Primeira mulher cega comentarista paralímpica: conheça a história da velocista brasileira Ádria Santos

Foto de 2004 que aparece Adria e seu guia Chocolate correndo em uma pista de atletismo. Eles estão sorrindo emocionados.

Ádria Santos e seu guia, Chocolate, comemoram o ouro nos 100m rasos da classe T11, em Atenas 2004. Foto: CPB

Por Danilo Lysei e Laura Abreu

“Vozes e rostos: comentaristas paralímpicos” é uma minissérie de reportagens, em formato Perfil, que contará um pouco da história por trás dos atletas paralímpicos participando como comentaristas na edição dos Jogos Paralímpicos Tóquio 2020. É uma forma de nos orgulhamos não só dos nossos representantes que estão no Japão, mas daqueles que aqui ficaram e que estão brilhando, trazendo mais inclusão, diversidade e representatividade em uma cobertura esportiva da edição.

Filha do vento. Esse é o apelido de Ádria Santos, ex-velocista brasileira e tetracampeã paralímpica, o maior nome entre as mulheres da competição. Ao dizer que ela já foi considerada a velocista cega mais rápida do mundo, o porquê do seu apelido fica subentendido. Foi entre as raias da pista de atletismo que Ádria trilhou seu caminho até se tornar uma enorme potência no esporte paralímpico com 13 medalhas no pescoço pela classe T11 (4 medalhas de ouro, 8 de prata e 1 de bronze).

 

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Os primeiros passos

Mineira do interior, a atleta foi perdendo a visão devido a uma doença degenerativa, até ficar totalmente cega em 1994. Com 10 anos, Ádria se mudou para Belo Horizonte, capital de Minas Gerais. Mudança que representou não só a ida à capital, mas sim o início do percurso de maior velocista do atletismo de todos os tempos.

Foi em Belo Horizonte, em 1987, no Instituto São Rafael – escola para deficientes visuais, que sua trajetória esportiva deu os primeiros passos. No instituto, a mineira se destacava nas atividades lúdicas e esportivas. Por isso, a encaminharam para a Associação de Deficientes em Belo Horizonte para impulsionar o rendimento da atleta.

Desde o início, a velocista dominava a pista. As coisas foram acontecendo na mesma velocidade e intensidade em que Ádria corria: seu talento foi tomando outro rumo, quebrando a fronteira do Brasil e aterrizando em Seul, na Coreia do Sul. Com apenas um ano de treinamento e 14 anos de idade, Ádria participava de sua primeira paralimpíada (Seul 1988).

A partir daí, ela não parou mais de acelerar. Ao todo, participou de seis edições dos jogos paralímpicos (Seul 1988, Barcelona 1992, Atlanta 1996, Sydney 2000, Atenas 2004 e Pequim 2008), subindo no pódio em todas elas. Além disso, o fenômeno do paradesporto também fez participações nos Jogos Parapan-americanos e em outras competições.

Não só história e muita evolução esportiva, Ádria coleciona medalhas em sua carreira: são 654 no total, sendo 583 ganhas em competições nacionais e 71 em internacionais, incluindo as treze conquistadas em paralimpíadas. Todas essas medalhas e conquistas renderam o título de maior medalhista brasileira feminina nas paralimpíadas, de velocista cega mais rápida do mundo em 2000 e 2006 e, também, o de atleta brasileira mais influente pela Forbes, em 2010.

Foi na pista de Pequim, em 2008, com o número 1250 no peito, que Ádria conquistou sua 13º medalha nas paralimpíadas. O bronze entrou para a sua coleção e marcou a despedida de Ádria dos Jogos Paralímpicos.

na imagem Adria - a esquerda - corre de frente , em uma pista de atletismo, acompanhada pelo atleta guia - a direita. Ela tem a pele parda, cabelos escuros e presos. Veste um top e shorts curto.

Em sua categoria classe T11, Adria corre acompanhada de um atleta-guia, conectado por um cordão de ligação.

Em 2012, antes dos jogos de Londres, Ádria teve uma contusão que a deixou de fora da edição. Após dois anos, decidiu se aposentar. O momento foi bem difícil para ela, que sempre foi muito ativa e, de repente, foi forçada a desacelerar sua carreira no atletismo. “Me vi sem muita saída e decidi fazer a aposentadoria forçada em 2014. Nesse período, enfrentei uma depressão. Eu me sentia vazia. Tive crises intermináveis de pânico e não conseguia nem entrar no quarto onde guardava minha coleção de medalhas e minhas premiações”, contou.   

