Por Carlos Ranulfo

A Independência do Brasil tem várias versões. Uma delas fala das margens do Ipiranga, onde D. Pedro I corajosamente nos livrou de Portugal. A partir de então, o país teria seguido sua trajetória com ordem e progresso. 

Ao conferir todo o protagonismo a Pedro I, essa versão nunca se lembra de dizer que o generoso monarca tratou a Independência como um favor feito por Portugal ao Brasil – o país, agora independente, começou sua trajetória devendo 2 milhões de libras esterlinas aos colonizadores. Outros 3 milhões, segundo Jorge Caldeira, em História da Riqueza no Brasil,  foram embolsados “pelo monarca para seus projetos pessoais ou pagamento aos ingleses. No total, um valor que equivalia a algo como 18% do PIB”.

Como se não bastasse, a Independência nos legou um estado escravocrata e monarquista. Sem esses dois traços do Brasil independente não há como explicar a manutenção da brutal desigualdade econômica e social que até hoje marca o país. A monarquia deu o seu melhor para impedir que, ao longo do século XIX, o país se tornasse uma sociedade de mercado e se abrisse à revolução industrial. O resultado foi a estagnação. Novamente é Jorge caldeira quem conta: “em 1800, os Estados Unidos contavam com 5 milhões de habitantes, ao passo que o Brasil tinha 4,4 milhões. Nesse momento o porte das duas economias também era semelhante. A partir daí foi se abrindo um fosso”. No Brasil, a renda per capita, entre 1820 e 1900, passou de 670 para 704 dólares anuais. Nos EUA o salto foi de 1,3 mil para 4 mil dólares. Não por coincidência, diz Caldeira, referindo-se aos Estados Unidos, “a maior aceleração se deu no período posterior à guerra que pôs fim à escravidão”.

Seja como for, quem estuda o tema sabe que a história da Independência não pode ser contada sem acrescentar ao famoso grito, uma série de batalhas travadas não apenas por soldados, mas também por setores populares. Ao “esquecer” esse fato, a versão oficial contribuiu para que ocorresse a primeira captura da Independência. A data transformou-se em exclusividade dos militares, suas paradas e os tanques que, na ocasião, não estivessem soltando fumaça. Muitos, é preciso reconhecer, gostavam e ainda gostam de ver o desfile militar. Colégios treinavam as crianças a marchar. Mas para a esmagadora maioria, o 7 de setembro é bom mesmo quando cai no meio da semana. 

Acabamos de assistir a segunda captura da Independência. Desta vez pelo presidente da República que decidiu aproveitar não apenas a data, mas os recursos públicos, para instalar o seu parquinho. Lembrou-se é claro de tirar a faixa presidencial ao pular de um palco para o outro ao lado, mas a essa altura do campeonato o formalismo é ridículo.

Luis XIV foi imortalizado pela frase “L’État c’est moi”. Bolsonaro prefere dizer que as Forças Armadas são dele. Faz sentido: essa é a parte do Estado que ele mais aprecia. Não por coincidência, o que marca essa segunda captura é que os dois agentes captores estão irmanados. Se Bolsonaro não teve o menor pudor de transformar um evento do Estado em comício de campanha, os militares foram coniventes e desfilaram com suas fardas no ato do candidato à reeleição. Ao comemorar 200 anos, a Independência do Brasil passou vergonha. 

Aqui não está em jogo quanta gente foi aos atos de 07 de setembro. Tinha muita gente. Nem se isso, além de animar a tropa, trará votos para o candidato. É duvidoso que o faça. O que importa é que temos um assassino em série de leis eleitorais a solta. A questão é saber o que o Tribunal Superior Eleitoral fará diante do escárnio. 

Carlos Ranulfo é doutor em Ciência Política, professor titular aposentado do Departamento de Ciência Política da UFMG e pesquisador do Centro de Estudos Legislativos. Autor de Retirando as Cadeiras do Lugar: Migração Partidária na Câmara dos Deputados, coautor de Governabilidade e Representação Política na América do Sul e coeditor de La Democracia Brasileña: Balance y Perspectivas para el Siglo XXI. Tem artigos publicados sobre partidos, estudos legislativos e instituições comparadas com foco no Brasil e nos países da América do Sul.

Esse artigo foi elaborado no âmbito do projeto Observatório das Eleições 2022, uma iniciativa do Instituto da Democracia e Democratização da Comunicação. Sediado na UFMG, conta com a participação de grupos de pesquisa de várias universidades brasileiras. Para mais informações, ver: www.observatoriodaseleicoes.com.br.

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