A Perna Cabeluda e a imprensa alternativa como agente secreto
Na ditadura brasileira, a imprensa alternativa utilizou do humor e metáforas para driblar a censura
Por Caroline Pinheiro

Entre os muitos fantasmas que atravessaram o Brasil durante a ditadura militar (1964-1985), a própria imprensa também foi um dos instrumentos que sofreu grande repressão do período. O regime autoritário, que durou 21 anos e teve início com um golpe em 31 de março de 1964 que derrubou o então presidente João Goulart, marcou um trágico momento na história do país, caracterizado pela supressão de direitos civis, censura, perseguição política, uso de Atos Institucionais (especialmente o AI-5) e tortura contra opositores, resultando em centenas de mortes e desaparecimentos. Nessa época, a circulação de informações se tornou um campo permanente de disputa no qual jornalistas, artistas e intelectuais precisavam encontrar formas criativas de narrar acontecimentos que muitas vezes não podiam ser mencionados abertamente.
Devido às condições de censura e vigilância, esse cenário modificou a atuação da imprensa e os jornais deixaram de funcionar como informantes diretos da realidade e passaram a operar através de mediações, silêncios e estratégias narrativas. Muitas vezes, o que chegava às páginas impressas não era exatamente o que acontecia nas ruas, mas uma versão mascarada de acontecimentos que eram narrados sem confrontar diretamente as imposições do regime.
Não é por acaso que a imprensa se tornou um recurso recorrente em produções audiovisuais que buscam representar o cotidiano de uma sociedade, mesmo que ficcional, ou relembrar um período da história real de um determinado local. As manchetes, reportagens, telejornal e programas de rádio surgem como instrumento capaz de situar o público no que está sendo contado e apresentando desdobramentos da trama com o objetivo de passar a credibilidade e realismo que a imprensa traz ao mundo real. Esse uso vem da ideia de que o jornalismo atua como um formador de cultura nas sociedades, moldando opiniões e comportamentos sociais, o que ajuda a trabalhar o contexto em que se passa a história do filme ou série.
Essa relação entre a imprensa, memória e construção da realidade está presente no longa “O Agente Secreto” (2025), de Kleber Mendonça Filho, indicado ao Oscar 2026. Ambientado no Recife dos anos 70, o filme acompanha a trajetória de um homem comum, professor universitário e pai de família, cuja vida passa a ser atravessada por episódios de violência, vigilância e suspeita em plena ditadura militar. Ao invés de seguir uma narrativa linear “padrão”, o filme se constrói de forma fragmentada, combinando depoimentos, registros sonoros, imagens de época e materiais de arquivo como a montagem de um quebra-cabeça de restos de informações devido a uma investigação tardia do passado.

Nesse processo, a imprensa surge como mediadora dos acontecimentos através dos arquivos de manchetes, notas policiais, páginas vistas em microfilme e registros radiofônicos como documentos que tentam dar forma à memória de um período marcado pelo silêncio.
Segundo o jornalista e doutor em Ciência Política (IESP-UERJ), Cristiano Aguiar Lopes, na matéria “Manchetes, silêncios e versões: a imprensa como personagem em O Agente Secreto”, esses registros não aparecem como provas claras dos acontecimentos e sim um descompasso entre o que era vivido nas ruas e o que era publicado nos jornais.
“É justamente a partir desse uso da imprensa como mediação instável do acontecimento que O Agente Secreto sugere uma leitura mais profunda: a de que, no contexto da ditadura, o jornalismo atuou também como um agente secreto – ou, mais precisamente, como um agente duplo. Se, por um lado, foi capaz de contornar a censura e fazer circular, por vias indiretas, informações que o regime desejava silenciar, por outro colaborou com o próprio sistema autoritário ao reproduzir versões oficiais, fabricar consensos e transformar a exceção em normalidade cotidiana”, afirma Cristiano.
Essa ambiguidade ajuda a entender o surgimento das estratégias utilizadas pela chamada imprensa alternativa naquele período. Enquanto parte dos grandes veículos, seja por adesão ao regime ou por também enfrentarem censura, tinham mais dificuldades em noticiar a realidade, a alternativa teve um papel essencial na circulação de informações e narrativas que muitas vezes não apareciam nos tradicionais usando metáforas e estratégias criativas para contornar a censura de forma inteligente.
Para o Dr. Vitor Menezes, jornalista, professor no Curso de Jornalismo do Centro Universitário Fluminense (Uniflu), doutor em Cognição e Linguagem pela UENF (Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro), a imprensa alternativa foi muito mais audaciosa, inclusive à custa de prisões e mortes.
“Mesmo quando não conseguiam grande alcance popular, ocupavam um lugar de conscientização de camadas médias e mais militantes da sociedade, ajudando a formar uma liga de pertencimento político essencial para a luta contra a ditadura.”
Segundo ele, esses veículos funcionavam quase como um verdadeiro “agente secreto” da informação, utilizando criatividade, humor e ironia para contornar os limites impostos pela censura. Em publicações como o satírico tablóide O Pasquim, por exemplo, críticas ao regime apareciam disfarçadas em piadas sobre marcianos ou temas absurdos para criticar a situação política, sem citar generais diretamente. Quando a equipe da redação foi presa em 1970, o jornal descreveu o fato como um “surto de gripe” que assolou a redação, ironizando a repressão.
Outro episódio famoso envolve o cartunista Jaguar, que substituiu a tradicional frase atribuída a Dom Pedro I no quadro da Independência por “Eu quero mocotó!”, ironizando o discurso oficial da história nacional. Outras estratégias incluíam o uso de pseudônimos para escapar da vigilância dos censores como, por exemplo, o compositor Chico Buarque que assinou diversas músicas com o nome fictício Julinho da Adelaide para driblar as restrições impostas às suas obras.

