Por Carlos Ranulfo Melo

O debate entre os presidenciáveis na TV Bandeirantes teve grande repercussão. Quem se saiu melhor foi Simone Tebet, seguida por Ciro Gomes. Lula foi mal e Bolsonaro, o pior de todos. Paradoxalmente, o resultado foi bom para a campanha do atual presidente; afinal, é preciso evitar a vitória de Lula no primeiro turno e, pelo andar da carruagem, a melhor maneira de conseguir isso é com o crescimento de Tebet e Ciro. No debate, Bolsonaro foi inicialmente gentil com Ciro que, por seu lado, procurou retribuir até o momento em que o candidato-presidente fez menção a uma declaração dada há 20 anos atrás pelo cearense. Com Tebet não foi possível nenhuma troca de gentilezas, uma vez que a senadora demarcou sua posição com firmeza.

A pesquisa do Datafolha pareceu confirmar a avaliação geral sobre o debate. O instituto iniciou seu campo no dia 30 de agosto, dois dias após o debate, e estendeu a coleta de dados até 01 de setembro. Resultado: Ciro Gomes passou de 7% para a 9% na preferência do eleitorado e Tebet cresceu de 2% para 5%. O crescimento dos dois tornou-se o tema dos dias seguintes, uma vez que pela primeira vez na série do Datafolha Lula obteve menos que 50% dos votos válidos (48%) no primeiro turno.

O que dizer disso tudo? A primeira coisa a fazer é separar o desempenho dos dois. Para Ciro, 9% não é propriamente uma novidade. Seu mudança se deu dentro da margem de erro da pesquisa (2%). O candidato está na rua há muito tempo, é bastante conhecido e nas sondagens feitas pelo Datafolha em junho e julho havia alcançado 8%, oscilando em meados de agosto para 7%. A novidade, portanto, é Tebet. Pouco conhecida, até agora a candidata do MDB patinava entre 2 e 3% – índice obtido nas pesquisas do IPEC e da Quaest, que fecharam sua coleta de dados sem captar o efeito do debate. Em outras palavras, até aqui, sozinho, o desempenho de Ciro não conseguiria “provocar” o segundo turno. Tebet parece ser o diferencial.

Para onde apontam os 14%? Uma coisa é certa: a não ser que, parafraseando Nelson Rodrigues, o sobrenatural de Almeida resolva intervir, nem Ciro, nem Tebet estarão no segundo turno. Tanto no Datafolha, com no IPEC Lula tem 40% das preferências na pergunta espontânea. Bolsonaro chega a 29% e 31% nas mesmas sondagens. Na série do Datafolha os dois candidatos cresceram de forma sistemática desde maio de 2021; Lula começando com 21% e Bolsonaro com 17%.

Ainda que não possamos falar em fortalezas inexpugnáveis, o patamar e as curvas de crescimento indicam um grau de consolidação impossível de ser ignorado. Entre os potenciais eleitores de Lula apenas 17% admitem mudar o voto. O percentual é quase o mesmo no caso de Bolsonaro (16%). Importa ressaltar: os percentuais são exatamente os mesmo na pesquisa do IPEC. Por outro lado, 57% dos que disseram preferir Ciro ainda podem mudar de ideia até o dia da eleição. A diferença é enorme, embora se deva dizer, a favor do ex-governador do Ceará, que o percentual dos que se dizem seguros em sua opção subiu de 27% para 42% desde fevereiro deste ano. No caso de Tebet, o percentual dos que podem alterar sua opção é de 48% ainda segundo o Datafolha. Em outras palavras, pelo que sabemos até agora, a chance de Ciro e Tebet perderem eleitores é maior do que nos casos de Lula e Bolsonaro.

