noite de Hollywood, calma: este é um guia rápido de sobrevivência do Oscar 2026 para entender o que realmente importa. Sem precisar maratonar dezenas de filmes indicados na noite de sábado para domingo.

Foto: Lugon Stock

Primeiro passo: entenda a “guerra” principal da noite

Toda cerimônia do Oscar costuma ser guiada por uma narrativa dominante. Uma disputa que concentra a atenção da imprensa, da indústria e dos votantes da Academy of Motion Picture Arts and Sciences. Em 2026, o confronto mais comentado da ‘awards season’ gira em torno de dois filmes que representam forças bem diferentes em Hollywood.

De um lado está ‘Pecadores’ (2025), dirigido por Ryan Coogler (Pantera Negra, Creed, Judas e o Messias Negro). O longa se tornou um fenômeno cultural e liderou as indicações com 16 nomeações, algo raríssimo na história recente do Oscar. Além da repercussão crítica, o filme também teve forte desempenho comercial e dominou conversas nas redes e na imprensa especializada. Um exemplo clássico de como bilheteria, buzz cultural e campanhas massivas de marketing podem impulsionar um candidato ao prêmio.

Do outro lado está ‘Uma Batalha Após a Outra’ (2025), drama político estrelado pelo ator pop Leonardo DiCaprio e dirigido por Paul Thomas Anderson (Sangue Negro, Boogie Nights, Licorizze Pizza). O filme ganhou força ao longo da temporada ao vencer prêmios da crítica e aparecer constantemente nas previsões de especialistas. Um perfil típico do “favorito da indústria”, apoiado por prestígio autoral e forte campanha entre votantes.Então, para não chegar perdido na cerimônia, a dica é começar pelos dois filmes. Se um desses dois títulos dominar a noite, você já entenderá a principal história do Oscar 2026.

Foto por Photo Courtesy Warner Bros. Pictures – © Warner Bros. Pictures

Saiba quais filmes realmente importam

A categoria Melhor Filme do Oscar  costuma definir o tom da cerimônia. Desde que a Academy of Motion Picture Arts and Sciences ampliou a categoria para até dez indicados, a lista passou a reunir desde grandes produções de estúdio até filmes independentes e títulos de prestígio do circuito de festivais.

Em 2026, os indicados são:

Foto por Atsushi Nishijima/Focus Features/Atsushi Nishijima/Focus Feature

Bugonia (2025, dir. Yorgos Lanthimos) — Uma sátira de ficção científica sobre teorias conspiratórias e paranoia contemporânea, com o humor absurdo característico do diretor grego.

Divulgação: Warner / AppleTV

F1 (2025, dir. Joseph Kosinski) — Um drama esportivo ambientado no universo da Fórmula 1, combinando espetáculo visual, tecnologia de ponta e bastidores de uma equipe de corrida de elite.

Foto por Courtesy of Netflix

Frankenstein (2025, dir. Guillermo del Toro) — Nova adaptação do clássico literário que mistura horror gótico e reflexão existencial sobre criação, solidão e humanidade.

Foto por Agata Grzybowska

Hamnet (2025, dir. Chloé Zhao) — Drama histórico inspirado no romance de Maggie O’Farrell, explorando a vida da família de William Shakespeare após a morte de seu filho.

Divulgação: A24

Marty Supreme (2025, dir. Josh Safdie) — Drama frenético ambientado no mundo do tênis de mesa profissional, com ritmo intenso e abordagem crua típica do cinema dos irmãos Safdie.

Divulgação: Warner

Uma Batalha Após a Outra (2025, dir. Paul Thomas Anderson) — Mais um drama político estrelado por Leonardo DiCaprio, que acompanha um líder carismático envolvido em conflitos ideológicos e disputas de poder.

Divulgação: Vitrine Filmes

O Agente Secreto (2025, dir. Kleber Mendonça Filho) — Thriller político ambientado no Brasil, combinando suspense e crítica histórica sobre vigilância e autoritarismo.

Divulgação: NEON

Valor Sentimental (2025, dir. Joachim Trier) — Drama familiar intimista sobre memória, luto e reconciliação, explorando relações entre pais e filhos ao longo de décadas.

Foto por Courtesy of Warner Bros.

Pecadores (2025, dir. Ryan Coogler) — Thriller histórico com elementos sobrenaturais ambientado no sul dos Estados Unidos, que mistura música blues, racismo estrutural e horror psicológico.

Foto por Courtesy of Netflix – © 2025 BBP Train Dreams. LLC

Sonhos de Trem (2025, dir. Clint Bentley) — Drama contemplativo ambientado no início do século XX que acompanha a vida solitária de um trabalhador das ferrovias no interior dos Estados Unidos.

Nos bastidores da premiação, no entanto, especialistas costumam lembrar: nem todos os indicados entram na noite com chances reais de vitória. Em geral, apenas três ou quatro filmes concentram o verdadeiro embate final pelo prêmio de Melhor Filme.

