Por José Maria Monteiro e Helena Martins

Mensagens de convocação, ameaças e auto elogios foram propagadas em grupos de WhatsApp associados à direita, entre os dias 6 e 8 de setembro. Levantamento feito pelo Farol Digital, parceiro do Observatório das Eleições, analisou 231 grupos e verificou que houve atividade em 171, conformando uma amostra de 23.448 mensagens e 2.674 usuários. O feriado do 7 de setembro foi mencionado em 93 deles, portando em 40% do total monitorado. Nestes, houve 683 mensagens sobre o 7 de setembro, envolvendo 245 usuários. O alto número de grupos com atividade sobre a data indicam que ela mobilizou a base bolsonarista, mas não permite afirmar ter havido uma grande mobilização virtual. 

Em meio aos 171 grupos ativos no período, a mensagem mais compartilhada tratou do discurso do presidente Jair Bolsonaro em Copacabana, chamando os destinatários para assistirem o ato. “Bolsonaro discursa em Copacabana lotada no 7 de setembro em um dos cenários mais lindos do país. Festa do Bicentenário da Independência termina à altura da grandeza do Brasil”. Criado pelo site direitaonline.com.br, o conteúdo foi visto em 12 dos grupos monitorados. Também em 12 grupos circulou a mensagem: “Em vídeo de campanha, Presidente Bolsonaro convida brasileiros para celebração de 7 de setembro”, do mesmo portal.

Outras mensagens também repercutiram em mais de dez grupos. Uma apresentava o vídeo do discurso do presidente em Copacabana. Outra chamava para o desfile das tropas em Manaus, publicado pela campanha de um apoiador de Bolsonaro que é candidato a deputado estadual no Amazonas. Vale notar que, em todos os monitoramentos realizados pelo Farol nestas eleições, foi expressiva a presença de mensagens bolsonaristas no Amazonas. 

Várias outras mensagens relacionadas ao 7 de setembro circularam em mais de 5 grupos. Além do já mencionado Direita Online, outro site ganhou destaque na amostra, o Pensando Direita. Deste site, uma mensagem com grande circulação tratou de decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE): “📌TSE nega pedido do partido de Ciro Gomes para investigar se campanha de Bolsonaro”, legitimando o ato e, simultaneamente, desgastando o candidato Ciro Gomes. A ação foi movida pelo PDT e, de fato, rejeitada pelo Tribunal. 

A maior parte das mensagens contém mídia (68,88%), ao passo que a presença de mensagens essencialmente textuais diminuiu (31,12%). Os estados com maior número de mensagens são São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Ceará, Bahia, Santa Catarina e Pará. Já os usuários mais ativos estão em Rondônia, Paraíba, Alagoas, Distrito Federal, São Paulo, Minas Gerais, Roraima, Mato Grosso e Espírito Santo. Como no caso das mensagens mais compartilhadas, vale notar a presença de estados da região Norte, o que indica forte atividade de bolsonaristas por meio do WhatsApp naquele local. Em alguns casos, os mais ativos registram o dobro da média de postagem dos usuários em geral:

Foto: Observatório das Eleições

 

O usuário que mais postou espalhou conteúdos 39 vezes. O conteúdo era um texto do site Pensando Direita, em tom crítico ao que teria sido, por parte do Supremo Tribunal Federal (STF), uma ação de limitação ao 7 de setembro. O mesmo texto foi replicado por outros usuários em dezenas de grupos. Em verdade, o que o STF fez foi ampliar a segurança dos prédios da instituição, a fim de evitar a aproximação de caminhões, como ocorreu em 2021. A repetição mostra que o STF segue sendo um alvo preferencial dos discursos bolsonaristas. 

Desinformação à vista

Quando observadas as mensagens relacionadas ao 7 de setembro, notamos a presença de conteúdos com tom convocatório, apresentação de pautas e informações sobre o ato em Brasília. Conteúdos desinformativos também foram verificados, como é o caso de mensagem que foi vista em quatro grupos que trata de suposta tentativa de impugnação da chapa de Bolsonaro à presidência: “BOMBA EM BRASÍLIA: O TRIO QUER IMPUGNAR A CHAPA DE BOLSONARO. Numa pesquisa INTERNA, NÃO FALSA, o PT descobriu que Lula SÓ TEM 17% dos votos e que BOLSONARO GANHA no primeiro turno COM 62% dos votos. ROUBAR na apuração está DIFÍCIL, porque as FFAA ESTÃO em cima. Só RESTA dois caminhos pra BANDIDAGEM: MATAR Bolsonaro ou IMPUGNAR a chapa. \nMatar Bolsonaro (que tem apoio popular inquestionável) OCASIONARIA uma revolta popular com CONSEQUÊNCIAS imprevisíveis. \nPARECE só restar IMPEDIR Bolsonaro concorrer. \nSe a bandidagem CHEGAR a tanto, a REVOLTA POPULAR será DEVASTADORA para o STF e Congresso. NINGUÉM VAI segurar. O TRIO (pressionado por Lula, Zé Dirceu e PCC) não tem limites. Os próximos dias SERÃO TENEBROSOS. O DESESPERO da esquerdalha é total. Eles SABEM que NAS URNAS eles serão FRAGOROSAMENTE derrotados. Mas Bolsonaro não pode se reeleger, na VISÃO DELES.Será o FIM do BLOCO COMUNISTA da América LATINA …POVO NAS RUAS DIA 7 DE SETEMBRO EM MASSA !!!Será a NOSSA decisão de NÃO sermos a próxima Argentina, Venezuela, Cuba, etc … O FUTURO dos nossos filhos e famílias ESTÁ NAS NOSSAS MÃOS !!! COMPARTILHE”. 

