10 anos de “Moonlight”: enredo e estética do primeiro Oscar de Melhor Filme da A24
O espetáculo estético do primeiro Oscar de Melhor Filme com elenco inteiramente negro
Por Samuel Fernandes

Há 10 anos, em 2016, o estúdio A24, já com certo prestígio no circuito independente, lançava o filme Moonlight, um de seus maiores sucessos, que alavancou a carreira de um diretor independente, Barry Jenkins.
A produção fez história no 89º Oscar ao vencer as categorias de Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado, além de Melhor Ator Coadjuvante para Mahershala Ali, primeiro muçulmano a vencer essa categoria.
Visto por críticos como um dos filmes mais importantes da década de 2010, Moonlight carrega consigo um peso simbólico enorme, já que foi também o primeiro filme com elenco inteiramente negro a ganhar o Melhor Filme no Oscar.
Neste texto, vamos olhar para outro aspecto do filme: sua estética visual única e sensível.
Enredo
Moonlight conta a história de Chiron, um jovem negro em uma jornada de autoconhecimento, enquanto foge do caminho que tenta guiá-lo a entrar na criminalidade, ao mesmo tempo que precisa se descobrir sexualmente em uma sociedade com vieses machistas. Na trajetória, Chiron conhece o amor em diferentes formas e em lugares inesperados, podendo sonhar com um futuro diferente.
Antes de mais nada, é importante dizer que o filme não se entrega ao simplismo de retratar a vida no crime como uma questão de ser bom ou mau. Existem muitas nuances nesse tema e Jenkins sabe muito bem disso, pois estabelece essa relação entre necessidade/vontade de se estar à margem da lei de forma incrível. Algo que também temos no clássico brasileiro Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles, ao retratar a amizade entre os criminosos Zé Pequeno e Benê.
O filme Cidade de Deus, inclusive, é mais importante para a história desse filme do que parece, mas eu vou explicar isso melhor mais à frente.

Crítica social do filme
O roteiro de Moonlight mostra a vida negra suburbana dos Estados Unidos sob uma nova luz, saindo daquele batido clichê de definir a vida periférica pela violência, e ainda mantendo uma distância segura do discurso meritocrático de que nosso destino está sempre sob nosso controle. Sem visões privilegiadas ou a presunção de que o “caminho do bem” é uma decisão óbvia, porque a vida não é assim para todo mundo.
Moonlight é uma viagem que vai muito além disso tudo, muito além do preto com arma na mão. A fotografia do filme traz alto contraste de luz para criar a sensação escaldante e até incômoda do filme, fazendo o espectador sentir como se estivesse vivendo um sonho febril. Se é um sonho bom ou ruim vai depender de cada escolha.

Inspirações
Como prometido, vamos voltar ao Cidade de Deus. Isso porque a produção do filme brasileiro foi uma das grandes inspirações para Barry Jenkins, com destaque para o trabalho de cinematografia do uruguaio César Charlone, parceiro de longa-data de Fernando Meirelles.
Em uma entrevista para a americana Believer Magazine, Jenkins contou sobre como foi o seu início de carreira no cinema independente gravando com câmeras 35 mm e compartilhou seu descontentamento com a estética racista dessas câmeras que, segundo ele, eram feitas para captar apenas as peles mais claras. Ele conta:
O filme de 35 mm nunca teve a intenção de, precisamente, refletir ou replicar tons mais escuros de pele. Então, eu aprendi toda essa coisa sobre filmes, continuava fazendo as coisas e ficando tipo: ‘Por que isso está ficando tão ruim?. (…) E tinha um filme chamado Cidade de Deus, com esse diretor de fotografia brasileiro, César Charlone. (…) É um filme bem escuro, de peles muito escuras. E eles gravaram isso. (…) E eu fiquei tipo: ‘Como eles estão fazendo pessoas mais escuras que eu, literalmente, brilharem à luz do luar?
Barry Jenkins para a Believer Magazine
Jenkins contou também sobre a técnica que aprendeu de Charlone ao vê-lo explicar que foi necessário “esfregar óleo de cozinha sob toda a pele dos atores, pois isso iria, literalmente, fazer captar a luz e refleti-la”. Uma técnica que ele passou para frente em Moonlight.

O azul
A inspiração para o enredo e para o título do filme veio de In Moonlight Black Boys Look Blue, peça de teatro escrita por Tarell Alvin McCraney, que também virou uma frase dita por Juan, personagem vivido por Mahershala Ali.
O azul no preto é parte central da estética do filme, sendo o preto e diferentes tons de marrom representantes da pele de cada personagem e o azul presente no reflexo dessas peles, algo brilhantemente trazido pela fotografia de James Laxton.
O azul de Moonlight também exerce o papel intencional de chamado para a atenção, algo que pode-se notar em uma das cenas mais impactantes do filme, quando Kevin, o melhor amigo de Chiron, é estimulado por um bully a agredir o amigo na frente de todos. Nesta cena, Kevin veste azul (em posição ativa) e Chiron veste branco (em posição passiva).
Mais tarde, quando Chiron decide se vingar do bully, vemos ele vestindo roupas azuis e atravessando portas também azuis antes de cometer o ato de violência. Ao fim da cena, enquanto Chiron é detido pela polícia pela agressão, vemos Kevin vestindo branco. Ele está atônito e, de forma passiva, assiste à prisão do amigo.
Durante todo o filme, o azul representa muitos sentimentos, seja raiva, amor, medo ou tristeza, tudo está lá. E isso não é para simplificar a mensagem, mas, sim, para mostrar que, mesmo numa soma de emoções, ainda somos uma só essência.
Com Moonlight, Barry Jenkins se mostra quase um regente de cores, mas seu instrumento de trabalho é seu olhar delicado.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.