Divulgação: Warner / Apple TV

O blockbuster infiltrado no Oscar

Entre os indicados ao Oscar 2026 quase sempre aparece um elemento curioso: o blockbuster da lista. Aquele filme que realmente levou multidões ao cinema.

Em 2026, esse papel foi ocupado por F1- O filme (2025), dirigido por Joseph Kosinski (Top Gun: Maverick, Oblivion, Tron: O Legado) e estrelado pelo astro Brad Pitt. O drama ambientado no universo da Fórmula 1 arrecadou cerca de US$631 milhões nas bilheterias globais, tornando-se o maior sucesso comercial entre os indicados a Melhor Filme.

Nos bastidores da ‘awards season’, esse tipo de indicação cumpre uma função importante para a própria premiação. A Academy of Motion Picture Arts and Sciences ampliou a categoria de Melhor Filme justamente para incluir produções mais populares e manter o Oscar relevante para o grande público.

Mas existe uma regra não escrita em Hollywood: filmes populares ajudam a atrair audiência para a cerimônia, mas filmes de prestígio costumam ganhar o prêmio.

É por isso que blockbusters aparecem na lista, mas raramente levam a estatueta principal. Hollywood continua valorizando a bilheteria, mas quando chega a noite do Oscar, o prestígio ainda pesa mais que números.

Divulgação: Warner

O filme que virou obsessão da temporada

Se um título vai dominar as conversas durante o Oscar 2026, esse nome é Pecadores.

Dirigido por Ryan Coogler, o thriller ambientado no sul dos Estados Unidos mistura drama histórico, música blues e elementos de terror sobrenatural. O resultado virou um fenômeno raro na ‘awards season’: sucesso de crítica, impacto cultural e forte desempenho de bilheteria, com mais de US$360 milhões arrecadados mundialmente.

Nos bastidores da temporada de premiações, o filme também ganhou força graças a uma campanha agressiva do estúdio. Com exibições privadas para votantes, debates com elenco e presença constante na mídia especializada. O efeito foi imediato: Pecadores liderou as indicações ao Oscar com 16 nomeações, algo incomum mesmo para os padrões da Academia.

Esse tipo de domínio costuma indicar um fenômeno conhecido em Hollywood como “momentum de premiação”. Quando um filme passa meses acumulando visibilidade, prêmios da crítica e apoio da indústria antes da votação final da Academy of Motion Picture Arts and Sciences.

Para quem estiver assistindo à cerimônia sem ter visto os filmes indicados, a tradução será simples: ‘Pescadores’ deve subir ao palco várias vezes durante a noite.

Foto por Courtesy of Focus Features © 2/Courtesy of Focus Features © 2 – © 2025 Focus Features, LLC.

O segredo que ninguém te contou sobre o Oscar

Quase nenhum filme chega ao Oscar por acaso. Muito antes da cerimônia, Hollywood entra na chamada ‘awards season’. Um período que começa nos festivais de outono e pode durar até seis meses, quando estúdios e plataformas de streaming mobilizam campanhas milionárias para conquistar os votantes da Academy of Motion Picture Arts and Sciences.

Nos bastidores da indústria, essas campanhas funcionam como uma operação de marketing altamente direcionada. O objetivo é simples: manter o filme constantemente na mente dos cerca de 10 mil membros da Academia até o momento da votação.

Entre as estratégias mais usadas nas campanhas da Academy Awards estão os anúncios “For Your Consideration”, publicidade direcionada aos votantes da Academy of Motion Picture Arts and Sciences em veículos da indústria como Variety, The Hollywood Reporter e Deadline Hollywood. 

Paralelamente, estúdios organizam sessões privadas para votantes em cidades estratégicas como Los Angeles, Nova York e Londres, geralmente acompanhadas de debates com diretores, roteiristas e elenco. A temporada também é marcada por eventos e networking da indústria, como jantares, recepções e painéis exclusivos que aproximam artistas e eleitores da Academia. 

Ao mesmo tempo, equipes de comunicação trabalham para garantir entrevistas e cobertura estratégica na imprensa especializada, com perfis, reportagens e podcasts que reforçam a narrativa cultural do filme ao longo da awards season. Nos últimos anos, essas ações passaram a ser amplificadas por campanhas digitais e redes sociais, usadas para gerar buzz, engajamento e manter os candidatos ao Oscar constantemente no centro das conversas da indústria.O resultado é uma engrenagem sofisticada de marketing de premiações, onde reputação, narrativa pública e visibilidade constante podem influenciar o destino de um filme. Em resumo: no Oscar, talento artístico importa, mas uma bela campanha de marketing também.

Divulgação: Warner

A categoria mais imprevisível da noite

Se existe um momento em que o Oscar costuma surpreender, ele está nas categorias de atuação. Historicamente, Melhor Ator e Melhor Atriz são as disputas mais imprevisíveis da noite, muitas vezes decididas por margens mínimas de votos entre os membros da Academy of Motion Picture Arts and Sciences.

