Episódios em Tóquio reacenderam o debate sobre tratamento dado aos equinos nos treinamentos e após as competições

Foto: Getty Images

Por Monique Vasconcelos

Durante a prova do pentatlo moderno, Anikka Schleu, amazona da Alemanha que até então liderava a competição feminina, teve dificuldades de controlar o cavalo designado a ela, o Saint Boy. Nas provas de hipismo, os atletas têm vinte minutos para se acostumar com um cavalo nunca usado por eles. Chorando muito, a amazona disferiu golpes no animal, tentando de todo modo controlá-lo e ao chegar com o equino próximo a sua treinadora, Kim Raisner, essa atingiu o cavalo com um soco no flanco esquerdo.

Na sequência, Saint Boy, visivelmente incomodado, se recusou a pular os obstáculos e realizar as manobras necessárias para que Anikka avançasse na competição. Depois de não completar a apresentação, a amazona, que terminou em quarto na Rio 2016, acabou na 31ª posição em Tóquio.

A União Internacional do Pentatlo Moderno condenou a ação da treinadora alemã e anunciou a punição neste sábado (07). “A UIPM deu um cartão preto para a treinadora alemã Kim Raisner, desclassificando-a do restante de Tóquio 2020. As imagens mostram Raisner acertando o cavalo montado por Anikka Schleu com um soco”, informou a organização. Muitos internautas pedem punição também para a amazona.

Parte dos defensores dos animais diz que se um dos competidores não escolheu competir não é esporte, é escravidão, e que o hipismo traz dor e sofrimento para o cavalo, sendo uma das reclamações que as rédeas curtas e a pressão do bridão mantêm a postura não natural de flexão do pescoço do equino, gerando deformações. Além disso, um estudo feito pela fisiologista veterinária Lidia Tong mostra que a epiderme do cavalo é mais fina e mais sensível, assim sendo, a esporas e chicotes causam mais dor e sofrimento ao animal.

O jornalista e ex-cavaleiro russo Alexander Nevzorov deixou de montar em 2008 após fazer uma série de pesquisas que demonstraram o sofrimento dos cavalos nas atividades equestres. Nesses estudos, Nevzorov descobriu que o freio aperta a língua do animal, batendo no céu da boca, dentes e na gengiva, bem na terminação do nervo trigêmeo. A língua presa pelo bridão dificulta a deglutição da saliva e a garganta fica seca, trazendo mais desconforto para o animal e, além disso, o aparelho digestório é estimulado a secretar mais suco gástrico. Outro ponto que Alexander enfatiza é que a anatomia do cavalo não foi feita para suportar o peso de um ser humano sobre sua coluna.

– O cavalo, para sua infelicidade, evoluiu de tal modo que ele pode disfarçar qualquer dor, exceto a mais insuportável, até o fim, sem demonstrá-la de modo algum. Na natureza selvagem, o cavalo que demonstra dor, fraqueza ou uma enfermidade, ao mesmo tempo que se condena a ser devorado, ou ao ser rebaixado na escala hierárquica do seu rebanho – afirma Nevzorov.

É certo sacrificar os cavalos?

Muitas vezes os cavalos sofrem lesões fatais durante as competições ou treinamentos. Quando sobrevivem, mas a performance é prejudicada é muito comum matarem o animal, porque não vai gerar bons resultados e os custos serão altos para mantê-lo.

Nas Olimpíadas de Tóquio tivemos um caso em que um cavalo foi sacrificado depois de sofrer uma grave lesão na etapa de cross country na prova do Concurso Completo de Equitação (CEE). Jet Set, cavalo suíço montado pelo cavaleiro Robin Godel, tinha 14 anos. De acordo com o comunicado da Federação Equestre Internacional (FEI), o cavalo ficou “extremamente manco” depois de saltar um obstáculo na pista e recebeu atendimento veterinário na hora e uma ultrassonografia revelou uma ruptura irreparável de ligamento na pata traseira direita, logo acima do casco. “Com a concordância dos proprietários e do atleta, foi tomada a decisão de adormecer o cavalo. De acordo com os Regulamentos Veterinários da FEI, as amostras já foram retiradas do cavalo e uma autópsia será conduzida”, informou a nota.

Texto produzido em cobertura colaborativa para a NINJA Esporte Clube

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