Esta é mais uma reportagem da seção “Vozes e rostos: comentaristas paralímpicos” da NINJA Esporte Clube

Verônica Hipólito sorri com a bandeira do Brasil a frente. Foto: Daniel Zappe/MPIX/CPB

Por Danilo Lysei,  Laura Abreu e Tatiane Ferreira

Vozes e rostos: comentaristas paralímpicos” é uma minissérie de reportagens, em formato Perfil, que contará um pouco da história por trás dos atletas paralímpicos que participaram como comentaristas na edição dos Jogos Paralímpicos Tóquio 2020. É uma forma de nos orgulhamos não só dos nossos representantes que foram ao Japão, mas daqueles que aqui ficaram e que brilharam, trazendo mais inclusão, diversidade e representatividade em uma cobertura esportiva da edição.

Verônica Hipólito: atleta paralímpica, estudante de economia, mulher de sorriso aberto e carisma sem igual. Há diversos atributos e características que a definem, mas a mais apropriada atualmente é: sensação da internet. A atleta paralímpica foi o fenômeno dos Jogos Paralímpicos de Tóquio 2020 pelas coberturas no SporTV2, protagonizando momentos icônicos e se tornando um dos nomes mais aclamados do momento nas redes sociais.

Início da caminhada

Verônica começou sua vida como esportista aos 10 anos de idade, no judô. Em 2011, a atleta teve que se submeter a uma cirurgia para remover um tumor cerebral e, por isso, teve que suspender a prática esportiva iniciada. Em menos de um ano, a paulista da zona sul sofreu um ataque vascular cerebral (AVC),  que ocasionou a paralisação do lado direito de seu corpo. O fato e os grandes obstáculos vividos posteriormente se tornaram um período de superação para atleta, enfrentados com muita resiliência e com aquele sorriso no rosto que todos nós conhecemos.

Longe de parar, após o tratamento, recuperação e incentivo do pai que a levou para um festival de atletismo, Verônica iniciou suas primeiras caminhadas na modalidade. E, diferente do habitual, a conexão não foi imediata. Ela não se interessou muito no começo, se sentia desanimada e pensava não ser o que queria. Após um tempo, passou a gostar de correr e se identificou com o esporte.

Devido às sequelas, a atleta sentia muitas dores nos primeiros treinos. Sem que isso a impedisse, Verô tinha em mente que queria ser a mais rápida de sua cidade, o que ela não sabia é que seria uma das mais rápidas do mundo. Foi quando em 2013, com 17 anos, a atleta triunfou sua primeira medalha de ouro, ao competir e vencer seu 1º campeonato mundial de atletismo, na categoria dos 200m rasos na classe T38. “Eu não sou A Menina dos 200 tumores. Eu quero ser uma Gigante do século. Quero inspirar e ajudar muitas pessoas, e é claro: conquistar muitos títulos”, narrou em entrevista ao UOL Esportes, em 2019.

Verônica está com o cabelo preso em um rabo de cavalo e usando o uniforme, uma jaqueta amarela com a bandeira do Brasil. Ela sorri para a câmera e com as duas mãos segura a medalha de ouro que está pendurada em volta de seu pescoço. Com o braço esquerdo, ela segura junto ao corpo, o mascote de pelúcia do campeonato, um leão.

Em seu primeiro campeonato mundial, Verônica já mostrou que seria GIGANTE e saiu vitoriosa com uma medalha de ouro no pescoço. Foto: Washington Alves / Mpix

No mesmo ano, Verônica recebeu a notícia que o tumor havia voltado e retornou ao tratamento para a doença. Após 2 anos, descobriu uma anemia forte e uma síndrome rara chamada Polipose Adenomatosa Familiar, doença que ocorre quando os pólipos pré-cancerosos se desenvolvem ao longo do intestino grosso e no reto. Embora se concentrasse em todos os tratamentos, nada a impediu de participar dos Jogos Parapanamericanos, e levar para a casa mais quatro medalhas (três de ouro e uma de prata) como atleta nos 100m, 200m e 400m na classe T38.

Após os jogos, realizou um procedimento cirúrgico para remover 90% do intestino grosso, voltando a treinar somente em fevereiro de 2016, um ano depois. Ao retornar, Verônica ainda conquistou uma medalha de prata e outra de bronze nos Jogos Paralímpicos de Verão de 2016, realizados no Rio de Janeiro. “O bronze foi um ouro para mim, porque nessa prova que foi batido o recorde europeu, asiático, das Américas, da Oceania, da competição e mundial”, afirmou a atleta no TedTalk.

E em 2019, a atleta foi convocada para participar dos Jogos Parapanamericanos, levando para casa três medalhas de prata nos 100m e 200m de classe T37 e revezamento universal 4x100m.

Verônica está em movimento, de lado, correndo em uma pista de atletismo. Ela veste camiseta e shorts da delegação.

