“O poder da arte é esgarçar a natureza humana e falar do que nos habita”,afirma Kelner Macêdo
Kelner Macêdo fala sobre Tremembé, o desafio de viver Cristian Cravinhos e o poder do audiovisual em debate social.
Por Kaio Phelipe
Kelner Macêdo é um ator paraibano que vem se destacando no audiovisual brasileiro. Em Tremembé, série dirigida por Vera Egito e marcada por temas densos e personagens de alta complexidade, o ator entrega uma das atuações mais impactantes de sua carreira ao interpretar o assassino Cristian Cravinhos. Mais do que um desafio profissional, o papel surgiu em um momento-limite de sua trajetória, quando a continuidade no audiovisual já despertava muitas dúvidas.
Em entrevista exclusiva à Mídia Ninja, Kelner fala sobre o processo de construção do personagem, a repercussão junto ao público e a potência do audiovisual como ferramenta de debate político. Ele também reflete sobre a importância da valorização do ator profissional, o trabalho coletivo por trás do sucesso de Tremembé e suas experiências formadoras no cinema, como em Corpo elétrico, de Marcelo Caetano.
Como foi interpretar Cristian Cravinhos?
Foi um desafio — não tinha como ser diferente. Eu estava com muitas dúvidas sobre a minha carreira, muito insatisfeito, descontente, desacreditado mesmo. Havia feito Guerreiros do Sol (João Gomez e Thomaz Cividanes) em 2023, e depois não rolou mais nada. Foi um acúmulo de nãos. Pensei comigo: foi lindo até aqui, mas foi isso que deu. Até que chegou Tremembé, e eu estava no meu limite, prestes a desistir.
Conversando com a Vera Egito, com quem eu já tinha trabalhado na série Todxs Nós, falei que estava muito desestimulado, que não acreditava mais na minha carreira no audiovisual, que outras pessoas estavam ocupando o lugar de atores profissionais e que o mercado estava muito bagunçado. Ela me disse para não desistir, para ter calma e segurar a onda.
Foi quando chegou o teste para interpretar, primeiro, o Luka e depois o Mariano, em Tremembé. Uma semana depois, ela falou: “A gente está pensando que o Luka e o Mariano são mais jovens, mais garotos, mas pensamos em te testar para o Cristian Cravinhos”.
Dar conta da complexidade desse personagem virou um desafio pessoal. Eu sabia que possuía ferramentas para isso, mesmo entendendo que seria complexo, porque a gente trabalha muito a partir de impulsos ficcionais, enviando informações para o nosso sistema e fazendo o corpo acreditar nesses estímulos. E todos os estímulos em torno dessa série são densos, pesados, hediondos.
Me dava ansiedade saber que eu tinha as ferramentas para realizar o trabalho e, ao mesmo tempo, compreender a dimensão dessa construção. Ela passava por encontrar um corpo que se aproximasse do Cristian da época retratada, construir uma voz diferente da minha — com uma embocadura mais grave, mais rouca —, algo que fui buscando ao assistir às entrevistas dele. Trouxe um personal trainer para trabalhar comigo diariamente, ajudando a modelar o corpo do personagem, e também uma fonoaudióloga, para construir a voz, o sotaque e a prosódia. O Cristian é paulistano, eu sou paraibano, então existe uma lacuna imensa entre a gente.
Por ser uma pessoa que de fato existe, as comparações são inevitáveis. No início do processo, eu me achava muito diferente dele. Mas, quando fomos encontrando a caracterização, comecei a me olhar e a perceber que talvez não sejamos tão diferentes fisicamente.

