O mês de janeiro é também conhecido como o Mês da Visibilidade Trans, por conta  do dia 29 de janeiro, dia Nacional da Visibilidade Trans. Em 2026, o movimento comemora seu vigésimo segundo aniversário e a importância simbólica e política desta data. Na prática, isso significa que precisamos olhar com mais atenção e intenção para as pautas desta comunidade específica que, no Brasil, ainda tem desafios grandes em diversos âmbitos, sobretudo, no mercado de trabalho. Em 2023, segundo dados do Ipea, apenas 25% das pessoas trans estavam empregadas formalmente. Outro dado que também chama a atenção é que, em média, o salário desta comunidade gira em torno de R$2.707 por mês, valor 32% inferior à média nacional (R$3.987). Apesar do diagnóstico claro da transfobia estrutural, muitas pesquisas ainda não trazem dados concretos em relação às informações de trabalho doméstico ou, por exemplo, quantas dessas pessoas são  Microempreendedores Individuais (MEIs).

Mesmo com o cansaço de terem que vencer essas barreiras, felizmente, ainda existem profissionais poderosas que estão deixando um legado irretocável por onde passam. É o caso da PR internacional Pamela Ferreira, CEO da Savoir Faire e da LMEAV Paris, que mora há 16 anos na capital francesa.

Apesar de estar criando impacto no mercado da beleza de forma estratégica em Paris, a carioca Pamela começou sua trajetória profissional em um setor bem diferente do qual exerce hoje. “Minha trajetória começou nas salas de aula, ensinando informática, acreditando profundamente na potência da educação”, conta. Contudo, esses mesmos ambientes trazem recordações que a marcaram de forma profunda.

Pamela começou sua transição dentro dessas instituições. “Em 2004 (Méier – RJ), eu andava meio “andrógena”; as pessoas olhavam e não entendiam: era uma mulher? Não era? Porque eu já estava na transição tomando hormônios e essas coisas todas. Eu tive o apoio de três mulheres que eram donas de uma destas escolas e elas me disseram que, se eu era boa para fazer a gestão de 300 alunos, eu poderia fazer também a de 5 mil, e foi aí que virei coordenadora pedagógica, além de professora. Uma vez, uma delas me perguntou uma coisa: “você está feliz do jeito que você está vestida?” E eu falei, “não”. E ela me disse: “então saia agora, compra a roupa que você quiser e volta para trabalhar”. “Eu saí, comprei uma roupa na primeira loja que vi na esquina e voltei realmente inteira”, se emociona ao contar. 

Mas como nem tudo são flores na vida de pessoas que têm corpos dissidentes, numa troca de gestão, Pamela sentiu o peso da transfobia estrutural e foi desligada pelos novos donos, mesmo sendo uma pessoa extremamente competente. De 2005 a 2007, já transicionada, ela passou este período buscando novos empregos e sentiu que o mercado de trabalho andava resistente com sua nova identidade de gênero e decidiu que precisava respirar novos ares. “A Europa foi um lugar onde eu tive a oportunidade de vir naquela época porque o Brasil não me dava oportunidades de estar dentro do mercado de trabalho formal, independente da minha formação”, lembra.

“Paris surgiu como um chamado. Aqui, a maquiagem abriu meu primeiro caminho: a moda; o segundo, o PR e o encontro definitivo entre tudo o que eu sempre fui: alguém que entende de pessoas, histórias e códigos. E eu ainda faço um paralelo com tudo isso: eu precisei vir pra fora para ser valorizada e reconhecida pelo Brasil”, ressalta.

O novo país e a nova cidade também trouxeram desafios significativos em sua vida que a fizeram recuar: a solidão e a solitude de estar longe da família depois de 02 anos morando em Paris a fizeram retornar ao Brasil e começar a trabalhar em um salão de beleza por 11 meses. Na sua primeira passagem pela Europa, Pamela também morou na Suíça e na Alemanha, onde teve que aprender também a língua mãe destes países. Na França, contudo, ela encontrou um idioma muito próximo do português brasileiro, e a facilidade de falar francês veio rapidamente por conta disso. Outro fato que a ajudou a superar estes desafios, foi ter como segunda língua o inglês.

Após este breve período morando no Brasil e não se identificando com a nova área, Pamela voltou para Paris e, o “pulo da gata”, veio depois dela assistir um tutorial de maquiagem no Youtube. “Eu sempre via as minhas clientes no Brasil saindo com o cabelo pronto, mas sentia falta de um detalhe: uma maquiagem, uma máscara de cílios, um blush ou um gloss para poder complementar essa indumentária da beleza feminina. Quando vi o vídeo no Youtube, descobri que era de uma escola de maquiagem aqui em Paris”.  

A escola é a Makeup Atelier Paris, onde Pamela começou a sua trajetória como tradutora, maquiadora e PR. “Comecei a trabalhar para grandes marcas como Dior, Chanel e Givenchy”, conta.  A marca hoje está em mais de 33 países no mundo inteiro, inclusive, no Brasil.

