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‘O Aprendiz’, ‘A Substância’, ‘Wicked’ e ‘A Garota da Agulha’: a raiva feminina e a maldade humana
’’Maravilhosa, de coração puro. As pessoas vão amar’’, disse Harvey para Sue em ‘A Substância’.
Por Paula Cunha
Não é fácil assistir os filmes indicados ao Oscar. Você não encontra nenhum com menos de duas horas de duração e eu quero aproveitar bem meu tempo assistindo filmes de mulheres (mas abri uma exceção para ‘O Aprendiz’ por causa da Maria Bakalova). Vou assistindo e refletindo sobre os temas.
Nunca fui fã de musicais, mas me encantei com ‘Wicked’ e assim que ele começou, pensei: “Você nasce mau ou torna-se mau? Essa pergunta não saiu mais da minha cabeça à medida que os filmes passavam: ‘’Por que a maldade acontece?’’
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Esse questionamento começa em ‘Wicked’ quando Elphaba, uma jovem verde e rejeitada pelo pai, ‘’sou lindamente trágica’’, vai levar sua irmã para o primeiro dia de aula em Shiz. Ela causa estranheza em Glinda, a loira vestida de cor-de-rosa e querida por todos.
Glinda é como Cher em ‘As Patricinhas de Beverly Hills’: pega as pessoas como projeto e manipula a vida delas até se sentir melhor e com um propósito. Sua solução para tudo é se tornar popular, assim como Sue ou Trump. ’’Você vai saber qual gíria usar’’, Glinda diz, e vai bater cabelo: ‘’toss toss’’.
Elphie tem um talento natural, é envolvida pelos outros à sua volta até se revoltar e decidir não fazer mais as vontades deles. Nesse momento, ela vira a bruxa má.
Madame Morrible, sua professora, e o Mágico usam as pessoas em troca de poder, assim como Trump em ‘O Aprendiz’. O Mágico não tem poderes reais e usa de intimidação para assustar os outros, enquanto Trump aprende com Roy Cohn a ameaçar, intimidar e nunca assumir o que faz, descartando seu mentor quando não precisa mais dele. Madame Morrible e o Mágico fazem o mesmo com Elphaba, inflamando a população para caçá-la. Os três estão dispostos a tudo e vão explorar e causar medo em quem estiver no seu caminho.
Mas, nem sempre fica claro onde a pessoa quer chegar com sua manipulação. Em ‘A Garota da Agulha’ Dagmar chama Karoline para trabalhar e morar com ela para aprender sobre a adoção de bebês. Karoline acredita que as crianças são dadas com uma quantia em dinheiro para Dagmar e vão ser adotadas por boas famílias, mas descobre que eles são, na verdade, assassinados por ela.
Dagmar é tão cruel que deixa Karoline se apegar a um dos bebês, amamentando e dormindo com ele. Quando ela descobre a realidade, sente um misto de raiva e dor: ‘’O mundo é um lugar horrível’’. Seu estado de vulnerabilidade a deixa à mercê de Dagmar, assim como Elisabeth Sparkle quando decide usar a substância. Ambas se submetem ao risco a ponto de Karoline quase se tornar Dagmar e Elisabeth se fundir com Sue, sua versão mais jovem no filme de Coralie Fargeat.
Se você é mulher e quer saber o que os homens dizem pelas suas costas, vá ao banheiro masculino. ‘’Você já sonhou com uma melhor versão sua?’’, diz a voz de ‘A Substância’.
‘A Substância’ lembra um pouco a comédia ‘A Morte lhe Cai Bem’: as tentativas de retoque com a maquiagem, o desespero ao olhar para cada detalhe do rosto.
Elisabeth Sparkle não quer mais nada da vida, só trabalhar. Ela arruma um jeito de não ser descartada pela sociedade (o homem), como Karoline foi por seu amante em ‘A Garota da Agulha’, quando perdeu o emprego mesmo estando grávida.
A mulher está sempre correndo contra o tempo. E quando decide ter um pouco de vida social é que tudo começa a dar mais errado.
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’’Ela é a minha mais linda criação’’ poderia ter sido dito por Trump, mas foi dito por Harvey, chefe de Sue/Elisabeth. Mulher nenhuma é criação de um homem e o que elas sentem é raiva. Raiva com o tempo, com as regras, com o próprio corpo, com elas mesmas. Mas nem toda mulher pode se dar ao luxo de quebrar tudo e pôr sua raiva para fora.
Elphaba tem o talento que ninguém, nem o próprio mágico, nem ninguém em Shiz. Karoline tem uma vida tão vulnerável que sua única opção quando é dominada pela raiva e desespero é fugir ou morrer. Elisabeth Sparkle/Sue vão até as últimas consequências, se vingando de todos em uma sequência a la Kubrick: a mulher com prazo de validade deu um banho de sangue em todo mundo. Toma o meu sangue, todo ele.
’’Você acha que mulher precisa de ajuda’’, diz Ivana para Trump quando ele quer pagar de galã. Uma cidade sem luz , uma mulher viciada, um banho de sangue. Tem que ter estômago para ser mulher, “’Você consegue”, diz Elisabeth ao final de todo vídeo de ginástica.
Mas, tá bom. Voltamos ao início: a maldade nasce nas pessoas ou as pessoas ficam más?
Uma coisa eu sei. Se você for mulher, não dá para ser boazinha, principalmente se você for demitida no seu aniversário.
Texto produzido em colaboração a partir da Comunidade Cine NINJA. Seu conteúdo não expressa, necessariamente, a opinião oficial da Cine NINJA ou Mídia NINJA.