‘Oeste Outra Vez’: o faroeste e as masculinidades de Goiás
Vencedor do prêmio de Melhor Longa em Gramado 2024, a produção é uma reflexão intensa sobre masculinidade tóxica e isolamento
Por Hyader Epaminondas
Em “Oeste Outra Vez”, o diretor e roteirista Erico Rassi propõe uma nova perspectiva sobre o gênero faroeste, inserindo-o em um cenário profundamente brasileiro, o sertão de Goiás. Essa ambientação empoeirada é utilizada para explorar temas densos, como a masculinidade tóxica, o impacto do isolamento emocional e a forma como o silêncio, a paisagem e o álcool constroem esse universo árido de afeto.
A história acompanha o desenrolar de um desafeto entre Totó, interpretado por Ângelo Antônio, e Durval, vivido por Babu Santana. Ambos entram em uma rivalidade mortal após serem abandonados pela mesma mulher, e essa disputa não se limita a um confronto pessoal: ela mergulha em questões mais amplas sobre o que significa ser homem, especialmente em um contexto rural e tradicional, onde a vulnerabilidade é muitas vezes vista como fraqueza.
O filme não ocupa seus personagens com diálogos expositivos, ao invés disso, projeta um silêncio tenso, que diz mais do que qualquer palavra não dita, enquanto os corpos se movimentam entre o vaivém de cavalos, picapes empoeiradas e copos de cachaça, fazendo o vazio do sertanejo se manifestar, refletindo a busca insaciável de um mundo que nunca se sacia.
Masculinidades em colapso
Rassi não se contenta em apenas resgatar os códigos do faroeste, mas os subverte, questionando e explorando de maneira crua o conceito de masculinidade que permeia essa cultura. Ao invés de glorificar a figura do homem, o diretor nos apresenta dois personagens que são, na verdade, prisioneiros de suas próprias inseguranças e emoções reprimidas.
A rivalidade entre Totó e Durval não é só uma disputa por uma mulher, mas um confronto entre fragilidades, uma tentativa desesperada de reafirmar uma masculinidade que ruge por entre olhares e silêncios. A pressão para corresponder a esse modelo ideal de masculinidade, “duros”, “intransigentes” e “impenetráveis”, molda suas ações, resultando em comportamentos destrutivos.
O álcool, nesse contexto, funciona como lubrificante emocional, mas também como anestésico. A cachaça está em todo lugar, permeando cenas, gestos e silêncios, quase como um personagem oculto, a única companhia verdadeira dos homens. Ela embriaga tanto quanto ilude, e talvez por isso mesmo seja tão presente: é ela quem consola, empurra e entorpece a dor dos protagonistas, enquanto o som melancólico de “Tudo Passará”, de Nelson Ned, ecoa como ironia cruel diante de tudo o que, de fato, não passa.
A mulher, por sua vez, aparece não como personagem com agência, mas como reflexo das frustrações e delírios dos homens. Quase sempre tratada como posse, em muitos momentos sua representação se assemelha à da própria cachaça: um objeto de consumo, de companhia e de fuga. O tom beira o satírico, pois o filme expõe, sem piedade, a misoginia como componente estrutural do universo masculino representado, revelando como o desejo de posse e o medo do abandono são faces da mesma masculinidade em ruínas.
A solidão dos homens
O Cerrado é parte da narrativa, personagem implacável de poucas palavras. A direção de fotografia captura com precisão a vastidão árida da região castigada, mesclando o azul do céu com os tons alaranjados e esverdeados da terra seca.
Essa paleta visual, sempre entre cores quentes, com o vermelho em destaque em algumas cenas simbólicas, traduz o calor do conflito e o frio do isolamento afetivo. É um espaço sufocante, sem sombra, sem alívio, onde cada plano parece ecoar o vazio interno não só de Totó e Durval, mas de todos os homens ilustrados.
É nesse silêncio visual que emerge a figura de Rodger Rogério, interpretando um sertanejo velho com ares de jagunço, um aspirante a capanga chamado Jerominho, que aparece quase como um fantasma do futuro de quem sobreviveu tempo demais, como um corpo deslocado no quadro. Ele ocupa a cena como um vestígio de um mundo que insiste em permanecer mesmo depois de esvaziado de sentido.
Seus monólogos, os poucos momentos em que o filme se permite falar, são confessionais, densos e têm o poder de sequestrar a narrativa, como se falassem já do lado de fora do mundo que descrevem. Com seu tom de despedida, carregam a percepção de que tudo ali, o trabalho, a violência, a ordem e a própria fala, chegou ao fim. Assim, Jerominho se impõe como o último narrador possível de um mundo fadado a desaparecer.
Mas “Oeste Outra Vez” escolhe firmar seu olhar para retratar Totó e Durval como homens que se afundam porque nunca aprenderam a lidar com o próprio desejo. A disputa entre eles torna visível uma educação afetiva marcada pela ausência: ninguém lhes ensinou a nomear o que sentem e, por isso, transformam frustração em ataque e solidão em bravata. O filme mostra como a violência não surge da grandeza, mas de um desajuste íntimo, de uma falta que se arrasta por gerações. É essa incapacidade de elaborar a própria dor que empurra os dois para um desfecho que não poderia ser outro senão trágico.
Neste faroeste encharcado de cachaça e terra vermelha, não há redenção, apenas o silêncio do sertão, como a terra que absorve tudo sem devolver, e o reflexo da solidão que cada um carrega no olhar. O filme, sem didatismo, nos chama a observar os estilhaços emocionais que restam quando a virilidade é a única linguagem possível. E, ao fazer isso, propõe, com coragem, que talvez seja hora de quebrar essa garrafa.