Menezes explica que isso também aparecia ocasionalmente em alguns veículos da imprensa tradicional, como na famosa previsão do tempo do “Jornal do Brasil”, mas na imprensa alternativa, assim como também em muitos produtos artísticos, a coisa ganhava um tom de humor, ironia e criatividade ainda mais acentuado.

Além dos jornais mais conhecidos da ditadura e dos censores como Opinião, Movimento e O Sol, existiam também os clandestinos, ainda mais secretos, feitos pela militância jornalística ligados a movimentos sindicais, operários e dos movimentos comunistas e socialistas. Eles circulavam discretamente entre militantes e trabalhadores, funcionando como instrumentos de mobilização política e resistência cultural.
Devido ao ambiente hostil que o país se encontrava, as histórias absurdas começaram a surgir nas páginas dos jornais e em O Agente Secreto, é abordado o início da circulação da emblemática história da Perna Cabeluda, que aconteceu na vida real. A primeira menção documentada ao episódio ocorreu em dezembro de 1975, quando o Diário de Pernambuco publicou notas policiais relatando ataques atribuídos a uma misteriosa “Perna Fantasma”, que descreviam uma perna sem corpo que surgia inesperadamente para derrubar e espancar suas vítimas nas ruas da cidade.

A narrativa rapidamente se espalhou entre as páginas dos jornais e o boca a boca da população. O que poderia parecer apenas uma lenda urbana também pode ser interpretado como um reflexo do ambiente político e social daquele período. Segundo Menezes, em um contexto onde a violência policial e os espancamentos arbitrários dificilmente podiam ser denunciados abertamente, histórias como a da Perna Cabeluda funcionavam como metáforas indiretas de uma realidade marcada pelo medo. Ao atribuir ataques e agressões a uma entidade misteriosa, o noticiário conseguia colocar em circulação relatos de violência sem responsabilizar explicitamente agentes do Estado.
“O clima de medo sempre foi uma espécie de aliado do jornalismo, vide as coberturas exageradas de violência urbana na imprensa tradicional, porque ele permite que a população identifique no veículo que a informa uma espécie de ‘protetor’.” afirma o jornalista. “No caso da imprensa alternativa na ditadura, no entanto, a missão era um pouco diferente. Era preciso mostrar a razão de um medo (a violência cotidiana do próprio regime) que, para grande parte da população, estava em outro lugar, como no fantasma do comunismo, por exemplo, em manobra até hoje utilizada pelas forças políticas conservadoras.”
Com o tempo, a narrativa se expandiu para além das páginas policiais e em 1976, a famosa Perna apareceu como personagem de um romance policial publicado nas páginas do próprio Diário de Pernambuco pelo escritor Raimundo Carrero. Assim, aquilo que havia surgido como relato fragmentado de ocorrências urbanas passava a ser reorganizado como narrativa literária seriada, deslocando ainda mais a experiência do medo para o terreno da ficção.

No filme, esses mitos folclóricos aparecem como parte da história, principalmente no momento em que a perna surge pulando pelas ruas e chutando pessoas, principalmente casais gays, em uma cena que mistura humor, estranhamento e crítica social. Ao incorporar esse episódio na narrativa, é possível relembrar que a imprensa alternativa, durante a ditadura, não cumpriu apenas o papel de lutar pela democracia, mas também trouxe expressões de muitas outras formas de opressão, como as denunciadas pelas lutas das mulheres, como nos jornais “Nós Mulheres”, “Mulherio”, “Maria Quitéria”, ou na causa gay, como o “Lampião da Esquina”, que era editado pelo Aguinaldo Silva, ou da imprensa sindical e socialista, como “O trabalho”.
De acordo com Vitor Menezes, trazer essa história ao filme remete tanto à mobilização de uma iconografia popular preexistente, para tornar a comunicação mais eficaz, como faz sentido com o humor típico da maioria destas publicações. “O humor é uma arma letal, e estes veículos eram armas em um ambiente de luta muito desigual”.
Ao recuperar esse imaginário em O Agente Secreto, Kleber Mendonça Filho não apenas revisita uma curiosidade do folclore recifense, mas também evidencia como, em tempos de silenciamento forçado, a criatividade jornalística e cultural encontrou maneiras inesperadas de continuar narrando a realidade.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.