O que as escolas de samba realmente representam para além da avenida?
Escolas de samba são cultura, trabalho e política, não apenas espetáculo
Por Chris Zelglia
Simplificar as escolas de samba a um mero show televisivo é uma maneira conveniente de esvaziar seu real significado político. A passarela é palco, sim, mas a escola é, antes de tudo, território, organização do povo e luta constante por sobrevivência. Quando o foco do público se restringe apenas ao desfile, acaba ignorando que o samba nasce e se mantém em comunidades que sempre enfrentaram desigualdade, racismo enraizado e descaso do governo.
As escolas de samba surgem como uma resposta unificada à exclusão social nas cidades. Elas foram erguidas por trabalhadores negros, moradores das periferias e imigrantes, que transformaram a cultura em uma ferramenta de união e de luta pela vida. Não se trata apenas de diversão: é a construção da identidade, da memória e da liberdade de expressão.
Durante todo o ano, as quadras funcionam como espaços de convivência, de aprendizado cultural e de geração de renda. Costureiras, músicos, artistas cenográficos, soldadores, coreógrafos e técnicos fazem parte de uma cadeia produtiva que se torna invisível quando o Carnaval é reduzido apenas ao entretenimento. A economia que pulsa nesses lugares raramente recebe a mesma importância ou o mesmo investimento que o espetáculo que ela sustenta.
Agremiações como a Estação Primeira de Mangueira e a Portela mostram como o tema do desfile pode ser uma forma de protesto político. Ao contar histórias esquecidas ou confrontar versões oficiais, a escola questiona a memória coletiva. Cada samba-enredo é também um ato de reivindicação: quem tem o direito de narrar a história do nosso país?
Mas existe uma contradição que precisa ser encarada de frente: o Carnaval movimenta bilhões de reais, promove as cidades no mundo todo e sustenta diversos setores do turismo, enquanto as próprias escolas enfrentam dificuldades financeiras, cortes de verbas e burocracias que limitam sua autonomia. Celebra-se o espetáculo, mas se ignora a base social que o produz.
Essa situação revela um padrão que se repete ao longo da história, a cultura popular é valorizada quando gera lucro ou melhora a imagem de uma instituição, mas é desvalorizada quando pede recursos, espaço ou poder de decisão.
Perguntar o que as escolas representam além do desfile é, portanto, questionar sobre a distribuição de investimentos públicos, o direito à cultura e o reconhecimento dos saberes que vêm das periferias. É questionar por que manifestações que nasceram em territórios negros e populares ainda precisam provar sua importância, mesmo gerando um impacto econômico e cultural que pode ser medido.
As escolas de samba são muito mais do que diversão. São organizações coletivas que unem memória, trabalho, economia e identidade. E talvez o incômodo que elas causam venha justamente disso: elas mostram que a cultura popular não é apenas um enfeite, é a base da sociedade, é uma forma de expressar opiniões políticas e é uma luta por um futuro melhor.



