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Por Tácio Santos

O controle de dopagem ocorre de maneira similar no esporte olímpico e paralímpico. Em ambos, os testes anti-doping buscam não apenas identificar o uso de substâncias proibidas, como também detectar procedimentos que são não autorizados.

A auto transfusão de sangue é o principal exemplo destes procedimentos. Nele, o atleta retira parte do próprio sangue quando alcança uma condição fisiológica desejada, porém insustentável, e reinsere em seu corpo às vésperas da competição.

Contudo, os procedimentos conhecidos como boosting são específicos do esporte paralímpico, pois ocorrem somente nas modalidades realizadas em cadeira de rodas.

Pessoas com perda dos movimentos e da sensibilidade no tronco e nas pernas costumam ter dificuldade em ajustes involuntários do organismo, como o controle da pressão arterial. Assim, o aumento pressórico necessário durante o esforço para levar sangue aos músculos ativos pode não ocorrer a contento e prejudicar o desempenho físico.

Foto: Wikipedia

Para compensar esta situação, alguns profissionais do esporte e atletas paralímpicos começaram a induzir, deliberadamente, situações que são processadas como risco pelo nosso corpo, mas que não causam dor, uma vez que afetam apenas a região com ausência de sensibilidade. Como parte da resposta natural ao estresse do risco, ocorre um aumento dramático da pressão arterial.

Alguns registros falam em obstruir a saída da sonda urinária para causar distensão excessiva da bexiga, e até mesmo em quebrar os dedos dos pés. Outras formas menos agressivas, mas ainda sim problemáticas, incluem o uso de cintas abdominais, meias de compressão, e diferentes tipos de tiras excessivamente apertadas.

Para surtir o efeito desejado, estas ações costumam ser feitas entre uma e duas horas antes da competição.

Quando a estratégia é simulada em laboratório, com procedimentos clínicos devidamente controlados, ocorre uma melhora de aproximadamente 10% no desempenho físico, que é um incremento bastante expressivo para o esporte de alto rendimento.

Por outro lado, as pesquisas também mostram que a pressão arterial chega a níveis considerados excessivos até mesmo para o contexto da prática esportiva, podendo levar a eventos como AVC (acidente vascular cerebral), e até mesmo a óbito.

O Comitê Paralímpico Internacional propôs medidas sistemáticas da pressão arterial para prevenir o boosting em Atlanta 1996, e as incorporou definitivamente em Sidney 2000. Desde então, houve um aumento na quantidade de análises e a redução do limite da pressão arterial pré-competição de 180 para 160 mmHg. O competidor que ultrapassa o valor tolerado é desclassificado e investigado por um Comitê de Ética.

Mesmo assim, o número de testes ainda é insuficiente, e estima-se que muitos dos atletas submetidos à triagem consigam burlar a avaliação, já que nunca houve um caso sequer identificado neste processo.

De tal modo, algumas das principais informações sobre o tema só vieram a público devido a um estudo patrocinado pela Agência Mundial de Controle de Dopagem, em que atletas paralímpicos falaram anonimamente. Cerca de 55% deles relatou já ter ouvido falar sobre boosting, e 16% relatou tê-lo feito em treinos ou competições. Para metade da amostra, o boosting é apenas razoavelmente perigoso, e para 5%, não é um perigo.

Texto produzido em cobertura colaborativa da NINJA Esporte Clube

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