A mensagem reúne argumentos constantemente usados por apoiadores de Bolsonaro, como suspeição em relação às eleições; associação de petistas, inclusive Lula, à associação criminosa PCC; alardes sobre o risco do comunismo, com uso de casos de países latino-americanos para tratar do que seria o caminho do Brasil, caso Bolsonaro não vença. Segundo estudo do projeto Eleições Sem Fake, da UFMG, nos últimos três meses, essa foi a mensagem mais compartilhada nos 569 grupos políticos de todo o país monitorados pelo projeto, o que mostra que esse tipo de conteúdo vinha sendo difundido de forma coordenada.

Do mapeamento do grupo Farol, merece destaque também um texto, intitulado “Carta ao presidente do Brasil”, em que é apresentado um ultimato: “Desde 2018, estamos brigando com parentes, amigos, vizinhos, brigando em redes sociais, para tentar mudar esse país, para tentar deixar um país melhor para as outras gerações. Hoje, escutei do senhor Presidente que, dia 7 de setembro, será o último aviso, será a última oportunidade de colocar o país nos eixos. Então, Presidente, quero lhe perguntar: será, mesmo, a última manifestação? Se não houver mudança, no dia 7 de setembro e não vier uma resposta do líder que elegemos com quase 70 milhões de votos, EU DESISTO”. O texto é associado ao jornalista Alexandre Garcia, mas não consta fonte oficial que confirme tal autoria. 

Há ainda um texto, apresentado como “mensagem espiritual”, com forte tom religioso, pedindo que “Aqueles que não forem às ruas deverão permanecer em oração em apoio às forças do bem”. No dia seguinte, conteúdos exaltando a dimensão das manifestações também foram compartilhados nos grupos monitorados, mas nenhuma em mais de 12 grupos. Já o link mais compartilhado foi visto 35 vezes. Trata-se do link para o grupo Direita Online no Telegram, que possui mais de 5200 usuários. 

O número de compartilhamentos da mesma mensagem por parte de um usuário tem aumentado em relação ao que verificamos nas semanas anteriores, mas, apesar das repetições, não é possível afirmar que a viralização das mensagens se dê por meio de mecanismos automatizados. O usuário mais ativo espalhou a mesma mensagem 12 vezes, algo exequível para um humano. Outros três usuários espalharam o mesmo conteúdo 11 vezes. 

Abaixo, uma nuvem de palavras apresenta as que mais foram repetidas nos textos: 

Foto: Observatório das Eleições

Nas semanas anteriores, a palavra mais recorrente foi Lula. A análise dos dias em torno do 7 de setembro mostra que, com os atos na data comemorativa, o bolsonarismo conseguiu engajar sua base e disputar o rumo da conversação sobre as eleições. À primeira vista, o intuito foi alcançado, mas o número de grupos com movimentação e de mensagens comuns indica que a capacidade de viralização e coordenação das atividades não é a mesma de 2018. A mesma conclusão foi apresentada, neste Observatório, a partir da análise comparativa das mensagens sobre o 7 de setembro no Facebook, nos anos de 2021 e 2022. O uso das redes segue sendo um trunfo importante de Bolsonaro, mas também nesses espaços parece que a “novidade” desbotou.

José Maria Monteiro é professor de Computação da Universidade Federal do Ceará, coordenador do Farol Digital

Helena Martins é professora da UFC. Doutora em Comunicação pela UnB, com sanduíche no Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa (ISEG). É editora da Revista EPTIC. Coordenadora do Telas – Laboratório de Tecnologia e Políticas da Comunicação e integrante do Obscom / Cepos.

Esse artigo foi elaborado no âmbito do projeto Observatório das Eleições 2022, uma iniciativa do Instituto da Democracia e Democratização da Comunicação. Sediado na UFMG, conta com a participação de grupos de pesquisa de várias universidades brasileiras. Para mais informações, ver: www.observatoriodaseleicoes.com.br.

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