Por Weverton Martins

Já parou para pensar que as escolas de samba são, também, uma tecnologia cultural e educativa? Uma inteligência coletiva que nasce negra, dialoga com saberes indígenas e se estrutura, sobretudo, nas periferias. Muito antes de qualquer formalização curricular, elas já colocavam em prática o que as Leis 10.639/03, posteriormente alteradas pela 11.645/08, tornaram obrigatório: o ensino da história e da cultura afro-brasileira e indígena.

Passadas mais de duas décadas dessa política pública, fruto da luta dos movimentos sociais, as agremiações seguem revelando que não são apenas seus enredos que devem chegar às salas de aula; são as próprias salas de aula que precisam entrar nas escolas de samba, reconhecendo nesses espaços saberes vivos e contribuindo para uma educação mais plural, crítica e conectada às diversas realidades brasileiras.

É nesse sentido que os enredos do Carnaval de 2026 ganham ainda mais significado: ao atravessarem a avenida, não apenas celebram narrativas e identidades, mas também colocam em prática as Leis 10.639/03 e 11.645/08, transformando o desfile em experiência educativa, cultural e política.

Os desfiles das escolas de samba do Grupo Especial, realizados na sexta-feira (13) e no sábado (14), no Sambódromo do Anhembi, apresentaram um conjunto de enredos centrados na valorização das religiões de matriz africana, no protagonismo de narrativas negras — especialmente de mulheres — e na trajetória de organizações dos movimentos sociais. Outras agremiações destacaram povos originários, seus saberes e narrativas ancestrais indígenas.

A Mocidade Unida da Mooca levou à avenida o enredo “Gèlèdés – Agbara Obinrin”, inspirado na atuação do Instituto Geledés e na trajetória de mulheres negras. Já a Dragões da Real apresentou “Guerreiras Icamiabas – Uma lendária história de força e resistência”, criação sobre as mulheres indígenas que, segundo a tradição, viviam às margens do rio Amazonas.

A Barroca Zona Sul, com “Oro Mi Maió Oxum”, desenvolvido por Pedro Alexandre Magoo, exaltou a orixá das águas doces, da fertilidade e do amor, enquanto a Império de Casa Verde apresentou “Império dos Balangandãs: Joias Negras Afro-Brasileiras”, abordando a história das mulheres negras de ganho e os balangandãs como símbolos de proteção, fé e identidade.

A Mocidade Alegre homenageou a atriz Léa Garcia no enredo “Malunga Léa – Rapsódia de uma Deusa Negra”, celebrando seu legado artístico, sua ancestralidade e o protagonismo negro nas artes. A Gaviões da Fiel levou à avenida “Vozes Ancestrais para um Novo Amanhã”, com abordagem política e poética sobre a luta dos povos indígenas.

O Camisa Verde e Branco apresentou “Abre Caminhos”, celebrando Exu como senhor das encruzilhadas, da comunicação e dos movimentos da vida.

Ainda que por caminhos distintos, a avenida revelou intersecções entre raça, trabalho, território e direitos sociais, como no caso do Vai-Vai, que em “A Saga Vencedora de um Povo Heroico no Apogeu da Vedete da Pauliceia” homenageou os estúdios Vera Cruz e destacou a memória operária e os movimentos trabalhistas do ABC paulista, e da Acadêmicos do Tatuapé, que com “Plantar para colher e alimentar. Tem muita terra sem gente, tem muita gente sem terra” abordou a agricultura e as lutas sociais pelo direito à terra.

Quando cada agremiação riscava o chão, o que se movia não era apenas o gesto, mas a memória. Cada escola convocou presenças, saberes e sentidos que atravessam gerações, provando que seu papel é afirmar existências, reescrever histórias e sustentar aquilo que tantas vezes tentaram silenciar. Na escola de samba, reaparecem os rostos que a história oficial tentou apagar, e as identidades negras e indígenas se inscrevem no espaço público.

Cada enredo revela modos de vida, saberes e narrativas que nascem da experiência sob a perspectiva das pessoas esquecidas, marginalizadas e gentrificadas, mas que nunca se curvaram: quem vive, trabalha, luta e celebra. Cada enredo é um gesto narrativo: evoca cenas do cotidiano, fragmentos da história, afetos, medos, resistências e sonhos.

Na avenida, essas ideias ganharam voz:

Mocidade Unida da Mooca – “Gèlèdés – Agbara Obinrin”
“Quero ver, Casa-Grande vai tremer
No meu Quilombo é noite de Xirê!
A Mooca faz revolução!
É Geledés: a libertação!”

Mocidade Alegre – “Malunga Léa – Rapsódia de uma Deusa Negra”
“A pele preta é armadura
No palco, expressão de liberdade”

Vai-Vai – “A Saga Vencedora de um Povo Heroico no Apogeu da Vedete da Pauliceia”
“Quem trabalha tem alma e coração
Não é ferro, nem máquina, da exploração
Faz valer o suor, não leve a mal
Se desacreditar, vai parar geral!”

Acadêmicos do Tatuapé – “Plantar para colher e alimentar. Tem muita terra sem gente, tem muita gente sem terra”
“Negro plantou resistência
Canudos semeou a rebeldia
Cada enxada levantada
Liberdade florescia”

Gaviões da Fiel – “Vozes Ancestrais para um Novo Amanhã”
“Yandê, Yandê, vai tremer a terra
Eu sou de paz, mas tô pronto pra guerra
Flecha que aponta novas direções!
Tenho lado nessa luta, sou Gaviões! (Sou Gaviões)”

Cada verso não apenas embalou a avenida, mas traduziu histórias de resistência, territorialidade, fé e justiça social. O Carnaval, mais uma vez, mostrou que uma escola de samba também educa — com enredos sempre sociais, culturais, políticos, religiosos, estéticos e, sobretudo, poéticos.