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O nariz de Adrien Brody e a violência sexual em ‘O Brutalista’
Por que a violência sexual contra um homem nos choca mais e o que o nariz de Adrien Brody tem a ver com isso?
Por Daniele Agapito
1947. László Toth está seminu, encostado na parede de um inferninho qualquer de Nova York. Uma prostituta, de joelhos, tenta abrir o zíper de sua calça para realizar um handjob, ou blowjob, ou algum outro job do tipo. Vemos alguns pelos pubianos saltando da ceroula. A fricção da cena continua até que, enfim, a garota se levanta, encara o cliente e diz:
— Eu não gosto do seu rosto, é feio.
Ele responde que também não gosta do que vê no espelho. E, em comum acordo, se beijam.
O protagonista de ‘O Brutalista’ é um homem judeu fictício, arquiteto visionário, formado na Bauhaus, sobrevivente do Holocausto. É interpretado por Adrien Brody, indicado ao Oscar de Melhor Ator deste ano. Como sabemos, o personagem chega aos Estados Unidos em situação precária, com o nariz provavelmente fraturado. Por um tempo, a história gira em torno desse hematoma. O incômodo é tanto que ele considera consultar um especialista e toma remédios fortes para abafar a dor. Depois, passa a se drogar sistematicamente.
Mais adiante, quando já havíamos nos distraído do assunto e a história corre sob o feitiço da propaganda do American Dream — desta vez, na Filadélfia —, László leva outro golpe. Bem. No. Meio. Do. Nariz.
Logo percebemos que o nariz do protagonista é o ponto-chave que revela o pensamento arquitetônico por trás da obra cinematográfica e toda a questão estética sobre o que percebemos como belo. Uma percepção atada a uma escola artística, a um tempo, a um grupo de elite, aos manifestos que surgem vez ou outra na pintura, na arquitetura, na moda, nas revistas especializadas — que configuram e desconfiguram, que afunilam, pressionam e afetam, quase sempre, a mulher.
Voltamos ao nariz de Adrien Brody com sua forma impopular, escultórica, expressiva, assimétrica, monumental e sexy. Se fosse um movimento arquitetônico, seria ele próprio um esboço brutalista? Fiz essa pergunta para minha irmã, mestre em arquitetura e arqueologia. Ela disse que o nariz dele tem, de fato, umas curvas e umas quebras interessantes que remetem às pontes do Sesc Pompeia, um exemplo de arquitetura brutalista no Brasil.
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É sabido que os arquitetos mundo afora não estão muito satisfeitos com a fidelidade das representações do brutalismo nas edificações mostradas no filme. No entanto, meu foco de atenção é mesmo o nariz. Você pode pensar que é asneira, frivolidade, questão de aparência. Mas não.
Sobretudo se você for judeu e teve seu nariz estigmatizado e caricaturado em representações grosseiras, antissemitas, num espaço de tempo historicamente curto. Basta lembrar que, exatos 132 anos atrás, circulava desavergonhadamente o livro The Operated Jew, distribuído pela Alemanha nazista. Uma sátira medonha que apresentava a cirurgia plástica como “cura” para o judaísmo e o fim do nariz adunco no mundo. Isso explica os ânimos exaltados e os questionamentos em relação à real necessidade da prótese nasal de Bradley Cooper em ‘O Maestro’, em pleno Oscar de 2024. Quem não lembra?
Mas não posso esquecer da mulher: Erzsébet, interpretada por Felicity Jones.
Na segunda metade do filme, surge Erzsébet — a quase esquecida — judia, de nariz arrebitado, jornalista e intelectual, que ficou para trás também em razão do Holocausto. Ela chega aos Estados Unidos fragilizada, numa cadeira de rodas, e retorna ao posto de esposa de László. Logo se vê que Erzsébet anseia por um toque, pela pele, pela carne do marido, tanto tempo afastado. Ela chega a implorar pela retomada da vida sexual a dois em vários momentos.
Por alguma razão, ele a evita. Reiteradamente. Mas Erzsébet insiste. Diz aos quatro ventos que sente um frisson só de ouvir a voz de László Toth nos corredores e permanece obstinada, devota, apaixonada.
Noutra cena, bem mais adiante, novamente na cama, ela diz que sabe o que ele fez na sua ausência. Fala dos inferninhos, das prostitutas, dos flertes. E diz que está tudo bem, que eles podem seguir adiante como casal. Então, ele cobre o rosto de Erzsébet com um tecido fino e, assim — numa asfixia, sem encará-la —, consegue consumar o ato.
Havia um motivo adicional para que László não conseguisse encarar a mulher. Algo pouco visto no cinema: um homem estuprado. Naturalmente, não se compara à cena de nove minutos a que foi submetida Monica Bellucci em ‘Irreversível’, um marco repugnante da sétima arte. Mas o suficiente para causar desconforto na sala de cinema.
Na cena, László foi abordado enquanto estava drogado, caído num colchonete sujo de um túnel italiano, vulnerável.
— Por que vocês, judeus, ficam tão vulneráveis? Só porque é bonito acha que vale alguma coisa? Você não é nada, você é um cão.
Essas são algumas das falas fortes que me recordo da cena, ditas pelo mecenas do arquiteto. Um homem muito rico, que prometeu investir no artista. Que, ao contrário da prostituta do inferninho de NY, reconhece a beleza no rosto do protagonista, sabe de seu valor no mercado. Que, portanto, e por conveniência, encomendou a obra de uma igreja protestante imensa, nas colinas do seu vasto terreno. Que dizia repetidamente achar suas conversas intelectualmente estimulantes.
Um capitalista selvagem, abusador, cínico, que, no fundo, invejava ao mesmo tempo que desprezava o arquiteto judeu. Um histérico, homem de família rica e tradicional, que desejava consumir o protagonista na tentativa de antropofagizar um talento, uma aura e um intelecto que não lhe foi dado de herança.
Quando eu era mais nova, achava estranho o volume de cenas de violência sexual contra a mulher no audiovisual. Me perguntava: para quem eram destinadas essas imagens?
Para meu deleite, não eram. Nem para o de minha mãe, minhas avós ou minha já citada irmã arquiteta. Tampouco eram feitas para vingar quem passou por isso ou para prestigiar atrizes que, não raramente, se sentiram violadas, coagidas, constrangidas num set de filmagem. Acompanhamos isso no movimento Me Too, fazendo emergir uma nova profissão no cinema: o coordenador de intimidade.
Tentei puxar na memória um personagem masculino violado em cena. Mas homem violado nas representações cinematográficas é um evento raro. E, por ser raro, há quem considere mais chocante.
O que é doentio. Achar mais aceitável assistir uma personagem feminina nessa posição. Como se houvesse um acordo silencioso, tático, insistente e contumaz, sobre o que nos deve impressionar.
Então, a ideia de que o filme gira em torno do nariz de László Toth começa a desaparecer. Assim como as discussões sobre o filme ser ou não fiel à arquitetura brutalista.
Penso nesse homem-objeto, largado, drogado e vendido. Penso nessa submissão masculina inusitada. Na sua baixa autoestima. Na dificuldade do personagem em desmanchar a parceria tóxica ou impor qualquer limite ao algoz milionário — sua fonte de renda, ascensão e entrada no novo mundo.
Um ingresso caro para acessar o American Dream.
Em 1947, László Toth, arquiteto judeu da ficção, buscou, através de sua obra, recriar uma sensação de pertencimento, de recuperar sua identidade, de “estar em casa”.
Esse homem, nesse papel, que caberia como uma luva nas mãos de uma mulher.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.