Ativismo afetivo: o modo como nos relacionamos na tentativa de transformar o mundo
Se o ativismo tradicional se organiza principalmente em torno de causas, o ativismo afetivo começa pelas relações que tornam essas causas sustentáveis.
Por Elaine da Cunha Favero*
Em diferentes momentos da história, o ativismo assumiu muitas formas — denúncia, mobilização, organização coletiva, pressão institucional e intervenções artístico-políticas de forte impacto midiático. Em todas elas, no entanto, há algo que costuma permanecer menos visível: a trama de relações que se constrói entre pessoas engajadas na tentativa de transformar o mundo.
É nesse ponto que surge a ideia de ativismo afetivo.
Ativismo afetivo é a prática de transformação social baseada na qualidade das relações que sustentam a ação coletiva. Parte do reconhecimento de que o afeto, em seu sentido relacional, diz respeito àquilo que nos afeta e nos vincula, tornando possível sustentar ações coletivas ao longo do tempo. Não se trata, portanto, de um ativismo guiado apenas por emoções ou sentimentos individuais, mas de compreender que toda prática política também se constrói nas formas de vínculo, cuidado e compromisso entre as pessoas que a realizam.
Vivemos um tempo em que as lutas políticas, paradoxalmente, convivem com uma profunda fragmentação. Multiplicam-se causas, pautas e identidades, enquanto crescem o cansaço, a sensação de impotência e a dificuldade de sustentar ações coletivas no longo prazo.
Intensificam-se vozes, agendas e narrativas. A presença das redes digitais ampliou o alcance do ativismo e democratizou espaços de expressão. Mas esse mesmo movimento também produziu um efeito colateral inesperado: a dispersão das energias coletivas em múltiplas iniciativas individuais.
Esse fenômeno ajuda a explicar o que o cientista político Bruce Bimber chamou de “pluralismo acelerado”: a internet facilita o surgimento de inúmeras causas e grupos, ampliando a participação política, mas também fragmentando a ação coletiva.
Há um culto difuso à liberdade, à autonomia, à independência e ao autocuidado — valores fundamentais, sem dúvida —, mas que muitas vezes aparecem dissociados da ideia de compromisso entre pessoas, de corresponsabilidade, colaboração e construção conjunta.
Nesse cenário, emerge uma pergunta incômoda e necessária: e se o ativismo fosse menos sobre a causa em si e mais sobre o modo como fazemos juntos? Talvez disso dependam, em grande medida, os resultados que buscamos para as próprias causas que nos reuniram em primeiro lugar.
A crise do propósito isolado
Grande parte das iniciativas ativistas ainda se organiza em torno de um propósito declarado: uma causa justa, um problema urgente, uma mudança desejada. No entanto, observa-se uma crise quando o propósito é tratado como algo abstrato, separado das relações concretas que o sustentam. Não raro, movimentos unidos por uma causa acabam se desagregando não pela falta de propósito, mas pela fragilidade das relações que deveriam sustentá-lo.
O “para quê” não se sustenta sem o “com quem” e o “como”.
Em alguns contextos, o ativismo também passa a disputar visibilidade. A forma como indivíduos ou organizações aparecem publicamente pode ganhar mais destaque do que os próprios processos de transformação que se pretendem construir. Não se trata necessariamente de uma falha individual, mas de uma dinâmica cultural de um tempo marcado pela exposição constante — reforçada por algoritmos de plataformas digitais que tendem a privilegiar rostos, histórias pessoais e imagens de indivíduos. Nesse ambiente, a visibilidade torna-se um recurso disputado, e o risco é que a causa acabe se convertendo em mídia.
Algo semelhante ocorre com a crescente centralidade da ideia de propósito. Nos últimos anos, organizações e movimentos passaram a repetir a palavra como se ela, por si só, fosse capaz de orientar a ação e produzir transformação. Mas propósito, sozinho, não leva muito longe.
Estudos sobre novas formas de organização coletiva sugerem que não basta saber por que agir; é preciso também repensar como nos organizamos para agir juntos. Quando propósito, distribuição de responsabilidades e participação mais integral caminham lado a lado, o foco deixa de ser apenas desempenho, visibilidade ou militância extenuante e passa a se deslocar para algo mais decisivo: a qualidade das relações que sustentam a ação coletiva.
Ativismo como prática relacional
O ativismo afetivo parte do reconhecimento de que a transformação social não é apenas embate, denúncia ou reivindicação, mas também — e talvez principalmente — uma prática contínua de relação e de construção de um novo modelo de sociedade, acompanhada de uma análise afiada sobre nós mesmos.
Olhar para os movimentos coletivos e para a dimensão relacional do ativismo exige, inevitavelmente, atravessar um território mais sensível: nossos padrões de comportamento, hábitos, formas de reagir aos conflitos e pontos de aprendizado são parte intrínseca do tecido invisível que sustenta qualquer ação coletiva.
