A segurança dos trabalhadores de aplicativo não está à mesa
No Rio, entregadores sem direitos viram alvos de violência; mortes expõem abandono do Estado e das plataformas digitais.
Quando se fala no desemprego das juventudes, o Rio de Janeiro apresenta alguns dos piores índices. Milhares de jovens, mulheres e homens são empurrados para a informalidade: sem direitos, sem respeito e sem trégua. No centro desse mercado estão as/os trabalhadoras/es de aplicativos, que enfrentam, além da falta de amparo das leis trabalhistas, agressões, racismo, discriminações e, agora, assassinatos em série. Mais uma vez, o Rio de Janeiro toma a dianteira nesse ranking do horror.
A situação das/dos trabalhadores por aplicativo no Brasil é gravíssima e se torna ainda mais drástica quando olhamos para o Rio de Janeiro, onde ocorreram quatro assassinatos apenas no primeiro mês de 2026. Dados não mentem: além das matérias veiculadas na imprensa sobre as diversas formas de violência que esses profissionais enfrentam, um dos maiores exploradores dessa mão de obra, o iFood, divulgou que, em 2024, sua Central de Apoio Psicológico e Jurídico registrou 13.576 casos de violência, sendo 30% deles no Rio.
As violências registradas se referiam a 26% de agressões físicas, 23% de ameaças e 22% de discriminação. Esses dados consideraram mais de 250 mil pessoas, em todo o Brasil, que estavam a serviço da empresa à época.
Desse total de 13.576 casos, mais de 4 mil aconteceram no Rio de Janeiro, e boa parte deles ocorreu porque o trabalhador se recusou — o que é seu direito — a subir para entregar na porta do apartamento ou da casa. Nós, que acompanhamos essa realidade, sabemos que, nos últimos dois anos, as violências só aumentaram, evoluindo das ameaças para agressões físicas, tiros e assassinatos. Há uma ou duas semanas, vimos o caso do policial que se negou a sair de casa para receber o lanche, mas desceu com arma em punho e atirou no trabalhador.
Não sabemos — e não vemos — o que o Estado faz para fiscalizar as empresas que atuam nesse ramo, para verificar se cumprem suas obrigações legais em relação aos trabalhadores. A julgar por outras áreas, sabemos que não há fiscalização eficaz; é isso que esse tsunami de violência contra esses profissionais demonstra.
Diante dessa inércia total, como reagir? Como proteger esses profissionais, que já não têm o amparo da CLT, enfrentam longas jornadas, condições climáticas adversas, fome e desamparo e, agora, perdem a própria vida? Essa é uma discussão que deveria atravessar toda a sociedade. Contudo, a segurança desses trabalhadores está longe da mesa dessa sociedade, cuja casta privilegiada se nega a debater a escala 6×1 e cuja base da pirâmide, desestruturada, ainda não entendeu que os operários dos aplicativos somos todos nós. São nossos filhos e filhas, nossos companheiros e companheiras. Somos nós.