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‘O Pianista’ x ‘O Brutalista’: semelhanças, diferenças e o caminho de Brody para mais um Oscar
Do impacto físico ao emocional, Adrien Brody se reinventa em narrativas sobre trauma e resiliência.
Por Cath Martins
Adrien Brody é conhecido por centrar sua carreira em torno de personagens intensos e emocionalmente desafiadores. Ao longo dos anos, consolidou-se como um ator que mergulha profundamente em cada papel, explorando as nuances de personagens que enfrentam situações extremas. De sua icônica interpretação em O Pianista (2002) ao recente O Brutalista (2024), o nova-iorquino reflete no cinema uma busca por histórias que desafiam tanto o público quanto ele mesmo.
O Pianista
Quando interpretou Wladyslaw Szpilman, um pianista judeu-polonês tentando sobreviver ao Holocausto, Brody passou por uma preparação intensa. Além de perder peso drasticamente para o papel, ele abriu mão de sua vida pessoal para se aproximar da solidão e do desespero. Essa entrega teve fortes consequências: anos depois, o ator revelou que desenvolveu distúrbios alimentares e enfrentou episódios de depressão e ansiedade após o término das filmagens.
A atuação lhe rendeu reconhecimento mundial e o Oscar de Melhor Ator, fazendo dele o mais jovem a vencer a categoria, à época com 29 anos. Mas o impacto de O Pianista ultrapassou os prêmios: o filme se tornou uma referência no cinema ao retratar os horrores da Segunda Guerra Mundial através de uma história individual, íntima e visceral.
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O Brutalista
Duas décadas depois, Brody volta a interpretar um personagem moldado pela guerra e pelo deslocamento. Em O Brutalista, ele dá vida a László Tóth, um arquiteto húngaro que tenta recomeçar nos Estados Unidos após fugir da Europa devastada pelo nazismo. O personagem enfrenta um país onde o sonho americano pertence somente aos estadunidenses.
Ao contrário de O Pianista, em que a sobrevivência era um objetivo imediato, O Brutalista explora a construção de um legado. Se antes Brody interpretou um homem tentando preservar sua própria existência, agora ele dá vida a alguém que luta para deixar sua marca no mundo.
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Diálogos entre os dois filmes
Apesar das diferenças narrativas, os dois filmes compartilham um tema central: a resiliência em meio à adversidade. Ambos os personagens carregam o trauma da guerra e da perda, mas enquanto Szpilman atravessa os destroços de uma cidade arruinada, Tóth enfrenta barreiras invisíveis em uma sociedade que nem sempre acolhe estrangeiros.
A atuação de Brody também é um destaque nos dois papeis. O silêncio, os gestos contidos e o olhar carregado de angústia são marcas registradas de sua interpretação, transmitindo emoções profundas apenas com o olhar.
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A polêmica do uso de inteligência artificial
Além das comparações entre os dois filmes, O Brutalista gerou discussões pelo uso de inteligência artificial em algumas partes da produção. A tecnologia foi empregada para ajustar o sotaque húngaro dos atores e para gerar imagens dos projetos arquitetônicos do protagonista. Embora a equipe tenha afirmado que a IA foi usada apenas como suporte, a decisão levantou debates sobre os limites do uso de tecnologia na criação artística.
Com a crescente presença da inteligência artificial no cinema, O Brutalista se torna parte de uma discussão maior sobre até que ponto a tecnologia pode ou deve interferir na autenticidade de uma obra. O impacto dessas escolhas talvez não comprometa a experiência do espectador, mas coloca a indústria diante de novas questões sobre ética e criatividade.
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De O Pianista a O Brutalista, Adrien Brody prova que sua carreira é marcada por personagens complexos e sem dúvidas intensos. Se um filme mostrou a brutalidade da guerra em sua forma mais imediata, o outro expõe as marcas deixadas pelo exílio e pela exclusão social no pós-guerra. Em ambos, o ator entrega performances que representam o trauma, consolidando seu nome entre os atores mais potentes do cinema contemporâneo.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.