A busca por um design universal: o que mudou e o que continuou nos filmes ‘Zootopia’
Após nove anos, ‘Zootopia 2’ retorna com menos força alegórica, porém ainda levantando pautas de inclusão.
Por Gabriela Callado

Após nove anos de espera, ‘Zootopia’ finalmente voltou às telas de cinema com sua continuação. O primeiro filme conquistou a estatueta de Melhor Animação em 2017 e segue sendo lembrado por sua abordagem pedagógica sobre convivência, design universal — o design de espaços e produtos que não necessitam de adaptações para serem usados por todos — e a busca por uma sociedade menos discriminatória. Foi por meio de uma animação, voltada ao público infantil, mas acessível a diferentes públicos e, portanto, facilmente assimilável, que essa narrativa, conectada a tensões reais, transformou o preconceito em alegoria animal. Um dos exemplos pedagógicos vem de uma cena emblemática do primeiro filme: há portas de diferentes tamanhos no trem, adaptadas para cada animal. Isso sugere, intencionalmente ou não, uma lógica de design universal , ainda distante das políticas reais de acessibilidade urbana ,, propondo, assim, um espaço funcional para corpos distintos que vai além da construção dos personagens.

Judy Hopps é uma coelha do interior que consegue um emprego na cidade como policial e encontra seu parceiro, Nick Wilde, nas ruas, que atuava como um ladrão malandro. Depois de se tornarem uma dupla, os dois atuam como policiais desvendando mistérios e burlando regras. O universo desses parceiros gira em torno da busca por uma sociedade mais inclusiva, na qual diferentes espécies tenham as mesmas oportunidades. Isso fica claro na trajetória profissional de Judy, cuja primeira narrativa evidencia a dificuldade de se encaixar no modelo das instituições desiguais. O contraste entre predadores e presas funciona como uma estratégia narrativa por meio da qual podem ser levantadas questões como o racismo, quando evidenciado no preconceito contra certas espécies e, consequentemente, em sua exclusão, enquanto as diferenças entre os tipos de espécies e suas diferentes necessidades corporais trazem à tona debates sobre capacitismo, a discrimação contra pessoas com deficiência.

Em ‘Zootopia 2’ (2025), a busca não é mais voltada para o medo coletivo em torno dos predadores; agora, a narrativa segue a jornada dos parceiros policiais Judy e Nick, que investigam um mistério ainda desconhecido pelos habitantes da cidade: uma espécie aparentemente extinta seria, na verdade, a criadora de Zootopia. A trama desloca o foco da tensão entre predador e presa para se apoiar num suspense investigativo mais convencional, mantendo o dinamismo da dupla, mas diminuindo a força conceitual da alegoria original, arriscando-se a ficar à beira de uma superficialidade.
O segundo filme continua eficaz para essa finalidade, embora não tão original quanto o primeiro. Ambos seguem a estrutura dramática que demonstra convivência entre diferenças, que a Academia costuma privilegiar. A sequência pouco acrescenta à jornada dos protagonistas, cujo relacionamento transforma-se em clichês em muitos momentos. Ainda assim, o retrato de tópicos associados a um possível racismo em forma de especismo se torna mais explícito do que no primeiro, embora ainda possa haver conexões menos articuladas de capacitismo.
De 2017 aos dias atuais, a Academia passou por mudanças estruturais importantes em relação à diversidade, o que levou a um corpo de votantes mais diversificado, além da implementação de um discurso voltado à inclusão. No contexto de seu primeiro lançamento, ‘Zootopia’ (2016) parecia estar à frente do seu tempo, ao transferir desigualdades reais para o campo da alegoria, criando, ao mesmo tempo, um espaço educativo e de entretenimento para além de um público infantil.

A junção dos dois filmes cria um paradoxo entre inovação e repetição, especialmente se houver uma terceira sequência, o que pode resultar em uma iniciativa que prioriza o lucro mais do que a mensagem. Ao mesmo tempo em que o Oscar continua valorizando narrativas emocionais que reconhecem diferenças e propõem convivência, não há espaço para o desconforto na reflexão fora da superficialidade. O retorno de Zootopia funciona, então, como um espelho que reforça um modelo de inclusão emocional eficaz que as premiações de cinema mais convencionais continuam a abraçar.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.