Hoje com 25 anos de idade e 8 anos de carreira, a atleta já soma 11 medalhas em competições. Foto: Marcio Rodrigues/MPIX/CPB

Além das medalhas e disputas, a Magrela, como é apelidada, tem no currículo a inovadora conquista por criar uma equipe de atletismo chamada Naurú, que busca dar suporte para atletas paralímpicos da modalidade.

Na “raia” do sucesso televisivo

De entrevistada em jornais menores à comentarista da emissora Rede Globo: com a oportunidade de participar da edição dos Jogos no time de narradores do SporTV 2, a medalhista transformou as madrugadas de provas em espaços de aprendizado e diversão para os telespectadores que acompanhavam os atletas paralímpicos.

“Verô”, “Vê” ou “Moça do SporTV”. Definitivamente, a carreira esportiva e a vida profissional de Verônica não são mais as mesmas. Junto de nomes de peso do paradesporto, como Ádria Santos, Clodoaldo Silva e Fernando Fernandes, e de comentaristas já experientes, como Luiz Prota e Sérgio Arenillas, Verô dominou o espaço televisivo e foi conquistada por ele. Dali em diante, é possível vislumbrar que a velocista alcançou mais uma marca no sucesso.

O convite e sua participação como narradora foram significativos não só para as pessoas que a assistiram, mas, principalmente e pessoalmente para a Magrela, que se reinventou diante das adversidades. “Em um ano que eu descobri a volta do tumor na cabeça (de novo), o medo das dores/lesões e a frustração de não ir à Paralimpíada, fui convidada para ser comentarista. Mas tem um porém que ninguém sabe, esse convite me salvou. E fui muito feliz nesses dias: dei risada, fiz amizades, conheci muitos ídolos, aprendi de forma intensa, conheci os bastidores e me senti em Tokyo”, escreveu em uma postagem no Instagram.

Extrovertida desde o início, durante a sua participação Verô construiu jargões como “SOLTA O PIX”, “ACORDA MENINAAA” e “ISHALA MUITO OURO!!!” em expressão às diversas emoções tidas enquanto comentava os jogos. Em uma de suas primeiras madrugadas, ao posicionar que  “a deficiência é só uma característica como qualquer outra” e que “especial é aquela pessoa que você paga uma pizza, um açaí, uma coisa maneira”, a atleta compartilhou posteriormente em seus stories do Instagram diversos presentes recebidos de fãs.

Mas foi também na abordagem e no estudo aguçado dos competidores que a atleta se diferenciou: didática e sem medo algum de errar, a velocista paralímpica levantou assuntos relevantes com o objetivo de modificar a cobertura tradicional paralímpica. Mesmo com a pouca idade, explorou pautas como valores das premiações de atletas, referenciamento às deficiências e principalmente o anti capacitismo – expressão que resume o enaltecimento de pessoas com deficiência (PCD) esportistas pela performance e indicadores, em detrimento a falas conservadoras, ideias e construções sociais que subestimam o paratletismo e sua capacidade.

Verônica, assim como outros atletas, participou e foi responsável, também, por trazer inclusão e uma comunicação não violenta para a cobertura esportiva do evento. Em entrevista à Folha de São Paulo, diz acreditar que a imprensa foi uma das mudanças advindas da edição deste ano. Com atletas comentaristas paralímpicos e uma consciência maior da sociedade, o foco não foi na deficiência, mas no rendimento e na eficiência.

“Agora espero que isso realmente mude, porque a gente achou que ia mudar em 2016, em 2012. Um dos pontos que eu coloco é que nas Olimpíadas tinha mais gente cobrindo e falando sobre os esportes com mais equidade. Eu espero que mude e é por isso que estou me colocando à disposição de todos e todas para ajudar”, finalizou ela em entrevista ao jornal.

Influencer da geração Z

Ao compartilhar fotos e vídeos cômicos dos bastidores televisivos durante os trabalhos, de maneira que aproximava quem a assistia, a paulista foi acumulando uma enxurrada de fãs em seus perfis nas redes sociais, até consolidar o sucesso hoje de mais de 42 mil seguidores no Instagram, mais de 8,7 mil no Twitter e levar o seu @ a ocupar o Top 20 entre os mais citados do país. Para se ter ideia da ascensão da Magrela, em apenas um mês ela ganhou mais de 17 mil seguidores e sua taxa de engajamento é de 13,16%, porcentagem acima da média com base nos seus seguidores.

Dado tirado da plataforma de monitoramento Vtracker, mostra que Verônica está entre os 20 mais citados no país do Twitter!

E mesmo após o fim das paralímpiadas, Verônica mantém o sucesso, confirmando que o seu estrelismo não é cadente e veio para ficar.

 

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Texto produzido em cobertura colaborativa da NINJA Esporte Clube.

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