O segundo evento multiesportivo do mundo já trouxe medalha brasileira, mas a falta de visibilidade faz com que poucos conheçam os jogos

Foto oficial da delegação brasileira de surdoatletas, mais de 50 pessoas, com roupas verde e amarelo.

Foto: Cristiano Carvalho / CBDS

Por Carol Bastos e Maria Paula

Se você esteve ligado nas paralímpiadas, notou que dentre todos esportes e modalidades existem várias categorias diferentes que dividem as pessoas com deficiência em grupos. Isso acontece para que haja o máximo de igualdade possível na hora de competir. 

Dentre todas as classes e grupos, encontram-se pessoas com deficiências físicas, visuais e intelectuais. Porém, das categorias ou classes que várias modalidades apresentam, nenhuma possui uma para atletas surdos.

Para entendermos por que os atletas surdos não estão inseridos nas categorias nem nas paralímpiadas, é importante conhecer a história do evento multiesportivo mais antigo após os Jogos Olímpicos.

Os primeiros jogos, conhecidos na época como International Silent Games, (em português: Jogos Internacionais Silenciosos), foram realizados em 1924 em Paris com a participação de atletas de 9 nações europeias. Os jogos foram ideia de Eugène Rubens-Alcais, um ativista surdo que estava determinado a desenvolver uma competição para pessoas com deficiência auditiva. Ele foi o presidente da Federação Francesa de Esportes para Surdos.

Naquela época, a sociedade acreditava que surdos, na verdade eram intelectualmente inferiores, não conseguiam se comunicar ou fazer algo útil e Eugène achou que a competição era uma bela forma de provar, de uma vez por todas que todos esses achismos não passavam de uma ilusão preconceituosa à pessoas com deficiência auditiva. 

Os Jogos Silenciosos foram os primeiros jogos para pessoas com deficiência no mundo todo, e o segundo evento esportivo com várias modalidades diferentes a ser criado. Ele acontece a cada 4 anos. De acordo com o site oficial dos jogos, em 2017 o Brasil levou 101 atletas, o maior número da história da participação do Brasil nas surdolímpiadas. 

O presidente da Associação de Surdos de São Paulo, Jorge Rodrigues, 26, diz que a participação dos surdos nas Paralimpíadas é uma questão complicada pois revela muito sobre a identidade dos surdos, “É um assunto muito delicado pois abre brecha para interpretações desfavoráveis sendo que a gente não é contra a existência das Paralimpíadas, pelo contrário, a gente aprecia e celebra muito. Mas não é para nós, surdos.” 

Ele ainda explica que houve um momento em que o Comitê Olímpico Internacional tentou unificar as Surdolimpíadas com a Paralimpíadas, mas a comunidade surda e o próprio Comitê Internacional de Esportes para Surdos não quis que isso acontecesse. “Envolve uma questão de pertencimento: a comunidade surda não se sente confortável em competir com os ouvintes e não acha justo isso. Além disso, tem a questão da acessibilidade, né? Teria que adaptar todos os jogos para que seja acessível aos surdos também, o que demandaria o aprendizado (novamente) por parte dos atletas paralímpicos.”

Já Emerson Faria, 28, publicitário e pessoa com deficiência auditiva, acredita que poderia ter mais investimentos e incentivo para unir ambas porque a mídia acaba apagando muito da existências de pessoas surdas. “Como somos mais de 10 milhões de pessoas surdas no Brasil, tá muito claro a importância da mídia para a divulgação das Surdolimpíadas.”

Emerson, homem branco, cabelo castanho raspado, barba curta preta. Usa uma camiseta verde e por cima uma camisa manga longa azul com bolinhas, calça de moletom preta e all star vermelho com branco. Está sentado em uma mureta, aparece de frente, com a perna direita cruzada na frente, segurando com as mãos, ao fundo, céu azul limpo.

Foto: arquivo pessoal

Durante a entrevista, Emerson revelou que só conheceu a Surdolimpíadas tardiamente em 2021, “porque a minha identidade surda na periferia não é tão bem falada e por isso hoje, com 28 anos, estou me reconectando mais com a comunidade surda e saber que sim existe a nossa representatividade nos esportes.”

Em 2017 o Brasil ganhou medalha de bronze, pela primeira vez no Futebol Feminino, atrás somente da Rússia e da Polônia. No Judô Masculino (-90 Kg) o Brasileiro, Alexandre Soares também conquistou a medalha de bronze e no Karate também levamos bronze com Heron Rodrigues Da Silva na categoria + 84kg.

Na natação fizemos a festa com duas medalhas do atleta Guilherme Maia que ganhou medalha de bronze no 100m freestyle e ouro no 200 m freestyle.

 

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Jorge Suede explicou como que acontece a seleção de atletas para competir e também como algumas adaptações foram feitas em determinados jogos.

No Brasil, para que esses atletas participem da surdolimpíadas, eles competem na Surdolimpíada Nacional, um evento preparativo para a convocação para as Surdolimpíadas. A próxima edição ocorrerá no final de dezembro de 2021, na cidade de São José dos Campos. O evento é organizado pela Confederação Brasileira de Desportos de Surdos.

Além disso, os atletas precisam ter pelo menos uma perda acima de 55 decibéis em ambos os ouvidos. É proibido o uso de aparelhos, implantes cocleares ou outros tipos de aparelhos auditivos, igualando todos os atletas ao mesmo nível.

Os jogos são totalmente em línguas de sinais, a mais usada é a Sign International (Sinais Internacionais). Nos jogos que estamos acostumados a ouvir o soar do apito do juiz, uma bandeira vermelha é usada para dar início a uma competição, na natação e no atletismo, um flash vermelho é usado no lugar da pistola.

Anote em sua agenda que em 2022, as Surdolimpíadas virão pela primeira vez na América Latina, diretamente em Caxias do Sul, Brasil para os jogos de verão que serão nos dias 1 a 15 de maio, já os de inverno serão em Quebec, no Canadá.

Texto produzido em cobertura colaborativa da NINJA Esporte Clube

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