Um coletivo saudável se constrói a partir de indivíduos dispostos a cultivar algum grau de consciência sobre si mesmos, a se reconectar com aquilo que há de mais íntegro em sua forma de estar no mundo e, ao mesmo tempo, a se abrir para aprender com o outro. É na relação — e não no isolamento — que amadurecem nossas formas de agir, escutar, conviver com diferenças e cuidar do que é comum.
Em um cenário em que muitas iniciativas atuam de forma fragmentada, esse movimento encontra espaço justamente no campo das relações: nas redes de apoio, nos espaços de escuta, na presença e no cuidado cotidiano. É aí que o afeto se manifesta em seu sentido mais concreto — no gesto de atenção, na disposição para acolher e na responsabilidade compartilhada pelos vínculos que sustentam o fazer coletivo.
Fortalecer o coletivo, nesse sentido, não significa apenas somar esforços dispersos, mas qualificar as relações que tornam possível agir juntos. É dessa trama de vínculos que pode emergir a capacidade de articular iniciativas, sustentar processos ao longo do tempo e transformar intenções isoladas em ação coletiva.
Nesse contexto, algumas perguntas se tornam centrais:
Como nos escutamos de verdade?
Como lidamos com divergências?
Como tomamos decisões juntos?
Como cuidamos da energia do coletivo ao longo do tempo?
Assim, o ativismo deixa de ser apenas um espaço de denúncia ou reação a uma injustiça externa e passa a incluir também a experimentação de soluções e de outras formas de estar junto. Mais do que apontar problemas, torna-se um convite a construir caminhos possíveis em colaboração — um verdadeiro laboratório vivo de futuro.
Talvez a mudança necessária seja imaginar o ativismo menos como um palco — onde indivíduos disputam voz e protagonismo — e mais como um ecossistema, no qual diferentes pessoas e iniciativas se interdependem para que algo maior floresça.
Pedagogia das relações
A experiência da Gestão por Mandalas, desenvolvida no contexto do Centro de Estudos Budistas Bodisatva (CEBB), oferece uma inspiração concreta para esse tipo de ativismo. Mais do que um modelo de gestão, trata-se de uma pedagogia das relações.
A mandala é como um “GT”: um grupo de trabalho reunido em prol de um sonho coletivo, que se organiza como um organismo vivo, interdependente. Ela parte de premissas culturais que criam parâmetros de governança para as ações e relações, a partir das quais:
- Pessoas não são recursos: são centros de sentido, conhecimento e intenções.
- Liderança é um ato de serviço: sua função é facilitar a circulação de energia no grupo e abrir caminhos para a ação coletiva, e não exercer controle ou gerenciamento de pessoas.
- Decisões são experimentos conscientes: não verdades finais, mas aprendizados em movimento, abertos à revisão e ao ajuste, observando as necessidades emergentes.
- Cuidar das relações é tão importante quanto realizar tarefas, pois é a qualidade dos vínculos que sustenta o trabalho coletivo ao longo do tempo.
Esse modo de organização desloca o foco do resultado imediato para a qualidade do processo, sem perder a capacidade de ação. “Energia segue movimento”: quando as pessoas encontram espaço para participar, contribuir e se sentir parte do processo, o engajamento circula com mais naturalidade.
Assim, esse tipo de gestão tende a reduzir a estafa, prevenir sobrecargas e fortalecer a continuidade das iniciativas, ampliando tanto a sustentabilidade quanto o envolvimento das pessoas no trabalho coletivo. Como diria o Lama Padma Santem, fundador do CEBB: “Se está sobrecarregado, está errado”.
Menos fragmentação, mais convergência
Um dos grandes desafios do nosso tempo é a fragmentação dos movimentos sociais: causas que competem entre si, disputas internas e dificuldade de cooperação.
O ativismo afetivo propõe um outro gesto: unir forças a partir do que emerge no encontro, e não apenas de identidades fixas ou agendas pré-definidas.
Isso exige uma escuta refinada da realidade presente — das urgências emergentes — e uma disposição para flexibilizar e ajustar rumos coletivamente. Exige também abrir mão da ideia de que alguém detém a resposta correta, substituindo-a por processos de inteligência compartilhada.
Do “lutar por” ao “cuidar com”
Talvez o deslocamento mais profundo proposto pelo ativismo afetivo seja este: sair de uma lógica de luta permanente e entrar em uma lógica de cuidado ativo. Cuidar do mundo passa, inevitavelmente, por cuidar das formas como nos relacionamos enquanto tentamos transformá-lo.
O ativismo, então, deixa de ser apenas resistência e passa a ser presença, vínculo e corresponsabilidade. Um exercício contínuo de alinhar propósito, pessoas e processos — não para chegar a um ideal distante, mas para sustentar, aqui e agora, modos mais íntegros, cooperativos e vivos de fazer junto.
Elaine Favero* é designer de aprendizagem e experiências e fundadora da consultoria Atma Pessoas. Desenvolve metodologias de mapeamento emocional como forma de ativismo, explorando como emoções coletivas podem orientar processos de transformação social, mobilização coletiva e a imaginação de novos futuros políticos.