A necessidade do olhar: por que as grandes premiações ainda importam
Precisamos nos importar tanto com o Oscar? A busca pelo olhar do outro e o estabelecimento de uma identidade cultural
Por Izaque Rodrigues

Na última década, um movimento tem chamado atenção no Oscar: vem crescendo o reconhecimento de obras fora dos Estados Unidos da América indicadas às principais categorias da premiação estadunidense. No entanto, não esqueçamos: ainda é um evento predominantemente sobre e para o cinema dos EUA. Raras eram as obras que conseguiam romper esse paradigma e, assim como antes, os países dessas obras que hoje conseguem uma indicação recebem a notícia com muito entusiasmo e orgulho. Como não lembrar da alegria recente da Letônia com o Oscar de Melhor Animação por Flow (2025), das festas e fantasias em pleno carnaval com a indicação de Fernanda Torres a Melhor Atriz por Ainda Estou Aqui (2025), ou do discurso poderoso sobre as barreiras da legenda — que o público de cinema nos EUA evita a qualquer custo — do grande cineasta sul-coreano Bong Joon-ho, que levou para casa o Oscar de Melhor Filme por Parasita (2019), a única produção a conquistar a principal categoria da premiação realizada em outro idioma que não o inglês?
Isso nos leva a pensar: por que então nos importamos tanto com o Oscar, já que parece uma premiação montada para a indústria cultural estadunidense? O estabelecimento de uma identidade cultural passa muito pelo cinema, e os países que se deram conta disso trataram logo de estabelecer formas de proteger, exibir e expandir seu cinema. Nicolas Piccato, adido da França no Brasil, responsável por promover a cooperação cultural entre os países, afirmou no “V Encontro de Ideias Audiovisuais”, realizado durante a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que Cannes, por exemplo, nasceu como um festival para difundir o cinema não americano, fortalecendo principalmente o cinema francês e levando lançamentos nacionais para cidades do interior da França de forma itinerante. Na época de um grande crescimento econômico, cultural e político do Brasil, também passamos pelo estabelecimento e difusão de um cinema que privilegiava nossas narrativas: o chamado Cinema Novo, que alcançou seu auge na década de 1960 e era bastante influenciado pelo neorrealismo italiano e pela Nouvelle Vague francesa. O movimento confrontava as diferenças sociais de forma realista e bastante autêntica e foi um dos responsáveis por difundir nossa cultura, principalmente na Europa. Assim, tanto o Festival de Cannes quanto o Cinema Novo são exemplos de como cinema e identidade cultural estão intrinsecamente conectados.

O ainda fraco, mas crescente reconhecimento do cinema não americano no Oscar e sua repercussão nesses países podem ser analisados, então, a partir da perspectiva do olhar para o estabelecimento de uma identidade. Aqui, a ideia é que, para além do prestígio e da visibilidade que invariavelmente os ganhadores do Oscar conquistam, conseguir o olhar desse outro que se julga completo também ajuda na possibilidade de pertencimento ao hall dos países que sabem fazer cinema e na constituição subjetiva de um cinema independente — e isso, para países que ainda tentam estabelecer uma indústria cultural, é muito importante.
Quando premiações como o Oscar e o Grammy se estabeleceram entre as maiores de suas respectivas áreas, isso causou uma inscrição simbólica no social, de tal modo que os ganhadores são tidos como os melhores. Se novos países ou pessoas querem buscar a validação de também serem os melhores, acabam então por buscar formas de serem reconhecidos por esse outro. Para Jacques Lacan, psicanalista francês, o olhar do outro é fundamental para o estabelecimento de uma identidade. Assim, um país que quer ter seu cinema e sua identidade cultural reconhecidos mundialmente como de qualidade acaba tendo que buscar o olhar dessas premiações, mesmo que muitas vezes essa indicação pareça ser mera formalidade para atrair novos públicos ou engajamento.
A busca por validação é, em suma, a busca de confirmação da imagem e da identidade nos outros. Se essa validação não existe, pode-se experienciar sentimentos de depreciação e invalidade. Um exemplo disso é o senso bastante comum que afirma que o cinema brasileiro não tem qualidade. Será que, se tivéssemos ganhado os 12 Oscars que a França já ganhou, o brasileiro comum teria a mesma opinião? De acordo com José Teixeira, psicanalista brasileiro, quando o reconhecimento não é validado de maneira adequada, podem surgir muitos sentimentos autopunitivos e de autorrejeição, em que se cobra constantemente por não atender aos padrões estabelecidos socialmente.
Em uma perspectiva psicanalítica, parece então, em um primeiro momento, que a importância dada às grandes premiações vai além do prestígio e da repercussão midiática que alavanca números e faturamentos. Ela também passa pela necessidade do olhar, pois reconhecimento, identidade e pertencimento estão intrinsecamente conectados.
Agora, se nos incomodamos tanto com a predominância de filmes estadunidenses sendo premiados no Oscar — e agora que já sabemos que esse outro também não é completo e é falho, já que a crescente abertura das suas categorias principais para outros países tem se mostrado bastante lenta para o estabelecimento de novas indústrias culturais de massa como a dos EUA —, como podemos fortalecer o cinema do Sul Global? E quais são os outros olhares possíveis que podemos atrair para o nosso cinema? Uma resposta possível para isso está na notícia da recente criação da Film Commission Nacional.

Proposta apresentada de forma conjunta pelo Ministério da Cultura e pela Secretaria do Audiovisual, no dia 05 de março de 2026, durante o Fórum Noronha 2B, a iniciativa propõe a promoção da diversidade e a territorialização das políticas do setor, criando vínculos, identidade e significado social. A ideia é fortalecer festivais e a internacionalização do cinema brasileiro, com parcerias de diversos eventos, como, por exemplo, o Festival de Cinema do BRICS.
Talvez a saída para deixarmos de nos importar tanto com o Oscar passe pelo fortalecimento do nosso cinema dentro do nosso próprio território, como, por exemplo, fez a França. Assim, a necessidade do olhar do outro passa a ser a necessidade do nosso próprio olhar. Um pouco de narcisismo é sempre bem-vindo.
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Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.