Em 2016, Adria foi convidada a participar da condução da tocha paralímpica no Rio 2016, na cerimônia de abertura no Maracanã. Em uma noite de chuva, a atleta recebeu, na época, as chamas da colega Márcia Malsar e passou por fim, é claro, nada mais nada menos do que ao nosso Clodoaldo Silva.

Novos Rumos

Após se aposentar e passar por um processo difícil, a ex-velocista decidiu se reinventar. Com o apoio do marido, que a levava para correr em corridas de rua, Ádria começou a fazer outras atividades. Fez dança de salão, pole dance, pilates e chegou até o paraciclismo, em 2018. “Nas corridas, eu encontrava pessoas que me incentivaram,  diziam que eram meus fãs. O recomeço foi assim. Aos poucos, retomei algumas atividades. E quando percebi já estava treinando ciclismo paralímpico.  Foi uma experiência muito interessante porque a sensação de estar competindo novamente e de sentir aquela adrenalina voltou. Por ser um esporte de velocidade,  me chama muito atenção”.

A filha do vento foi, então, ser veloz nas pistas de ciclismo. Começou a treinar e esteve presente em eventos do paraciclismo, como a Copa Brasil de Paraciclismo. Contudo, com a chegada da pandemia, os treinos pararam. Porém, como boa atleta que é, já tem planos de competir na modalidade, mas confessa que será um desafio porque necessita ter um piloto fixo, o que pode ser difícil de encontrar.

Agora, além das medalhas, seu quartinho de premiação também conta com a conquista do diploma em bacharel de Educação Física. Ádria formou em fevereiro deste ano pela instituição UniSociesc.

Comentarista 

Com o seu rendimento, inúmeras chegadas ao pódio e é claro, um carisma sem igual, Adria fez sua representação de um jeito diferente nos jogos do Japão: a de comentarista paralímpica oficial, pelo principal canal dos jogos, o SporTV.

 

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Escalada para um time de campeões, a veterana paralímpica surpreendeu o país ao ser uma das vozes emblemáticas da abertura das Paralimpíadas de Tóquio 2020. Ela, quem se aventurou nos comentários, ressalta que ainda prefere estar numa pista para correr:

“Nunca fiz nada igual e fiquei muito nervosa, pois sabia que a responsabilidade era muito grande. As pessoas me ajudaram muito, tiveram paciência comigo. O narrador Everaldo Marques é um homem muito sensível e um ser humano excepcional. O Fernando Fernandes também é da mesma linha. Tive apoio de uma pessoa especial que esteve o tempo todo ao meu lado me orientando e passando informações importantes”.

Conhecendo os estúdios e a mesa de transmissão pela primeira vez, ela narra o suporte e o sentimento do momento único. “Eu chorei muito quando acabou. Foi um sentimento de dever cumprido e de muita emoção”, descreve.

Consciente quanto a representatividade que sua participação trouxe, a velocista pontua que ocupar a cadeira na mídia de cobertura dos jogos é a quebra de um paradigma na comunicação. “As pessoas sabem pouco sobre o histórico da mídia e esporte paralímpico no Brasil. Ter uma mulher, negra, cega em uma TV como comentarista é emblemático.  Ninguém nunca imaginaria que uma cega poderia comentar os jogos. Quando me fizeram o convite eu não pensei só em mim; eu pensei no que isso poderia significar em inclusão, espaço igualitário, abertura de oportunidades”, destacou após a atuação e a chuva de mensagens recebidas de parabenizações de todo o Brasil.

Adria posa para a foto de perfil. Ela veste camisa azul da equipe de comentaristas da emissora e calça beje. Tem os cabelos soltos cacheados e sorri.

Ativa nas redes sociais, Adria compartilhou o momento em seu Instagram com a frase “o que vocês acharam do meu uniforme como comentarista”.

Quanto a percepção em relação a abertura da sociedade para as competições paralímpicas, Ádria acredita que ela, enquanto atleta paralímpica, tem papel fundamental na mudança de visão da sociedade em relação às pessoas com deficiência (PCD). “Eu e tantos outros fazemos parte de uma geração que passou por muitas dificuldades, mas é gratificante ver onde o esporte chegou e o quão ele tem contribuído positivamente para mudar a mentalidade da sociedade. Ainda temos um longo caminho, mas estamos na direção certa”, encerra ela.

Das pistas para os estúdios de televisão, a filha do vento comentou a abertura das paralímpiadas e irá comentar a cerimônia de encerramento. Sua participação nas transmissões foi breve e ela confessa que não se sente completamente preparada para as telinhas. Mas que ainda ecoará em nossos ouvidos com participações especiais a serem reveladas.

Texto produzido em cobertura colaborativa para a NINJA Esporte Clube.

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