
O legado de Ana Claudino, a Sapatão Amiga: visibilidade e luta
Para Ana, falar de visibilidade lésbica é também falar de ancestralidade. Confira entrevista completa
Por Diego do Subúrbio
Agosto é mês de celebrar o orgulho e a visibilidade lésbica, um período de reafirmação de histórias, afetos e lutas que atravessam a vida de tantas mulheres no Brasil. Nesse contexto, Diego do Subúrbio conversa com Ana Claudino, publicitária, criadora de conteúdo e do projeto Sapatão Amiga, mestra em Políticas Públicas em Direitos Humanos pela UFRJ, umbandista e geminiana assumida. Ana tem se destacado como uma voz potente nas construção de narrativas que fortalecem a comunidade lésbica, desmitificando preconceitos e trazendo debates muitas vezes silenciados. Nesta entrevista, ela reflete sovre representatividade, espiritualidade, raça, política e, sobretudo, sobre a importância de existir e resistir lésbica no Brasil de hoje.
Como a sua trajetória como mulher negra, lésbica e de religião de matriz aficana atravessa e inspira o conteúdo que você cria nas redes sociais?
ANA: A minha trajetória como mulher negra, lésbica, de religião de matriz africana atravessa tudo o que eu faço na vida, ne. A partir do momento que eu entendo meu corpo como um corpo político, né, tudo que eu fizer vai ser politico, querendo ou não. Vai estar presente em mim. e quanto mais eu tô ligada, eu sou médium de umbanda, quanto mais eu estou conectada dentro da minha espiritualidade, mas ela se faz viva no meu dia a dia, mas ela me ajuda a ter contato com a minha ancestralidade, de certa forma. Então isso atravessa muito sobre o que eu falo, porque não tem como ser um corpo político e não levantar, querendo ou não, assuntos que são ligados a esse corpo político. Não tem como a gente falar de pautas, sem racializar de certa forma, sem levantar para a questão do subúrbio, sem levantar para a questão de morar na América Latina, né? Então eu acho que isso tudo atravessa muito o que eu faço, né, porque eu comecei Sapatão Amiga lá em 2017, quando era apenas uma novinha, muito pra falar das minhas experiências, porque eu não me via na internet, eu não via pessoas iguais a mim, né, iguais mim falando sobre as coisas, né. Então meio que meu conteúdo, ele vem muito daí, ele vem muito sobre o que eu vivo, porque a minha criatividade está ligada muito ao que eu estou vivendo. Eu não consigo falar e fazer sobre coisas que eu não estou vivendo, né, coisas que não passam pelo meu dia a dia, pelas minhas vivências. Então acho que vem muito desse lugar, saca?
Quais foram os maiores desafios que você enfrentou dentro e fora das redes sociais, e de que forma essas vivências moldaram sua voz enquanto comunicadora e militante?
ANA: Nossa, essa segunda pergunta daria um livro. O principal desafio, assim que eu vi logo de cara quando comecei a fazer Sapatão Amiga, era querer produzir conteúdo para internet, sem acesso a equipamento. Na época não era como hoje em dia, não tinha celulares que pudessem fazer tudo, até tinha, mas era caro. Não que eu hoje também não seja caro, mas hoje existem outras formas de você ter acesso a ferramentas de produção. Então eu comecei muito na gambiarra, na força da vontade, no sonho de construir uma comunicação sapatão, suburbana, latina, né. E então esse foi um dos principais desafios. O outro desafio também foi muito dessa solidão, por um tempo, de não ter outras criadoras de conteúdo parecidas comigo para trocar ideia, pra conversar sobre a criação de conteúdo.
Então acho que foi um dos principais desafios que eu encontrei logo no início. Depois, você entende como funciona a lógica dos algoritmos, do mercado. A gente está tendo uma decaída das pautas da diversidade. As pessoas, as marcas, as empresas, não estão levando em consideração nossas vivências. Entre 2018 e 2020 houve um boom relacionado à diversidade. Então esse é um dos desafios. O que me fez correr para a vida CLT, é a questão de se manter financeiramente construindo conteúdo na internet. Porque as plataformas não são nossas amigas, elas não estão ali para favorecer o nosso trabalho. É muito difícil, adoecedor. Você trabalha para um robô que você não sabe o que ele quer, e que muda o tempo todo.

Como você enxerga o papel das mulheres negras lésbicas dentro do movimento LGBTQIAPN+, e quais são as urgências que ainda precisam ser escutadas e priorizadas?
ANA: Eu gosto muito de trazer pra questão do papel das mulheres negras do movimento LGBTQIAPN+. Eu sempre trago a frase da Audre Lorde, que é a minha bussola guia na vida, “ No Movimento Lésbico, eu sou negra, No Movimento Negro, sou lésbica”. Então é uma importância que ainda tem muita coisa pra ser escutada, ne, tipo, ainda é muito difícil entender essa interseção entre racialidade e a sexualidade, né. E então tem muita coisa para ser ouvida. Então preciso ter um exercício de escuta ativa para conseguir refletir, e que também a gente tenha abertura dentro do movimento LGBTQIAPN+ branco, para pautar as nossas vivências, nossas questões. Também colocaria como urgências, moradia, acesso a saúde, educação, acesso ao mercado de trabalho, direitos básicos que muitas de nós ainda não tem. Então acho que eu começaria a partir desse lugar.
O mês do orgulho e da visibilidade lésbica tem sido um marco de luta e afirmação. O que esse período significa para você, e como ele pode fortalecer tanto a memória quanto as conquistas das mulheres lésbicas, especialmente negras, dentro e fora das redes sociais?
ANA: Falar de visibilidade lésbica, é falar de ancestralidade, é honrar nossa históra, lembrar das que vieram antes nós, entender que também nós somo corpos politicos, qu estão aqui construindo a história das futuras ancestrais. Eu acho que é muito deste lugar, assim, né. E pensar nisso em lésbicas vivas, felizes, amando, trabalhando, vivendo, tendo direitos, eu acho que esse período significa, isso, celebração, mas também de retornar a história, a nossa ancestralidade e afirmação das nossas lutas.

Que caminhos você sonha trilhar daqui pra frente, tanto na sua produção de conteúdo quanto nas lutas que você abraça, e qual legado você gostaria de deixar para as próximas gerações de mulheres lésbicas negras?
ANA: Nossa, essa última pergunta é reflexiva, hein. Eu espero fazer o meu melhor, com o tempo que eu tenho, entregar o que tiver dentro da minha capacidade nessa encarnação, principalmente com os meus textos. Eu espero que meus textos ajudem pelo menos uma pessoa em algum momento da vida, que seja, eu já vou ter cumprido minha missão nessa
terra. Eu acho que é isso, assim, né. tipo, eu me vejo cada vez mais produzindo conteúdos que atravessam, que eu acredito, né, que estão dentro de uma ética de cuidado, de uma ética decolonial. E eu acho que é isso.