Por Lohuama Alves

‘É preciso dar um jeito, meu amigo’. Como ler esse trecho da canção de Erasmo Carlos e Roberto Carlos e não lembrar automaticamente do filme ‘Ainda Estou Aqui’?

A sétima arte sempre encontra maneiras criativas de usar a música para contar histórias de uma forma mais visceral e emocional. Em Ainda Estou Aqui, o mais recente filme de Walter Salles, a trilha sonora não é apenas um acompanhamento da narrativa, mas se torna, de fato, um personagem essencial que intensifica a carga emocional do filme e contribui para a complexidade da experiência vivida pelos protagonistas.

A trilha do filme foi cuidadosamente tecida pelo Warren Ellis, músico e compositor australiano, conhecido pelos seus trabalhos com  Nick Cave e por ter participado de outras trilhas famosas, como dos filmes “Django”, “Back to Black” e “Blonde”.

A trama, que se baseia na história do desaparecimento do ativista político Rubens Paiva durante a ditadura militar brasileira, explora temas de luto, perda, memória e justiça. Mas é na construção do enredo emocional do filme que a música  se insere de maneira singular, tornando-se um elo essencial entre o passado e o presente, o sofrimento e a esperança. A trilha sonora não apenas complementa a história, mas funciona como um elemento fundamental, emitindo a dor, o vazio e o processo de cura.

Desde os primeiros momentos de Ainda Estou Aqui, a música se apresenta de forma discreta, mas profundamente imersiva, guiando os espectadores por um mundo marcado pela dor do desaparecimento e pela busca incessante por respostas.

A trilha sonora da obra tem o poder de transportar os espectadores diretamente para o passado, conectando-os com as emoções dos personagens. Em muitas cenas, o uso sutil da música transmite a ideia de uma ausência imensa, uma lacuna deixada pela perda e pelo silêncio imposto pela ditadura. A música não é apenas uma representação da dor, mas também uma forma de manter a memória, algo que os personagens não conseguem mais acessar diretamente, mas que a trilha ajuda a evocar.

Em muitos momentos do filme, a música vai além de seu papel instrumental e se torna uma catalisadora de emoções, guiando o espectador por sentimentos de agonia, perda e, por fim, um vislumbre de reconciliação. O diretor Walter Salles consegue utilizar a música de maneira estratégica para intensificar os momentos de revelação emocional, amplificando o impacto da narrativa. Em cenas de descoberta e confronto com a verdade, a música atinge seu pico, ajudando a extrair do público a emoção crua que acompanha a história.

Ao colocar a trilha sonora em sintonia com a viagem emocional dos personagens, Salles transforma a música em uma presença constante, que, muitas vezes, se comunica diretamente com os sentimentos mais íntimos do espectador. A música atua como uma personagem que, sem ser vista, fala de uma dor universal e atemporal.

Ainda Estou Aqui é um filme em que a trilha sonora não apenas complementa a história, mas a intensifica, dando ao público uma experiência cinematográfica imersiva e profundamente emocional, e reafirmando o poder da música como uma linguagem universal capaz de contar histórias tão complexas e humanas quanto a do luto e da memória.

Músicas da Trilha de ‘Ainda Estou Aqui’:

“A Festa do Santo Reis” – Tim Maia

“Jimmy, Renda-Se” – Tom Zé

“É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo” – Erasmo Carlos

“Acauã” – Gal Costa

“Je T’aime Moi Non Plus” – Serge Gainsbourg & Jane Birkin

“Alexander” – Philip May, Alan Walker, Richard Taylor Clifford, John Povey

“Take Me Back to Piauí” – Juca Chaves

“Baby” – Os Mutantes

“Agoniza, Mas Não Morre” – Nelson Sargento

“As Curvas da Estrada de Santos” – Roberto Carlos

“Como Dois e Dois” – Roberto Carlos

‘The Ghetto” – Donny Hathaway

“The Fight” – Johann Johannsson

“Fora da Ordem” – Caetano Veloso

“Petit Pays” – Cesária Évora

“Um Índio” – Caetano Veloso

“Falsa Baiana” – Gal Costa

Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.