Mesmo sendo a única mulher trans negra na França atuando como PR de moda especializada em personalidades públicas brasileiras, Pamela sabe que construir pontes é um dos maiores legados que ela pode deixar para as futuras gerações e que isso tem um significado simbólico e, acima de tudo, político. “Isso tudo significa existir como afirmação e resistência. Significa abrir caminho onde antes não havia trilha. Representa responsabilidade — mas também orgulho. É saber que cada porta que eu atravesso não se fecha atrás de mim”, frisa.

Hoje, o FODA separou três perguntas especiais para que os leitores da coluna possam conhecer um pouco mais sobre a disruptiva Pamela Ferreia.

Luiz Vieira: Pamela, a sua história tem muita musculatura social. Hoje, na sua opinião, qual seria o seu principal superpoder? Seria a coragem, a resiliência? 

Pamela Ferreira: Eu acho que seria realmente a resiliência, pois é algo que é muito forte em mim. Se eu não for resiliente, significa que eu tenho que desistir. Se eu desisto, significa que eu estou aceitando aquele lugar que a sociedade dita nós — mulheres trans — devemos estar. E nós sabemos que as pessoas transfóbicas querem que os nossos corpos estejam apenas nas esquinas. 

Luiz Vieira: Pamela, quais são as suas maiores referências? Se puder citar três, por gentileza. 

Pamela Ferreira: É bem interessante essa pergunta porque as pessoas que eu tenho como referência são pessoas plurais mesmo, diversas. Eu tenho em primeiro lugar, de maior autoestima mesmo, de referência de pessoa, de ser humano, de conduta, de comportamento: Maria Fernanda Cândido. Ela é uma pessoa humana, com toda sua delicadeza e elegância. Ela enxerga o que está acontecendo no mundo e te dá o braço; ela é o tipo de pessoa que se ela abre uma porta, ela automaticamente entende que essa mesma porta tem que ser aberta para você também.Esse é o comportamento dela, com toda elegância e discrição, ela não mete o pé na porta. Ela é uma pessoa que eu tenho o mais alto apreço.

E tenho também como referência a Cris Vianna. Ela é uma mulher que passou por muitas coisas. Tudo que ela conquistou, foi sozinha. Ela não teve ninguém que fizesse algo por ela. A Cris é casca grossa. Eu ter conseguido furar essa bolha dela e a gente se tornar amigas, me fez conhecer mais de sua história e ela acabou se tornando uma referência para mim.

Outra pessoa é a Deborah Secco, pois onde ela vai, ela lembra de mim. Para mim, ela é uma referência muito forte.

Amo demais também Mario Sergio Cortella; acho que ele é um homem extraordinário. Ele traz muita leveza para o mundo em suas falas e comunicação. Inclusive, quando ele fala do preconceito, ele fala com muita sabedoria e clareza. As pessoas precisam entender que nós estamos aqui e que nós fazemos parte desta sociedade. Nós não vamos retroceder, nós vamos continuar avançando. Aliás, é a sociedade que tem que nos alcançar para poder nos acompanhar. 

Uma quinta e última pessoa que eu gostaria de citar é a Luiza Brunet. Ela é um exemplo de referência de pessoa muito grande, porque ela passou por muitas coisas. Eu mesma passei por um episódio de violência doméstica aqui na França, e quando passei por este episódio, a Luiza foi a primeira pessoa  que me estendeu a mão. Ela é uma pessoa que eu conheci em um dos momentos mais difíceis da minha vida. Foi uma relação que nasceu da dificuldade, da dor.

Luiz Vieira: Qual legado você gostaria de deixar?

Pamela Ferreira: Quando escuto essa pergunta, eu penso sempre no último dia da minha vida, e eu olho para quem eu quero ver neste último dia. Eu quero ser realmente uma pessoa importante, no sentido de ser importada para dentro das pessoas, de saber que eu vim aqui, e neste tempo que eu passei aqui, eu pude fazer a diferença. Eu acredito que esteja indo pelo caminho certo. Um exemplo disso é que no ano retrasado eu trouxe a atriz Cris Vianna para Paris na semana de moda, e foi o ano que eu mais consegui trazer pessoas pretas para uma semana de moda. 

Eu chegava nos lugares e eu tinha a Cris Vianna, a Carol Amaral, a Jessica Córes, a Raissa Santana, eram muitas mulheres pretas maravilhas que chegavam chegando. E a Cris, por exemplo, nunca tinha vindo a Paris na vida. E uma vez ela me disse: “Pamela, você nunca vai conseguir compreender o que você fez por mim”. 

Quando temos esse feedback de uma atriz como a Cris Vianna, esse é o legado, de ser a porta de entrada para todas nós: mulheres pretas, mulheres trans e todas as minorias.