Como tem sido a repercussão do público?
Foi uma surpresa para todo mundo. Interpretando o Cristian, apresento um trabalho bem diferente de tudo o que já fiz. As pessoas se surpreendem muito, inclusive quando conto que sou paraibano. Aí entendo que o trabalho com a fonoaudióloga e com a prosódia funcionou.
Quando me encontram, dizem que pareço outra pessoa. Essa reação é maravilhosa para mim: é a resposta do empenho que tive, da labuta que foi, da busca obsessiva e incansável durante todos os dias do processo.
Durante as filmagens, é muito difícil imaginar o resultado final ou ter dimensão da reação do público. No dia seguinte à estreia, fui ao sacolão atrás da minha casa, e as pessoas me olhavam. O caixa perguntou se era eu na série. Aquilo chegou a dimensões que eu não esperava.
Uma pauta levantada a partir do seu trabalho foi a questão da orientação sexual. O audiovisual é uma ferramenta para discutir causas sociais e políticas?
O audiovisual é uma janela de proposição de diálogo. E isso é algo sobre o qual não temos muito controle. Podemos até prever discussões em torno de uma cena ou de determinados temas, mas nunca controlamos o alcance disso.
É muito interessante observar as discussões que a série gerou entre o público, discussões que ultrapassam os limites da própria obra. Alcançamos as pessoas de tal maneira que elas começaram a levar esses assuntos para a vida.
Um homem que usa calcinha, bissexualidade, sistema carcerário, complexidade humana. A lacuna que existe entre uma coisa e outra.
O poder da arte — o poder disso que a gente fez — é realmente esgarçar a natureza humana e falar do que nos habita. Inclusive sobre usar calcinha, estar preso e, nessa condição, se interessar por outro homem e viver essa relação. Inclusive sobre ser uma mulher que vive uma vida heterossexual fora da prisão e, ao chegar lá dentro, se interessar por outra mulher, seja pelo motivo que for.
Propor conversas é muito potente.

Quais fatores foram fundamentais para o sucesso de Tremembé?
Existe em Tremembé uma força motriz que nasce da junção de muitos profissionais, cada um colocando camadas fundamentais na construção dos personagens.
A série deu muito certo também por conta dos atores, que se doaram, se rasgaram, aceitaram o desafio, deram as mãos e pularam no abismo juntos. Foi um trabalho coletivo, de muita parceria. O ambiente de filmagem era silencioso, concentrado e agradável, apesar do tom difícil da série e dos temas brutais e pesados.
A resposta do público reflete diretamente a qualidade do trabalho dos atores. E é importante abrir esse diálogo com o mercado, com as produtoras, com quem contrata e pensa os projetos.
É fundamental que atores profissionais ocupem o lugar de atores. Quando aparecemos na tela, aparece tudo o que somos, tudo o que nos compõe, todas as ferramentas que temos. Estudamos para isso, nos preparamos durante anos e levamos essa profissão a sério.
É muito triste ver o mercado optar por grandes nomes de outras áreas — seja da música ou da internet —, pessoas que não dominam a técnica necessária para lidar com a exigência e a complexidade de um personagem.
É preciso olhar com mais cuidado para essa questão e valorizar os atores. É uma profissão muito difícil e que tem sido banalizada.
Como foi trabalhar com o diretor Marcelo Caetano, no filme Corpo elétrico?
Hoje, olho para esse trabalho com muito orgulho. Diferentemente de Tremembé, em Corpo elétrico fizemos um processo de aproximação. Pegamos o personagem, observamos o que havia de diferente entre mim e ele e, depois, fundimos tudo até virar uma coisa só. O Marcelo trabalhava muito a partir de dispositivos de improvisação.

Uma vez, cheguei ao set e ele perguntou se eu havia lido o roteiro. Respondi que sim, e ele pediu para eu nunca mais ler — e começar a improvisar.
Foi um processo que me formou profundamente como ator. Posso dizer que minha escola de cinema foram Corpo elétrico e Marcelo Caetano. Ele me trouxe muitas referências, me apresentou muito do audiovisual e compartilhou generosamente o que sabe. Me deu uma lista com 25 filmes para assistir antes das filmagens, para que eu entendesse linguagens, temáticas, tons, atuações, diferenças.
Existe um Kelner antes e depois de Corpo elétrico, assim como existe um antes e depois de Tremembé. São dois pilares muito específicos da minha carreira.
Quais serão seus próximos projetos?
Teremos o Cristian Cravinhos na segunda temporada de Tremembé.
Também vem aí Fúria, série da Netflix filmada no Rio de Janeiro em 2025. É um trabalho sobre o universo do MMA. Interpreto um lutador — mais um personagem completamente diferente de tudo o que já fiz.