Na ‘awards season de 2026, três nomes dominaram as conversas da indústria e da imprensa especializada: Michael B. Jordan, cuja performance intensa em Pecadores virou um dos pontos altos da temporada; Jessie Buckley, elogiada por uma atuação emocionalmente devastadora que acumulou prêmios da crítica por Hamnet; e Timothée Chalamet, que chega à disputa impulsionado por forte campanha de estúdio e grande visibilidade na mídia. E o brasileiro Wagner Moura, cuja presença na disputa reacendeu o interesse internacional e mobilizou grande torcida nas redes sociais.

Nos bastidores, analistas lembram que as categorias de atuação são influenciadas não apenas pela qualidade da performance, mas também por fatores como narrativa de carreira, popularidade entre colegas e momentum na temporada de premiações.

Por isso, quando os envelopes são abertos, é comum ver reações genuinamente emocionadas, e às vezes chocadas. no palco do Oscar.

Images Staff: Reuters

A parte mais absurda da premiação

Mesmo quem não leva a estatueta do Academy Awards para casa dificilmente sai de mãos vazias.

Nos bastidores da premiação existe uma tradição quase tão famosa quanto o tapete vermelho: a luxuosa “gift bag” entregue aos indicados das principais categorias. Produzida pela empresa de marketing Distinctive Assets, a bolsa, conhecida informalmente em Hollywood como “Everyone Wins” gift bag, costuma reunir experiências e produtos avaliados em centenas de milhares de dólares.

Nas últimas edições do Academy Awards, o valor estimado da famosa gift bag entregue aos indicados chegou a cerca de US$350 mil, reunindo uma seleção extravagante de benefícios que vão de viagens internacionais em resorts de luxo e estadias em hotéis cinco estrelas a procedimentos estéticos e tratamentos de bem-estar, além de joias, produtos de grifes e convites para experiências exclusivas pensadas para a elite de Hollywood. Essas bolsas, organizadas por empresas de marketing e não diretamente pela Academy of Motion Picture Arts and Sciences, funcionam como uma vitrine global para marcas que querem associar seus produtos ao glamour da premiação.

É importante notar um detalhe curioso de bastidor: essas bolsas não são organizadas pela Academy of Motion Picture Arts and Sciences, mas por empresas que veem nos indicados uma vitrine global de marketing. Para as marcas, aparecer na bolsa de um indicado ao Oscar significa publicidade internacional instantânea.

Traduzindo para quem está assistindo em casa: perder o Oscar pode doer, mas pelo menos vem acompanhado de férias em resorts cinco estrelas.

O truque final para parecer especialista

Existe um pequeno segredo nos bastidores do Academy Awards: grande parte das conversas sobre o Oscar gira menos em torno dos filmes em si e mais sobre campanha, narrativa e tendência de voto dentro da Academy of Motion Picture Arts and Sciences.

Por isso, jornalistas de entretenimento, publicistas e analistas da ‘awards season’ costumam repetir algumas frases quase universais. Comentários que fazem sentido em praticamente qualquer disputa da premiação.

Se você quiser parecer especialista durante a cerimônia, três funcionam em quase todas as situações:

“Esse filme tem uma campanha muito forte.”
Nos bastidores do Oscar, campanhas de marketing podem custar milhões de dólares, com anúncios For Your Consideration, sessões privadas para votantes e presença constante na mídia especializada.

“A Academia gosta desse tipo de história.”
Ao longo das décadas, a Academia criou padrões claros: dramas históricos, histórias reais, transformações físicas de atores e filmes com forte peso social costumam ter vantagem.

“Talvez seja o ano do azarão.”
Todo Oscar tem a narrativa do ‘underdog’. Aquele filme ou ator que surge como surpresa após ganhar força no fim da temporada.

Na prática, essas três frases explicam boa parte da lógica do Oscar: campanha, tradição e narrativa.

E o melhor: funcionam em 95% das conversas sobre a premiação.

Divulgação: Warner

O Oscar é menos sobre assistir filmes e mais sobre participar do espetáculo

A essa altura, vale admitir uma verdade que a própria indústria já reconhece: o Academy Awards deixou de ser apenas uma premiação de cinema. Hoje ele funciona como um grande evento cultural global, onde cinema, moda, política, marketing e cultura pop se misturam na mesma noite.

Enquanto os filmes disputam estatuetas, o espetáculo se expande para além da tela. O tapete vermelho gera manchetes sobre figurinos, discursos viralizam nas redes sociais, campanhas de estúdio moldam narrativas públicas e momentos inesperados viram memes instantâneos que circulam pelo mundo.

Nos bastidores, a própria Academy of Motion Picture Arts and Sciences entende esse fenômeno: a cerimônia é assistida em centenas de países e mobiliza audiências muito maiores do que o público que efetivamente viu todos os indicados.

Por isso, acompanhar o Oscar não exige necessariamente uma maratona de filmes.

Basta entender as histórias da temporada, as rivalidades entre produções, os favoritos da crítica e os bastidores da awards season. Se você está acompanhando as narrativas, os favoritos e as surpresas da noite…

então já está participando do verdadeiro espetáculo.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.