Por Alexandre Arns Gonzales

O mês de setembro colocou o sistema de recomendação de vídeos do YouTube no foco de atenção das eleições brasileiras de 2022. Há, pelo menos, duas questões associadas ao tema. A primeira, de médio e longo prazo, é sobre como estes sistemas influenciam a configuração do campo da comunicação no debate público a partir dos seus interesses de negócios. Isto significa que, no YouTube e em outras plataformas, tendem a prosperar – em termos financeiros e de audiência – os grupos de comunicação capazes de manter maiores contingentes de usuários conectados por mais tempo à plataforma. A segunda questão não é menos importante, mas é mais urgente. Diz respeito ao risco destes sistemas de recomendação favorecerem a um chamado golpista de atores contrariados com o resultado colhido nas urnas no dia 2 de outubro. 

Os resultados do experimento realizado pelo NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), contribuem para explorar a primeira questão, ou seja, os impactos dos serviços do YouTube na configuração do campo da comunicação. Segundo o NetLab, os vídeos de canais da Jovem Pan apareciam como primeira recomendação, na página inicial do YouTube em aproximadamente 55% das “visitas-testes”. Já o do Uol em  aproximadamente 27%, CNN 5% e Band Jornalismo 5%.

O estudo do NetLab foi noticiado no dia 13 de setembro pela Folha de São Paulo e pelo O Globo. No dia seguinte, 14 de setembro, segundo apuração da Ana Clara Costa da Revista Piauí, o YouTube não emitiu aos usuários a notificação de início da transmissão do programa “Os Pingos nos Is”, da Jovem Pan, na plataforma. A medida, segundo a repórter, levou o programa a iniciar sua transmissão com, aproximadamente, 70 mil usuários simultâneos – sendo que tradicionalmente arregimenta 150 mil – e concluiu a transmissão com 553 mil visualizações – sendo que, em média, conclui com 900 mil.  Estes números dão uma noção da grandeza do impacto que os sistemas de recomendação do YouTube conferem a um grupo de comunicação consolidado na plataforma.

Ainda como desdobramentos das notícias, a Coligação Brasil da Esperança acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pedindo explicações ao Google – empresa controladora do YouTube – sobre o tratamento privilegiado à Jovem Pan. Para a coligação, o fato violaria a cláusula terceira do Memorando de Entendimento assinado entre o Google e o TSE, por não conferir aos usuários da plataforma “acesso a um contexto amplo de informações de fontes confiáveis” e, por isso, não tratar de forma isonômica o conteúdo distribuído ao usuário.

Contudo, não se trata, apenas, de avançar na compreensão das mecânicas internas dos sistemas de recomendação, mas, sim, de compreender também as possíveis consequências da política do Google de fomento ao jornalismo. Originalmente voltada a enfrentar o fenômeno da desinformação, o Google celebrou, em 2020, o investimento de 1 bilhão de dólares no jornalismo e, na fase inicial da pandemia, criou um Fundo de Auxílio Emergencial ao Jornalismo.

O discurso padrão das plataformas é reconhecer, em parte, o problema, mas ponderar que o usuário dispõe de instrumentos de filtragem do conteúdo que recebe. O YouTube não destoa deste discurso. O usuário teria a sua disposição um conjunto de instrumentos para sinalizar quais tipos de conteúdo e canais não lhe interessam. Mas uma pesquisa realizada pela Fundação Mozilla, publicada em 20 de setembro, indica que, na percepção dos usuários, os instrumentos do YouTube são ineficientes. De acordo com o relatório produzido por Becca Ricks e Jesse McCrosky (2022), mesmo fazendo uso dos botões “descurtir”,  “não tenho interesse” e “não recomendar o canal”, os usuários ainda recebiam recomendações de conteúdos similares e de conteúdos de canais bloqueados.   

Os dados dos quais dispomos até o momento são, portanto, preocupantes, e nos levam para a segunda questão: o papel destes sistemas de recomendação às vésperas do primeiro turno das eleições no Brasil. Um conjunto de organizações e grupos publicaram um balanço sobre as políticas que Google, YouTube, Facebook, Instagram, WhatsApp, Twitter, Telegram, TikTok e Kwai adotaram ao longo do período das eleições visando a segurança do processo eleitoral. Para estas organizações “quase nenhuma das plataformas tem uma política para impedir chamados à sublevação” contra o resultado das eleições. 

Talvez, por isso, as organizações Intervozes e Sleeping Giants acionaram o TSE contra a Google, no dia 19 de setembro, pedindo que a empresa adote como configuração padrão a desativação da reprodução automática de vídeos político-eleitorais durante todo o período eleitoral e que se abstenha de recomendar conteúdos político-eleitorais ou conteúdos de candidaturas na página inicial do YouTube. Como já sabemos o impacto desta medida tende a ser significativo para conter a distribuição de conteúdos incendiários. 

Após as eleições, tendo o resultado dos votos nas urnas respeitado e assegurado, o Brasil precisa retomar o debate sobre a criação de mecanismos de transparência, acompanhado de instrumentos de auditoria sobre os sistemas algorítmicos e as políticas das empresas proprietárias das plataformas. 

 Alexandre Arns Gonzales Pesquisador colaborador do Instituto em Ciência Política (IPOL) pela Universidade de Brasília (UnB), bolsista de pós-doutorado pelo CNPq. Doutorado em Ciência Política pela UnB. Mestrado em Ciência Política pela UFRGS. Graduado em Relações Internacionais pela UNIPAMPA

Esse artigo foi elaborado no âmbito do projeto Observatório das Eleições 2022, uma iniciativa do Instituto da Democracia e Democratização da Comunicação. Sediado na UFMG, conta com a participação de grupos de pesquisa de várias universidades brasileiras. Para mais informações, ver: www.observatoriodaseleicoes.com.br.

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