Por Beatriz Gomes Cornachin*

Os últimos acontecimentos em Cuba possuem uma força argumentativa difícil de contornar. Quando os Estados Unidos recrudescem deliberadamente as medidas para dificultar a chegada de combustível à ilha e, em seguida, o país enfrenta apagões prolongados, colapso do sistema elétrico e maior pressão sobre serviços essenciais, a relação entre o bloqueio e o agravamento da crise deixa de parecer uma formulação abstrata e se impõe como evidência material. Torna-se, assim, cada vez mais difícil sustentar — ainda que muitos persistam nisso — que a crise energética mais recente em Cuba não esteja diretamente ligada às medidas deliberadas por Washington para asfixiar o abastecimento de combustível da ilha.

Cuba também expõe, com nitidez, o esvaziamento do discurso estadunidense de promoção da “liberdade”: que liberdade é essa que pretende libertar um povo por meio da asfixia econômica, da escassez de combustível, do desabastecimento e da escuridão dos apagões? Libertar na penúria, no colapso energético e na deterioração das condições mais básicas de reprodução da vida?

Em 29 de janeiro de 2026, a Casa Branca anunciou que Donald Trump havia assinado uma ordem executiva para estabelecer um processo de imposição de tarifas a países que vendessem ou fornecessem petróleo a Cuba. (whitehouse.gov) Em 9 de fevereiro, o governo cubano informou oficialmente que vinha adotando medidas para enfrentar a situação, associando-a ao recrudescimento do bloqueio e, em particular, às pressões para restringir o fornecimento de combustível à ilha — inclusive por meio de sanções secundárias e ameaças a navios e companhias marítimas. (mep.gob.cu) Em março, o próprio governo dos Estados Unidos voltou a agir sobre o circuito petrolífero ao emitir uma nova licença da OFAC para operações com petróleo russo, em um contexto no qual Cuba seguia submetida ao estreitamento de suas vias de abastecimento energético. (ofac.treasury.gov)

É justamente aí que reside a potência argumentativa do momento atual: ele torna imediatamente visível aquilo que, durante décadas, muitos insistiram em relativizar. Não porque o bloqueio produza sozinho toda a realidade cubana, mas porque atua como força material ativa no agravamento permanente de suas contradições, comprimindo as margens de ação do país e convertendo carências em estrangulamento. A deterioração do cotidiano cubano não pode ser compreendida à margem do bloqueio: ele opera como mecanismo permanente de compressão das condições materiais de reprodução da vida na ilha.

Essa formulação ganha ainda mais nitidez quando observamos a própria explicação oferecida por autoridades cubanas. Em 16 de março de 2026, Díaz-Canel afirmou que, após medidas e ações adotadas para enfrentar o “bloqueio energético” e a escassez de combustível, o impacto da crise se manifestava de forma brutal sobre a vida cotidiana, atingindo água, produção, comunicações, serviços médicos, educação e transporte. (mep.gob.cu) Na mesma ocasião, declarou que a culpa da crise não era “do Governo” ou “da Revolução”, mas do “bloqueio energético” imposto ao país, acrescentando que Cuba já enfrentava, havia mais de três meses, um cenário de asfixia no abastecimento de energia. (mep.gob.cu)

Esse cerco, porém, não é novo, nem episódico, nem improvisado. O próprio Departamento de Estado dos Estados Unidos reconhece que o país mantém um embargo econômico abrangente contra Cuba e registra que, em fevereiro de 1962, John F. Kennedy o proclamou formalmente. (state.gov) Ao longo das décadas, essa política foi sendo ampliada, consolidada e endurecida. A chamada Lei Torricelli, ou Cuban Democracy Act, de 1992, reforçou o bloqueio ao ampliar restrições ao comércio com Cuba e incorporar mecanismos destinados a pressionar também terceiros países e embarcações vinculadas a operações com a ilha. (state.gov) Já a Lei Helms-Burton, ou Cuban Liberty and Democratic Solidarity (LIBERTAD) Act, de 1996, consolidou o bloqueio em lei federal, aprofundou sua dimensão extraterritorial e fortaleceu os instrumentos de coerção sobre empresas, investidores e agentes econômicos de outros países. (state.gov) As medidas atuais sobre combustível e petróleo, portanto, não são exceção: constituem a atualização contemporânea de uma política histórica de asfixia econômica, comercial e financeira.

A crise recente também evidencia algo decisivo: o bloqueio não atinge apenas um setor isolado, mas opera de forma transversal sobre o conjunto da economia e da vida social cubana. Em fevereiro de 2026, o governo cubano explicou que o combustível disponível passaria a ser destinado prioritariamente à proteção dos serviços essenciais da população e às atividades econômicas imprescindíveis, enquanto a geração elétrica teria de se sustentar fundamentalmente com produção nacional de crude, gás associado e fontes renováveis. (mep.gob.cu) Em março, Díaz-Canel voltou a afirmar que os apagões e a instabilidade do sistema elétrico afetavam diretamente o abastecimento de água, a vitalidade da produção, as comunicações, os serviços médicos, a educação e o transporte. (mep.gob.cu) O governo cubano também reconheceu que a redução da atividade produtiva e das ofertas de serviços decorre diretamente da limitação energética, já que “sem energia nenhum país pode produzir en las magnitudes de la normalidad”. (mep.gob.cu)

Não se trata, portanto, de uma dificuldade confinada ao setor elétrico: a energia aparece como mediação concreta entre o bloqueio e o rebaixamento mais amplo das condições de vida.

