Por João Cavalcante

Foto: Reprodução / IMDb

Em um momento histórico marcado por disputas sobre o que é ou não verdade, o cinema também tem se voltado para discutir a forma como lidamos com a informação e com a própria ideia de realidade. É nesse território que se insere Bugonia, novo longa dirigido por Yorgos Lanthimos e indicado à categoria de Melhor Filme na 98ª edição do Oscar.

A obra é um remake do filme sul-coreano Save the Green Planet! (2003), dirigido por Jang Joon-hwan, em que já se explorava a história de um homem convencido de que extraterrestres haviam se infiltrado entre membros da elite econômica da sociedade. Entretanto, ao revisitar essa premissa duas décadas depois, a nova versão ganha um peso adicional. Aquilo que antes poderia soar como exagero satírico hoje encontra um contexto ainda mais reconhecível na obra de Lanthimos.

Esse deslocamento se torna evidente em um ambiente marcado pela circulação acelerada de conteúdos nas redes sociais. O acesso a dados, notícias e análises nunca foi tão amplo. Ainda assim, essa abundância também produziu um cenário em que interpretações concorrentes disputam espaço e diferentes versões dos acontecimentos convivem de maneira cada vez mais difusa no debate público.

É nesse cenário que o cineasta grego desenvolve sua história. Conhecido por explorar situações absurdas e figuras excêntricas como instrumento de crítica social, o diretor utiliza essa premissa para abordar uma questão cada vez mais presente no cotidiano contemporâneo: a dificuldade de distinguir entre fatos verificáveis e crenças pessoais.

Na trama, o conspiracionista Teddy Gatz, interpretado por Jesse Plemons, está profundamente envolvido em comunidades on-line e convencido de que forças extraterrestres operam disfarçadas na Terra. No centro dessa teoria surge Michelle Fuller, uma empresária poderosa interpretada por Emma Stone. Fria, distante e envolta em uma aura de mistério, a personagem se torna alvo de sua obsessão.

Foto: Reprodução / IMDb

Durante grande parte do filme, o espectador é levado a interpretar essa crença como paranoia. O contraste entre a certeza absoluta do personagem e a aparente irracionalidade de suas conclusões transforma a história em uma tragicomédia marcada pelo humor desconfortável que se tornou uma assinatura do cinema de Lanthimos.

Essa construção dialoga diretamente com um conceito que ganhou força no debate público na última década: a chamada pós-verdade. Em 2016, o termo foi escolhido como palavra do ano pelo Dicionário Oxford, reconhecimento que refletia um fenômeno cada vez mais presente nas discussões políticas e sociais contemporâneas.

Segundo o próprio dicionário britânico, o verbete significa “relativo a ou que denota circunstâncias nas quais fatos objetivos são menos influenciadores na formação da opinião pública do que apelos à emoção ou à crença pessoal”, definição citada em reportagem do portal G1 sobre a escolha da palavra do ano.

Dentro da história apresentada por Bugonia, esse mecanismo aparece de maneira clara. O conspiracionista não busca evidências para sustentar suas ideias. Ao contrário, parte de uma conclusão prévia e reorganiza os acontecimentos ao seu redor para confirmá-la. Cada episódio passa a funcionar como prova de que sua interpretação está correta.

Foto: Reprodução / IMDb

Esse comportamento não pertence apenas ao campo da ficção. Em um cenário político cada vez mais polarizado, crenças passaram a desempenhar um papel central na forma como indivíduos interpretam acontecimentos públicos. Narrativas concorrentes disputam legitimidade e, frequentemente, a adesão a determinadas versões dos fatos deixa de depender de verificação e passa a refletir identidade, pertencimento ou desconfiança em relação ao outro.

Nesse contexto, a desinformação já não se limita a um equívoco ocasional e passa a atuar como uma força capaz de orientar comportamentos. Quando uma crença se estabelece como verdade absoluta para quem a sustenta, ela pode orientar decisões, justificar ações e legitimar atitudes que, em outras circunstâncias, talvez fossem impensáveis.

Uma das ironias mais provocativas está justamente na forma como o filme desafia a percepção do espectador. Ao acompanhar alguém cuja visão de mundo parece construída sobre paranoia, o público é levado a refletir sobre algo que ultrapassa os limites da ficção.

Em um tempo marcado pela circulação incessante de conteúdos, a questão central talvez não seja apenas descobrir o que é verdadeiro ou falso. A pergunta mais inquietante é outra: até que ponto uma crença, quando se transforma em certeza absoluta, pode levar indivíduos a agir, acreditar e se sacrificar por uma versão dos acontecimentos que nunca foi realmente examinada?

Talvez seja esse o ponto mais perturbador sugerido por Bugonia. Em uma sociedade em que todos parecem ter acesso a dados e interpretações, a crise mais profunda pode não estar na escassez de conhecimento, mas na dificuldade crescente de reconhecer aquilo que chamamos de verdade.

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Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.