O que acontece com o sujeito quando ele se fantasia? Uma leitura psicanalítica do Carnaval
Fantasia revela desejos e conflitos. No Carnaval, o sujeito negocia identidade e liberdade.
Por Chris Zelglia
A fantasia é um dos atos mais típicos do Carnaval. À primeira vista, pode parecer só uma diversão ou forma de arte. Contudo, sob um olhar da psicanálise, usar uma fantasia aciona processos ligados à identidade, ao anseio e ao modo como o sujeito interage com os outros e consigo mesma.
A máscara não só esconde, mas mostra. Ao tirar a pessoa da sua rotina, cria-se um espaço simbólico no qual ela pode testar quem é, criar histórias e expressar seus desejos de outros jeitos. Não é sobre deixar de ser quem é, mas sobre viver outras formas de ser em um mundo simbólico compartilhado.
Podemos pensar nisso como um baile de máscaras, onde a pergunta “quem é você?” não tem resposta final. Ao conhecer alguém, a identidade nunca é totalmente clara. As relações, sejam de afeto, amor ou sexo, são influenciadas por ideias, sonhos e identificações que vão além da aparência. O Carnaval só deixa mais claro algo que já faz parte da vida: o encontro nunca é certo, e o amor é sempre uma aposta.
A psicanálise entende que a pessoa é feita de impulsos que não agem de forma simples ou consciente. Assim, a máscara pode ser vista como parte de um processo de repetição, não só como uma imagem, mas como algo que molda como os desejos e as relações se repetem. A repetição não copia algo, mas produz sentido. Ela liga o sujeito a vivências, emoções e lembranças que fazem parte da sua história e das suas escolhas.
Dessa forma, os encontros do Carnaval, principalmente no amor e no sexo, não são eventos isolados. Eles conversam com o passado, com marcas que não vemos e com o que volta de novas formas. O que se repete não é só o comportamento, mas a forma como o anseio se organiza.
Porém, a máscara não é só liberdade. Ela também mostra tensões. Ao mesmo tempo que permite experimentar, pode revelar limites do que a sociedade imagina, repetir clichês ou mostrar papéis sociais já existentes. Usar uma fantasia pode ser uma forma de ser único, mas também pode ser seguir roteiros que já existem antes da pessoa.
Isso nos leva a perguntas importantes: o que procuramos quando escolhemos uma máscara? Que histórias pessoais influenciam quem somos? O que vemos, ou evitamos ver, quando conhecemos alguém?
A psicanálise não tem respostas prontas para essas perguntas. Seu objetivo principal não é explicar o indivíduo por completo, mas dar espaço para que ela assuma sua história. Se o Carnaval permite mudar de máscara, viver papéis e ter fantasias, ele também oferece a chance de reconhecer algo sobre si nesse processo.
Talvez a força desse tipo de vivência esteja justamente nisso: participar da folia, selecionar uma fantasia e, por fim, arcar com as consequências do que foi experimentado, percebido ou despertado. Pois a brincadeira pode acabar, mas o que ela transforma dentro de cada um nem sempre some quando a festa termina.
Assim, o Carnaval não se resume a uma comemoração em grupo. É, também, um palco onde anseios, ecos do passado e novas conexões se unem, mostrando que, escondido em cada máscara, existe alguém em constante transformação.
A questão final que se coloca é: ao desfazermo-nos da fantasia, voltamos exatamente ao ponto de partida emocional e psicológico, ou algo, por menor que seja, foi transformado em nós?
E aí? O que você me conta?



