O incômodo como linguagem em ‘O Drama’, de Kristoffer Borgli
Longa com Robert Pattinson e Zendaya transforma uma crise íntima em reflexão sobre ética e exposição
Por Lilianna Bernartt
Alguns filmes oferecem respostas. Outros, perguntas. E há aqueles — mais raros, que oscilam entre os dois campos e retiram de nós qualquer possibilidade de conforto.
Dentro disso, é possível dizer que “O Drama”, de Kristoffer Borgli, é, sem dúvida, o filme mais incômodo do ano — até o momento, pelo menos. Não porque aposta apenas no choque, mas porque constrói um terreno instável em que afeto, moralidade e identidade deixam de operar de forma reconhecível.
O filme parte do simples — um casal apaixonado, interpretado de forma impecável por Robert Pattinson e Zendaya, está a poucos dias do casamento. Eles têm intimidade, cumplicidade e toda a ideia de um futuro feliz já desenhada. E então, em um jogo aparentemente inofensivo entre amigos — “qual foi a pior coisa que você já fez?” — algo se rompe. E não de forma sutil, mas sim como uma explosão imprevisível.
O que o filme faz a partir daí não é narrar a crise do casal, mas expor uma fissura. E isso faz toda a diferença: Borgli não está interessado em construir um drama tradicional. Ele desmonta, tensiona, desloca. O que poderia ser um conflito íntimo entre duas pessoas se transforma em um campo de observação sobre como nós, seres humanos, reagimos — individual e coletivamente — diante do que não sabemos nomear.
Existe um deslocamento fundamental que o filme opera: o amor deixa de ser uma experiência privada e passa a ser mediado pelo olhar externo. A revelação, combustível para a explosão, se dá diante de terceiros. E isso muda tudo. Não apenas o que é dito, mas a forma como o fato é absorvido. O julgamento passa a ser compartilhado, performado, negociado. Como se a moral também fosse um exercício coletivo, sujeito à aprovação e à rejeição.
Esse mecanismo, aliás, não é novo na filmografia de Borgli — em “Sick of Myself”, a identidade se constrói pela necessidade de ser vista. Em “O Drama”, essa lógica se infiltra no espaço mais íntimo possível: o amor. E o que está em jogo não é apenas quem aquela pessoa é — mas quem ela se torna quando é atravessada pelo olhar alheio.
O casamento, nesse contexto, deixa de ser um rito afetivo para se revelar um espetáculo social, um espaço de validação pública em que o íntimo precisa caber dentro do aceitável. Borgli está interessado em desmontar essa engrenagem — em mostrar como até mesmo aquilo que acreditamos ser absolutamente privado está, na verdade, submetido a uma lógica de exposição e julgamento.
Mas há algo mais profundo e mais desconcertante acontecendo. Porque o filme não se organiza para oferecer respostas. Ele não investiga no sentido tradicional nem aprofunda psicologicamente aquilo que revela. E isso, à primeira vista — e talvez também à segunda — soa, de certa forma, como se estivesse lidando com algo grande demais sem dar conta de sustentar o peso.
E talvez esteja mesmo. Mas há também a possibilidade de que essa insuficiência seja, em si, um gesto.
Borgli trabalha no limite entre o incômodo produtivo e o desconforto que desestabiliza. Ele não organiza o pensamento do espectador. Não conduz. Não explica. Ao contrário: interrompe, suspende, cria lacunas e, ao fazer isso, transfere a responsabilidade da elaboração para quem assiste.
Saímos do filme sem um lugar seguro onde nos apoiar. E isso é raro. Porque há uma tentação constante — no cinema contemporâneo, sobretudo — de explicar, de justificar, de organizar o caos em uma estrutura inteligível. “O Drama” recusa esse caminho.
E é nesse limiar que o filme se torna mais interessante — mas também problemático. Graves questões são levantadas com força sem encontrar tempo nem densidade para desenvolvimento. A narrativa avança — o casamento se aproxima — e a urgência dramática parece substituir a necessidade de investigação. Logo, o incômodo infla. Porque o filme não resolve aquilo que abre, não fecha a ferida, não organiza a experiência. Ele deixa o espectador em suspensão — tentando dar sentido a algo impossível de interpretação imediata.
E, no centro de tudo, há uma pergunta que se impõe: até que ponto é possível conciliar o que sentimos por alguém com aquilo que descobrimos sobre essa pessoa?
Não se trata apenas de amor, mas sim de limite. De ética. De convivência. De quem somos quando confrontados com o outro em sua dimensão mais opaca. “O Drama” não oferece respostas, mas nos obriga, de forma inevitável, a permanecer perguntando. Por isso incomoda tanto.
Porque não é um filme que se assiste e se abandona. É um filme que insiste em existir dentro de quem o viu.
E isso é um grande feito em tempos de trocas coniventes, líquidas, vazias e mastigadas. “O Drama” é a oportunidade de usufruir de um cinema que convoca o espectador não apenas a assistir, mas a pensar, se posicionar, a lidar com aquilo que não cabe em soluções fáceis. Nesse sentido, “O Drama” acerta. Ainda que não dê conta de tudo o que levanta. Porque há uma coragem em propor o incômodo.
Há uma urgência em tensionar o que preferimos não olhar. E há, por fim, uma audácia em abrir perguntas que não se deixam encerrar.