Essa leitura é reforçada pelo informe cubano apresentado nas Nações Unidas. Em outubro de 2025, ao apresentar o relatório sobre os efeitos do bloqueio, o chanceler Bruno Rodríguez afirmou que, entre março de 2024 e fevereiro de 2025, os danos materiais causados a Cuba superaram US$ 7,5 bilhões, com aumento de 49% em relação ao período anterior. (mep.gob.cu) Segundo o mesmo informe, o prejuízo acumulado em mais de seis décadas alcança US$ 170,677 bilhões, e mais de 80% dos cubanos nasceram sob o bloqueio — o que dá a medida histórica e geracional dessa política. (mep.gob.cu) O documento destaca ainda que o bloqueio constitui obstáculo central à obtenção de equipamentos, peças de reposição, insumos médicos e tecnologias, além de registrar a recusa de bancos estrangeiros em operar com Cuba, o bloqueio de transferências financeiras e danos também nos setores de comunicações, informática e transporte. (mep.gob.cu)

No caso específico da energia, os dados oficiais cubanos ajudam a traduzir o bloqueio em termos concretos. Segundo o Ministério da Economia e Planejamento, o informe apresentado por Bruno Rodríguez mostrou que dois meses de bloqueio equivaleriam aos recursos necessários para garantir o combustível da demanda elétrica nacional, enquanto poucos dias bastariam para financiar reparações fundamentais em centrais termoelétricas. (mep.gob.cu) O mesmo material observa que o bloqueio também impede assistência técnica para reparos, em razão da presença de componentes estadunidenses em equipamentos — o que demonstra como essa política não atua apenas como sanção externa, mas interfere diretamente na capacidade de manutenção da infraestrutura nacional. (mep.gob.cu) Não é por acaso, portanto, que a questão energética tenha adquirido tamanho peso no debate público cubano: ela condensa, de maneira extremamente visível, os efeitos acumulados de um cerco que atravessa toda a economia.

É precisamente essa transversalidade que torna tão frágil a tentativa de tratar o bloqueio como explicação secundária ou como “desculpa” reiterada pelo governo cubano. Evidentemente, a realidade cubana possui contradições internas, limitações econômicas e problemas de gestão que não devem ser apagados. Mas reconhecer isso não autoriza diminuir o peso do bloqueio; ao contrário, exige compreender que ele opera como condição estrutural de agravamento, encarecendo importações, restringindo crédito, perseguindo transações, intimidando fornecedores, dificultando reparos, travando compras e estreitando o acesso do país a combustível, peças, medicamentos e insumos. O próprio governo cubano tem insistido que não se trata de justificar a crise, mas de explicitar os mecanismos concretos pelos quais ela é aprofundada. (mep.gob.cu)

Por tudo isso, a crise energética recente em Cuba possui uma força política singular. Ela não cria do zero a verdade do bloqueio; ela a expõe de maneira condensada, brutal e difícil de negar. Quando falta combustível, falta eletricidade; quando falta eletricidade, falha o abastecimento de água, enfraquece-se a produção, degradam-se serviços e multiplicam-se os obstáculos ao funcionamento de hospitais, escolas, transportes e comunicações. (mep.gob.cu) E, quando esse agravamento se produz logo após novas medidas deliberadas dos Estados Unidos para apertar ainda mais o cerco energético, a potência argumentativa do bloqueio se intensifica.

Nesse sentido, Cuba desmonta, na prática, a retórica da “liberdade” mobilizada por Washington: não há libertação possível na escuridão, na escassez, no colapso dos serviços e na asfixia prolongada de um povo inteiro. Quando se ameaça a sobrevivência material de uma população em nome de sua própria libertação, o que se revela é que essa “liberdade” nunca teve como centro a vida concreta das pessoas que habitam o território, mas a imposição de uma ordem de poder sobre ele. O que os últimos meses mostram, com nitidez renovada, é que o bloqueio não é pano de fundo distante da crise cubana, mas uma de suas determinações centrais: uma política histórica de asfixia que, há mais de seis décadas, estrangula as condições materiais de existência de um país inteiro.

Beatriz Gomes Cornachin* é Professora de Geografia e Doutoranda em Economia Política Mundial pela Universidade Federal do ABC (UFABC). Beatriz viveu dez meses em Cuba, especificamente na província de Guantánamo, entre 2023 e 2024 pesquisando a questão agrária e alimentar da província.