Foto: Divulgação / Remembers – MountainA

Por Samuel Fernandes

Dominantes na categoria de Melhor Animação, estúdios renomados como Disney, Pixar e DreamWorks já não conseguem colocar as mãos na estatueta há três edições. Na última, o Oscar fez história ao premiar ‘Flow’, da estreante Dream Well Studio. Antes disso, os vencedores foram ‘O Menino e a Garça’ (Studio Ghibli) e ‘Pinóquio por Guillermo del Toro’ (Netflix), em 2024 e 2023, respectivamente. Já para a edição de 2026, o favoritismo aponta para ‘Guerreiras do K-Pop’, da Sony Pictures.

Quais podem ser as causas para essa mudança de ares na categoria?

Foto: Reprodução / Dream Well Studio

O feito histórico de Flow

Com uma equipe composta por 15 a 20 pessoas, segundo o Estadão, a animação ‘Flow’ (2024) fez história na edição passada ao ser responsável pelo primeiro Oscar da Letônia (e também a primeira indicação do país).

Sem diálogos e feito inteiramente no Blender – um programa de animação 100% gratuito – o filme conta a história de um simpático gatinho em um mundo onde a humanidade parece não existir mais e uma grande inundação começa a tomar o planeta.

A produção foi muito bem recebida por sua sensibilidade e elegância narrativa, dando um recado claro para os grandes estúdios: há uma parcela do público que se cansou de ver as mesmas fórmulas repetidas; originalidade visual e ousadia narrativa se tornaram ainda mais importantes.

Oportunidade para estúdios estreantes

Fazer animação sempre foi custoso, tanto no quesito financeiro quanto de trabalho humano, desde a animação clássica, onde quadros eram desenhados à mão, até o surgimento da animação 3D, que exigia computadores de altíssimo desempenho em seu início. Porém, hoje o cenário é diferente e, felizmente, existem ferramentas como o Blender à disposição para quem tem uma boa ideia na mente.

Outro aspecto positivo para esse cenário foi o surgimento dos streamings, que passaram a adotar produções de muitos estúdios menores, que em outros tempos não teriam onde mostrar suas histórias. Assim, podendo encantar o público com suas diferentes narrativas e técnicas, aumentando as chances de serem reconhecidos em premiações mundiais.

Foto: Reprodução / Filme de Papel

Já teve Brasil na categoria?

Os holofotes dos dois últimos anos ficaram com os fascinantes ‘O Agente Secreto’ (2025) e ‘Ainda Estou Aqui’ (2024), mas o cinema brasileiro já teve a esperança de voltar para casa com a estatueta algumas outras vezes, uma delas foi quando ‘O Menino e o Mundo’ (2013) recebeu a inédita indicação para Melhor Animação.

Enfrentando superproduções, o filme foi um trabalho realmente artesanal, todo desenhado utilizando materiais escolares, como lápis de cor, giz de cera e canetas hidrográficas, para trazer a estética infantil do protagonista Cuca. E, assim como ‘Flow’, a animação brasileira conta sua história sem diálogos.

Mas apesar de nunca mais ter sido indicado na categoria, a indústria da animação brasileira continua recheada de incríveis produções e profissionais apaixonados pelo que fazem, algo que fica claro quando se olha para produções como a série ‘Irmão do Jorel’ (2014–presente) e o filme ‘Tito e os Pássaros’ (2019), que foi muito bem elogiado por sua estética e chegou a entrar na pré-lista do Oscar 2020.

Não sabemos ainda quando teremos novamente um representante na categoria, nos resta torcer para que, com os sucessos do Brasil nas duas últimas edições, os votantes da Academia também passem a olhar com carinho para nossa indústria de animações.

Foto: Reprodução / Walt Disney Animation Studios

Está ameaçado o reinado Disney/Pixar?

Entre 2005 e 2025, os estúdios Disney e Pixar juntos perderam apenas seis vezes a categoria de Melhor Animação, registrando a marca de 14 vitórias no Oscar neste período, sendo dez vezes a Pixar e quatro a Disney. Isso criou na indústria uma sensação amarga e até uma percepção de que a categoria tinha se tornado uma “festa da firma”, onde os vencedores eram sempre rostos conhecidos.

O domínio de ambos os estúdios não foi apenas financeiro, mas também técnico, já que o padrão de animação 3D, fortemente influenciado pela Pixar, tornou-se a norma e até, indiretamente, a preferência da Academia. No entanto, esse cenário viu uma esperança de mudança com a vitória de ‘O Menino e a Garça’ em 2024, que resgatou o prestígio dos traços em 2D, abrindo caminho para que duas das produções indicadas neste ano, ‘Arco’ e também ‘A Pequena Amélie’, cheguem à disputa como protagonistas de uma revolução estética no gênero.

Respondendo à pergunta: não, não acabou o reinado. Mas aquela certeza de quem seria o vencedor, já não está mais tão na cara quanto antes. Se antes os grandes estúdios ditavam as regras, hoje eles precisam se adaptar a uma indústria que está falando outras línguas além do inglês americano.

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.