A geopolítica do racismo: o caso Vinícius Júnior
Racismo contra Vinícius expõe hierarquia simbólica: não é só crime, é geopolítica e imagem do Brasil no mundo.
Por Luiz Ugeda
Vinícius Júnior marcou, comemorou e, mais uma vez, foi chamado de “mono”. O jogo foi interrompido, o protocolo antirracista foi ativado, vieram notas oficiais, investigações e manifestações de solidariedade. O episódio foi tratado como mais um caso de racismo no futebol europeu — e é, de fato, um crime que deve ser enfrentado com rigor. Mas limitar o debate ao enquadramento penal produz um conforto analítico que empobrece a compreensão do que está em jogo.
O insulto não é apenas uma palavra. É um lugar.
Quando um jogador argentino, atuando em um clube português, numa competição europeia, chama de macaco um brasileiro que joga no maior clube espanhol, não estamos diante de um ruído isolado. Estamos diante de uma cena que revela uma hierarquia simbólica. Discute-se a ofensa, mas raramente se examina o desenho que a sustenta: quem fala, de onde fala, para quem fala, como fala — e qual posição é implicitamente atribuída ao destinatário.
O “mono” funciona como marcador de fronteira. Ele comunica que o brasileiro é tolerado enquanto entretém, celebrado enquanto encanta, mas deslocado quando vence e ocupa o centro. O insulto não descreve apenas uma suposta inferiorização racial; ele reforça uma narrativa de periferia. O brasileiro, nesse imaginário, pode ser espetáculo, mas não protagonista estrutural.
É por isso que o episódio ultrapassa a dimensão individual. Lá fora, a identidade nacional antecede as diferenças internas. O preto brasileiro é brasileiro. O branco brasileiro é brasileiro. O descendente de japonês, de italiano, de português ou de alemão é brasileiro. Antes do nome próprio, vem o passaporte. A fragmentação é doméstica; a classificação externa é coletiva.
Não se trata de negar o racismo — ao contrário, trata-se de ampliá-lo para além de sua dimensão imediata. Racismo é violência concreta, estruturante e criminosa. Mas também opera como linguagem geopolítica. Ele sinaliza posição no sistema internacional. E posição não é construída apenas por indicadores econômicos ou militares. É construída por símbolos, narrativas e capacidade de projetar identidade.
O Brasil possui ativos culturais singulares. Uma sociedade de síntese, formada por cruzamentos históricos, capaz de absorver influências e devolvê-las transformadas. Essa vocação antropofágica — no sentido da apropriação criativa — sempre foi uma força civilizatória. No entanto, raramente convertemos essa potência simbólica em estratégia. Reagimos episódio a episódio, como se cada caso fosse exceção, e não padrão.
Essa postura produz um efeito cumulativo. A cada manifestação tratada como “caso isolado”, reforça-se a percepção de que o país aceita a posição que lhe é atribuída. Manifestações oficiais são necessárias, mas insuficientes. Política externa também se faz no campo cultural, na disputa de narrativas e na definição de como uma nação é vista — e de como se vê.
Há ainda o espelho interno. Parte dos próprios brasileiros tende a minimizar ou relativizar esses episódios, como se a crítica fosse exagero. Esse movimento revela uma tentativa de distinção: a ilusão de que, ao se afastar do alvo imediato, escapa-se da categoria coletiva. Mas, no exterior, essa distinção raramente existe. A identidade nacional precede as nuances individuais.
O desafio, portanto, não é transformar cada ofensa em confronto diplomático, nem alimentar uma retórica de vitimização permanente. O desafio é reconhecer que símbolos estruturam poder. Países que compreendem isso constroem respostas consistentes ao longo do tempo. Países que não compreendem continuam reagindo taticamente, sem estratégia.
O caso de Vinícius Júnior é crime e deve ser tratado como tal. Mas é também sintoma de como o Brasil ainda é percebido quando atravessa fronteiras. O insulto não mira apenas um atleta. Ele mira uma representação.
A escolha estratégica é simples e incômoda: ou reconhecemos que esses episódios dizem respeito a todos nós — independentemente de raça, origem ou posição social — ou continuaremos fragmentando a resposta e enfraquecendo a própria projeção internacional.
No exterior, antes do nome próprio, vem o passaporte. Somos todos brasileiros. Ou assumimos coletivamente o significado que nos atribuem e o transformamos — ou permitiremos que ele continue a nos definir.