Ambos podem crescer? Sim, mas novamente, a situação de Tebet parece melhor que a de Ciro. Segundo o DataFolha, 23% dos entrevistados apontam Ciro Gomes como sua segunda opção de voto, mas esse quadro tem se mantido nas últimas quatro pesquisas do instituto. Também não se registra alteração no percentual de eleitores de Lula e Bolsonaro que, admitindo mudar de voto, optariam por Ciro: 37% iriam para o petista e 30% para o candidato do PL. Tebet, por sua vez, aparece como segunda opção para 12%, mas cresceu 7 pontos percentuais desde a pesquisa divulgada em meados de agosto. E entre os eleitores de Lula e Bolsonaro que admitem mudar de voto a preferência pela senadora do MDB saltou de 5% para 18%, no primeiro caso, e de 4% para 14% no segundo.

A pesquisa do Datafolha veio reforçar algo que já era perceptível: o segundo turno parece mais provável hoje do que a um mês atrás. Ao mesmo tempo, não apenas o Datafolha, mas também a Quaest e o IPEC mostram que Bolsonaro enfrenta dificuldades para crescer, apesar do pacote de bondades alimentado com o orçamento da União. As três sondagens cravaram 32% de intenção de voto para o atual presidente. Isso pode significar que a realização de um segundo turno depende de Ciro e Tebet crescerem.

Para que isso ocorra, Ciro tem que sair da gangorra que o faz balançar em torno dos 8%. E no caso de Tebet, o efeito do debate na Bandeirantes, muito provavelmente, já deu o que tinha que dar. Não basta se dizer alternativa aos dos líderes nas pesquisas. Tem que mostrar a que veio o que, aliás, Ciro tem feito há tempos sem crescer. Caso os dois não se consolidem entre uma parcela maior do eleitorado, é de se perguntar o que acontecerá, daqui a três semanas, se as pesquisas indicarem a possibilidade de vitória de Lula no primeiro turno. Estarão os eleitores de Tebet e Ciro que admitam mudar de voto, não rejeitem Lula, mas o façam com Bolsonaro, dispostos a dar mais uma chance ao atual presidente, ou votarão para terminar a disputa? No atual cenário, mostra o Datafolha, os eleitores não convictos de Ciro preferem Lula (35%) a Bolsonaro (27%). Os de Tebet se dividem entre os dois líderes, mas se a candidata mantiver a linha do debate, quando as críticas a Bolsonaro foram muito mais incisivas que a demarcação com Lula, isso pode mudar.

No caso de haver um segundo turno, a situação de Lula se mantém confortável. No Datafolha, Quaest e IPEC a vantagem do petista varia de 15 pontos, no primeiro, a 13, no terceiro. Colocados diante dessa possibilidade, os eleitores de Ciro preferem Lula por larga margem (48% a 27%). Entre os que pretendem votar em Tebet, a preferência também é por Lula, mas a diferença é bem menor – 32% a 28%, enquanto 39% declararam a intenção de anular o voto, segundo o Datafolha. Como Ciro, ao que tudo indica, não deve se posicionar, é razoável dizer que o atual quadro de distribuição de seus eleitores deve permanecer estável. Mas Tebet não irá passear em Paris, o que permite supor um maior aporte de votos para Lula.

Não deixa de ser irônico: Bolsonaro tem que torcer para Ciro e Tebet, mas serão eleitores destes dois que sacramentarão a vitória de Lula em um eventual segundo turno. Problemas de um candidato isolado pelo campo democrático.

Carlos Ranulfo Melo é doutor em Ciência Política, professor titular aposentado do Departamento de Ciência Política da UFMG e pesquisador do Centro de Estudos Legislativos. Autor de Retirando as Cadeiras do Lugar: Migração Partidária na Câmara dos Deputados, coautor de Governabilidade e Representação Política na América do Sul e coeditor de La Democracia Brasileña: Balance y Perspectivas para el Siglo XXI. Tem artigos publicados sobre partidos, estudos legislativos e instituições comparadas com foco no Brasil e nos países da América do Sul.

Esse artigo foi elaborado no âmbito do projeto Observatório das Eleições 2022, uma iniciativa do Instituto da Democracia e Democratização da Comunicação. Sediado na UFMG, conta com a participação de grupos de pesquisa de várias universidades brasileiras. Para mais informações, ver: www.observatoriodaseleicoes.com.br.

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