Bolha de IA pode arrastar economia estadunidense para maior crise da história
Investimentos massivos em tecnologia se apoiam em expectativas frágeis e podem gerar colapso financeiro global
Wall Street vive um dilema. Segundo o WSJ, com dados da firma BCA Research, no primeiro semestre de 2025, 50% de todo o crescimento do PIB estadunidense decorreu dos investimentos de empresas relacionadas à economia da Inteligência Artificial¹. No mercado de valores mobiliários, o Morgan Stanley avalia que entre 75% e 80% de todos os ganhos das bolsas de valores dos Estados Unidos no último ano decorreram da valorização de ações de companhias ligadas a essa tecnologia².
Segundo a Bloomberg, apenas as gigantes da tecnologia Google, Amazon, Meta e Microsoft devem investir cerca de US$ 650 bilhões em infraestrutura para IA em 2026, indicando a magnitude da aposta estadunidense nesse mercado³. Em 2025, tais investimentos superaram US$ 450 bilhões. Para Tim Wu, trata-se da maior aposta que a humanidade já realizou no desenvolvimento de uma única tecnologia, com investimentos superiores à soma dos gastos para ir à Lua, desenvolver a bomba atômica e a internet.
Por outro lado, até agora nenhuma das grandes empresas de tecnologia conseguiu desenvolver um modelo de negócios para a Inteligência Artificial generativa que cubra os investimentos trilionários necessários ao desenvolvimento desses modelos de linguagem. Esse fato tem levado analistas de Wall Street a avaliarem que os ganhos atuais se assentam sobretudo sobre promessas e expectativas quanto à intensificação dos investimentos em infraestrutura e a possíveis retornos dessa nova tecnologia — retornos que, até agora, não se realizaram⁴.
Para contornar o baixo retorno apresentado, gigantes como a OpenAI e a Google estudam novos modelos de negócio que tornem a tecnologia rentável. Segundo artigo da Harvard Business Review, diante do fraco desempenho das assinaturas pagas, a solução mais frequentemente apresentada tem sido a adoção da publicidade digital, de modo que usuários passem a receber inserções publicitárias ao realizarem prompts para as mais diversas finalidades⁵.
Contudo, como se sabe, o mercado de publicidade — e sua necessidade de captura da atenção humana — é hoje disputado pela mídia tradicional impressa, pela radiodifusão, pelas redes sociais, por serviços de e-mail, por assistentes de IA, por plataformas de streaming, entre outros⁶. Essa economia da atenção, como afirmou Herbert Simon, conduz a uma situação em que, em um mundo dominado pela informação (a chamada Sociedade da Informação), o verdadeiro recurso escasso é a atenção humana.
Para disputar essa atenção, os provedores de IA têm apostado na calibração de seus modelos de linguagem para oferecer “respostas” (outputs) que mantenham os usuários conectados às plataformas por mais tempo. Segundo pesquisa da Harvard Business School, plataformas de IA vêm utilizando estratégias de manipulação emocional, como medo, culpa e intimidação, para impedir que os usuários se desconectem⁷. Assim, a tecnologia que se prometia revolucionária para a produtividade e a dinamicidade do trabalho humano converte-se, agora, em mais um mecanismo de captura da atenção, voltado à distribuição de publicidade.
Trata-se da mesma lógica que Zuboff (2021, p. 339)⁸ e Fisher (2023, p. 40)⁹ identificaram como o modus operandi das redes sociais (Facebook, Instagram, YouTube etc.) para o condicionamento do comportamento humano, por meio da psicologia behaviorista de B. F. Skinner: manter usuários viciados e hiperconectados às interfaces, ampliando, assim, a venda de publicidade.
Esse modelo de negócio decorre de uma abordagem adotada há anos pelos desenvolvedores do Vale do Silício. De modo geral, as empresas estadunidenses buscam a criação de uma Inteligência Artificial Geral, capaz de manter o usuário integralmente dentro da plataforma, utilizando-a para todas as finalidades — da pesquisa ao entretenimento, da compra de produtos à contratação de serviços. Ocorre que tal abordagem depende da disponibilidade de atenção humana, hoje escassa, cansada e disputada por uma variedade infindável de ferramentas e serviços que dependem desse mesmo recurso.
Em sentido distinto, a China tem desenvolvido modelos de IA voltados à resolução de problemas práticos de sua indústria e economia. Em vez de apostar em uma IA Geral, o país investe em uma multiplicidade de modelos especializados, orientados à solução de demandas concretas de sua sociedade. Nesse contexto, as tecnologias chinesas não dependem, até agora, da atenção humana como mercadoria central do modelo de negócios. Ao oferecer soluções eficientes para problemas reais, o país aposta em sistemas que se integram à produção e às cadeias de suprimento, tornando a tecnologia uma ferramenta produtiva e social, e não apenas um dispositivo de exploração da escassez de tempo e atenção humanas.
Além disso, o modelo chinês que mais se aproxima do projeto das gigantes americanas, o DeepSeek, causou impactos expressivos em Wall Street quando, em janeiro de 2025, foi disponibilizado ao mercado com investimentos e capacidade computacional inferiores aos adotados pela indústria estadunidense, mas com resultados e qualidade comparáveis aos modelos ocidentais. Em apenas um dia, as ações da Nvidia — gigante dedicada à produção de chips para IA — caíram 17%, representando uma perda de US$ 598 bilhões em valor de mercado, a maior já registrada na história em qualquer setor econômico. Ademais, os principais modelos do DeepSeek são de código aberto, permitindo que qualquer desenvolvedor ou empresa os utilize, modifique, treine e distribua livremente, adaptando-os a necessidades específicas.
O cenário, portanto, é de uma aposta extraordinária do mercado na abordagem adotada pelos Estados Unidos, com investimentos jamais experimentados pela humanidade no desenvolvimento de uma única tecnologia. Se bem-sucedida, essa estratégia pode levar o país a obter mais um longo período de supremacia econômica, militar e científica¹⁰. Caso se revele equivocada, contudo, é plausível observar o estouro de uma bolha, com o consequente derretimento das maiores corporações do planeta, perdas trilionárias em investimentos e mais um avanço no processo, já em curso, de desdolarização da economia mundial.